Dan Barker Publicado: 12/12/2002
Atualizado: 12/12/2002
KALAMIDADE COSMOLÓGICA

de Dan Barker


"Papai, se Deus fez tudo, quem fez Deus?" minha filha Kristi me perguntou quando ela estava com cinco anos de idade.

"Boa pergunta," eu repliquei. Até mesmo uma criança vê o problema com o raciocínio cosmológico tradicional.

O velho argumento cosmológico reivindica que desde que tudo tem uma causa, tem de haver uma primeira causa, uma "primeira causa inalterável." Atualmente nenhum filósofo teísta defende essa linha primária, porque se tudo precisa de uma causa, assim seria em relação a Deus. O único jeito que eles podem lidar com a questão da minha filha do jardim de infância é se eles primeiramente "tirarem Deus desse aperto" (dessa questão).

Uma maneira de abordar isso foi a reivindicação de que somente os efeitos necessitam de uma causa: desde que uma primeira causa não é um efeito, ela está isenta de causa. Uma outra tentativa é concebida a partir de uma causa incerta do universo, repousando no topo de uma pirâmide de relações em vez de uma cadeia de eventos temporais. Mas em princípio esta é uma tática de isentar a conclusão (Criador) de uma casualidade requerida de tudo. Sem evidência de que quaisquer objetos "sem causa" ou "não eventuais" realmente existam, isso faz do Criador uma parte da definição da premissa, a qual é de argumentação circular. Estas versões falham em livrar "Deus" desse aperto.

O Argumento Kalam

Atualmente uma versão mais sofisticada do raciocínio cosmológico está sendo proposta de forma que conecta a antiga teologia Islâmica à atual cosmologia do Big Bang. De acordo com o raciocínio Kalam, o infinito é apenas um conceito: uma infinidade real não existe na realidade. Se a série de eventos temporais é infinita, nós nunca poderíamos ter atravessado todo esse período para chegar ao nosso momento atual. Entretanto, nós chegamos neste momento. Logo, a série de eventos necessariamente teve um começo. Atualmente, os cosmólogos, praticamente em unanimidade, confirmam que nosso universo observável começou no Big Bang, uma singularidade1 que trouxe à existência não apenas matéria e energia, mas espaço e tempo também.

Baseados nisso, filósofos cristãos, como William Lane Craig, estão promovendo uma versão atualizada do raciocínio cosmológico que eles acham que evita os problemas das primeiras tentativas:

  1. Tudo que começa a existir tem uma causa.
  2. O universo começou a existir.
  3. Logo, o universo tem uma causa.

Isto pode ser sedutor para aqueles que já acreditam num deus, mas para mim isso parece suspeito. A cláusula "tudo que começa a existir" soa artificial. Não é uma frase que nós escutamos fora do contexto da filosofia teísta. Isso parece ser um construção ad hoc feita para respaldar esforços apologéticos antecipados.

O Raciocínio Kalam Suplica a Pergunta?

A curiosa cláusula "tudo que começa a existir" implica que a realidade pode ser divida em dois grupos: itens que começam a existir (CE), e aqueles que não começam (NCE). Para este raciocínio cosmológico funcionar, NCE (se tal grupo for significante) não pode ser vazio2, mas o mais importante é acomodar mais de um item para evitar que ele seja simplesmente o sinônimo para Deus. Se Deus é o único objeto permitido em NCE, então CE é meramente uma máscara para o Criador, e a premissa "tudo que começa a existir tem uma causa" é equivalente a "tudo, exceto Deus, tem uma causa." Como acontece com as primeiras tentativas fracassadas, isso põe Deus dentro da definição da premissa do raciocínio, o qual é suposto para provar a existência de Deus, e nós estamos de volta ao início da questão.

Onde os teístas obtém a idéia de que existe um grupo como o NCE? Por quais observações ou argumentos a possibilidade de objetos sem início é assegurada? Certamente não é via o raciocínio cosmológico, o qual simplesmente admite NCE. Nem pela ciência, que não observa nada do tipo. Se eles obtém a idéia inicial de um documento religioso ou de uma "experiência interior", seu raciocínio pode ser mais especulativo do que baseado em evidências.3

Dizer que NCE deve acomodar mais de um item não é dizer que isso deve conter mais de um item. NCE poderia realmente conter apenas um dos candidatos elegíveis. O raciocínio cosmológico poderia ter sucesso se pudesse ser mostrado que NCE contém exatamente um item de uma série de possibilidades, e se o candidato vencedor se mostrasse ser um criador pessoal. A questão da acomodação não é se o grupo não contém mais ou menos de um item, mas se não pode conter mais de um. Se não pode, então o raciocínio é circular. Seria como um ditador que organiza uma eleição que não permite outro candidato que não seja ele mesmo: sendo assim desde o princípio. (Sou grato a Michael Martin pela introspecção nesta matéria via correspondência pessoal de e-mail).

Adicionalmente, se o único candidato para o NCE for Deus, então a segunda premissa, "O universo começou a existir", seria reduzida a "O universo não é Deus", novamente assumindo o que o raciocínio está tentando provar. Se NCE é sinônimo de Deus, então o raciocínio se pareceria com isso:

  1. Tudo, exceto Deus, tem uma causa.
  2. O universo não é Deus.
  3. Logo, o universo tem uma causa.

Isso é lógico, no mínimo muito útil. O raciocínio circular é revelado quando os teístas o fazem deste ponto. Baseado na conclusão de que "o universo tem uma causa", acima, Craig discute acerca de um criador pessoal:

"Nós sabemos que o primeiro evento deve ter sido causado. A questão é: Como pode um primeiro evento vir a existência se a causa daquele evento existe imutável e eternamente? Por que o efeito não é igualmente eterno como sua causa?

"Parece que há um único jeito de sair deste dilema: é não inferir que a causa do universo é um agente pessoal que escolhe criar o universo no tempo. Filósofos chamam este tipo de causa de 'agente causador', e, porque o agente é livre, ele pode iniciar novos efeitos por trazer livremente condições que não estavam presentes previamente."4

Este apelo para um criador pessoal depende da premissa de que "nós sabemos que o primeiro evento teve uma causa." Entretanto, se Deus é o único item permitido em NCE, o raciocínio efetivamente (se não intencionalmente) pede a pergunta. Para evitar suplicar o quesito, os teístas devem pensar em um ou mais candidatos reais ou hipotéticos, que não seja Deus, para NCE.

Não temos experiência de quaisquer objetos de NCE no universo natural (como poderíamos ter?), nem podemos propor qualquer coisa hipotética que não começa a existir como um item real no universo natural.5 Não temos semelhante coisa dentro do universo natural se o "início" significa "início no tempo". Porque o tempo, por si próprio, é um resultado do Big Bang. Nenhum item no universo natural transcende o tempo, portanto isso não pode "não" começar a existir. Assumindo que a atual cosmologia do Big Bang é correta, seria incoerente dizer que alguma coisa aconteceu "antes" do tempo ter começado.

Mas talvez poderia haver alguma coisa fora6 do universo natural que seria acomodada por NCE, além de Deus. (Craig parece permitir esta possibilidade ontológica quando ele "infere"7 que a causa externa do universo é um "agente causador", implicando que poderia ser de outra maneira). Desde que a maioria das definições teístas de Deus incluem personalidade, NCE poderia ser aberto a uma força impessoal bem como a uma força pessoal, ou um número de forças impessoais e pessoais. Não significaria necessariamente conduzir ao politeísmo, deísmo ou violar o princípio de economia. Poderia ser verdade que unicamente a ação pessoal existe na série de possibilidades.

Entretanto, se os teístas permitem a possibilidade teórica de um objeto impessoal transcendental em NCE, e se parece que eles devam permitir isso, ou alguma outra hipótese não teísta, e se eles não eliminaram convincentemente esta hipótese (ou estas) da série de itens reais em NCE, então eles podem permanecer abertos à possibilidade de que a origem o universo poderia ser explicada de uma maneira puramente natural.

Transcendente não é igual a sobrenatural.

Os teístas eliminaram com sucesso todos, exceto um candidato para NCE? Por qual critério eles concluíram que uma força impessoal não pode causar o universo? Depois de tudo, a experiência dentro do universo nos mostra que muitas causas impessoais "criam" muitos efeitos naturais.

Craig parece estar justificando a hipótese de uma força externa pessoal através do fato de que o universo natural contém inteligência complexa e livre atividade pessoal - humanos, por exemplo - e um criador deve ser pelo menos tão complexo quanto a coisa que ele criou.8 De outra forma a criação teria sido muito maior do que o criador, o que é impossível.

Mas isto é impossível? O que exatamente "maior" significa? Água corrente criou o Grande Canyon: qual é maior? Pedras soltas provocam avalanches. Nós construímos máquinas que são "maiores" do que nós mesmos: guindastes, aviões a jato, bombas. Nós criamos máquinas que pensam melhor do que nós: confira a derrota do campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov contra o Deep Blue da IBM. Um homem e uma mulher que são ambos de inteligência mediana podem produzir uma criança que é um gênio. A natureza abunda de exemplos de complexidade surgindo da simplicidade.

Se isso é verdade no mundo natural, então por que isso não seria igualmente verdadeiro num mundo transcendental, ou sobrenatural, se tal mundo existe? Se nós estamos permitidos para fazer inferência, como Craig faz, de um mundo para o outro, então nós não podemos eliminar a possibilidade do universo (ou Deus) ter surgido de causas mais simples. Não há jeito de dispensar a opção de que forças impessoais criaram a situação certa para o universo, inclusive com vida inteligente, surgir.

O princípio se sustenta na biologia. O consenso esmagador entre os biólogos é que nós evoluímos de ancestrais mais simples, e assim nossos ancestrais. Os teístas que concordam que o universo se originou no Big Bang há cerca de quinze bilhões de anos atrás não deveriam estar desconfortáveis com a observação de que a vida evoluiu através de um vasto período de tempo. (Aqueles poucos teístas que aceitam a cosmologia mas rejeitam a biologia podem estar selecionando seus especialistas baseados mais na teologia do que na ciência.) Se teístas como Craig pensam que nós podemos inferir qualquer coisa da observação natural sobre as características de um criador transcendental, então nós, naturalistas, poderíamos ser justificados em jogar o mesmo jogo: nós poderíamos "inferir" que o criador (se existe) evoluiu de um menos complexo, uma fonte impessoal.

Alguns teístas desconsideram a evolução biológica de origens mais simples (alguns descartam somente a macro evolução e alguns somente a evolução do DNA), mas mesmo se eles estiverem certos, isto não os ajudaria: complexo/simples não se traduz necessariamente para pessoal/impessoal. Quem é que poderia dizer que a personalidade não poderia ter surgido de uma causa impessoal? O impessoal poderia ser mais complexo. Se isso é impossível, os teístas devem explicar por quê.

Mesmo se isso estiver errado, em vez da riqueza de evidências de que a complexidade surge da simplicidade, para o raciocínio cosmológico se manter os teístas devem pelo menos ter conhecimento da possibilidade de um ou mais forças transcendentais que não seja pessoal. Eles devem ontologicamente se debater com alguma coisa "lá fora" que não é Deus: eles devem definir esta coisa e então eliminá-la.

Não é bom dizer que "alguma outra coisa" acomodada por NCE poderia ter sido criada por Deus, porque isso simplesmente reduz NCE a um único item. (Nós poderíamos então reivindicar que foi ao contrário: Deus foi criado por "alguma outra coisa".) Desde que esta transcendência teísta não causada precisaria existir "por si mesma", se ela existe ,então não seria dependente de Deus e, portanto, Deus não seria o criador e mestre de tudo. Até os teístas poderem eliminar satisfatoriamente esta "alguma outra coisa", eles não podem concluir que um deus pessoal é a causa do universo.

Talvez os teístas poderiam sugerir ou provar que a transcendência pessoal não é possível: talvez NCE nem sequer pode acomodar tal coisa. Mas se isso for verdade, então eles estão de volta ao ao início da questão e precisam propor "alguma outra coisa" como candidato para NCE, a fim de se privarem de suplicar a pergunta.

Os teístas poderiam apontar que essa "alguma outra coisa", mesmo se claramente definida, seria meramente teórica. Verdadeiro, mas assim é Deus.9 Se eles tivessem evidência de Deus, eles não precisariam de um Raciocínio Cosmológico de maneira alguma.

Kalam Refuta a si Mesmo?

Se um infinito real não pode ser parte da realidade, então Deus, se ele for realmente infinito, não pode existir.

Para contornar este problema, alguns teístas insistem que Deus não é parte da realidade "verdadeira" (natural). Eles regularmente falam sobre um lugar "além" do universo, um reino transcendental onde Deus existe "fora do tempo."

"...o universo tem uma causa. Esta conclusão nos deixa cambaleados, nos enche de temor, porque ela significa que o universo veio a existência por alguma coisa que é maior e além dele."10 [ênfase no original]
Logicamente, se você vive "fora do tempo", o que quer que isso signifique, você não precisa de um início no tempo. Um ser transcendental, vivendo uma natureza "além" da nossa, é convenientemente isento de limitações das leis naturais, e todos as afirmações de que Deus, ele mesmo, deve ter tido uma causa ou um projetista (usando o mesmo raciocínio natural que tenta chamá-lo a existência) podem ser rejeitadas pelos teístas que insistem que Deus está fora do ciclo, não afetado pelas causas naturais, além do tempo.

Todavia, os teístas continuam descrevendo esta "ausência de tempo" em termos atemporais. Frases como: "Deus decidiu criar o universo", são tomadas por nós, meros mortais, como análogas a frases naturais como: "Annie Laurie decidiu assar uma torta." Se tais frases não são iguais ou análogas à linguagem humana normal, e se elas não forem redefinidas coerentemente, então elas são inúteis.

A palavra "criar" é um verbo transitivo. Nós não temos experiência de verbos transitivos operando fora do tempo (como poderíamos ter?). Então, quando escutamos tal palavra, nós devemos visualizá-la do único jeito que podemos: um sujeito age sobre um objeto. Considerando o ponto no qual uma ação é cometida, obrigatoriamente há um estado antecedente "durante" o qual a ação não é cometida, e seria isso seria verdadeiro dentro ou fora do tempo.

Dizer que "Deus criou o tempo" não é compreensível para nós. Em todo caso, se ele fez isso, em vez de nossa falta de imaginação, então isso poderia ter acontecido "após" a decisão de cometer tal ato, porque não há um "antes". Contudo, nós podemos ainda imaginar o ato da criação como "subseqüente" à decisão de criar, ou ainda, para evitar termos temporais, a criação sucede à decisão na ordem lógica. (Pela lógica nós dizemos que a conclusão se "segue", ainda que nós não queremos dizer que isso acontece num espaço de tempo. Craig escreve que "a origem do universo tem causas anteriores ao Big Bang. No entanto, não é temporalmente anterior ao Big Bang."11)

Se é dentro ou fora do tempo, a decisão de uma atividade pessoal para cometer uma ação acontece anteriormente à ação em si. Mesmo se a decisão e a ação aconteceram simultaneamente12, não seria verdadeiro que a ação foi anterior à decisão. Imagine Deus dizendo: "Oh, vejam! Eu acabei de criar um universo. Agora seria melhor decidir fazê-lo."

Isto significa que tem de existir uma série de eventos causais antecedentes na mente de um criador transcendente ao tempo, se tal ser existe. Desde que o raciocínio Kalam reivindica que "um infinito real não pode existir na realidade", ele acerta seu próprio pé: apesar do raciocínio Kalam tratar da sucessão temporal, a mesma lógica se aplica a eventos antecedentes não temporais, se tais eventos são parte da realidade. Se a série fosse infinita, então Deus nunca poderia ter atravessado a totalidade de suas causas mentais antecedentes para chegar na decisão de dizer: "Que haja luz." Portanto, pelo raciocínio Kalam tem de haver um "primeiro antecedente" na mente de um Deus real, o qual significa que Deus "começou" a existir. (Isso significa que "começou por uma causa", mas os teístas tiveram a conveniência de expressar ações atemporais em linguagem temporal.)

Se os teístas contragolpeiam dizendo que o raciocínio Kalam só se aplica à impossibilidade de um infinito real matemático dentro do universo material, e que o domínio transcendental e atemporal do Criador é um tipo de infinito inteiramente diferente que não é sujeito às mesmas leis, então eles estão suplicando pela questão novamente. Isentar a conclusão das premissas, por definição, excluindo o sobrenatural (a coisa que os teístas estão tentando provar) é uma argumentação circular. Se é verdade que um "infinito real não pode existir na realidade", então quem é realmente infinito não pode ser parte da realidade. Em outras palavras o raciocínio Kalam invalida a realidade de um Deus sem início. Se o infinito é apenas um conceito, como o raciocínio Kalam insiste, então um Deus infinito é apenas um conceito.

Se pegarmos o argumento Kalam seriamente, não há escapatória para o fato de que Deus (se ele existe) teve um começo, tanto dentro como fora do tempo.13 Desde que seja verdade que a frase "tudo o que começa existir" inclui Deus, e considerando o raciocínio cosmológico, conclui-se que Deus tem uma causa.

Nós estamos de volta à questão da minha filha no jardim-de-infância.

Nesta altura os teístas poderiam nos lembrar que nós temos o conhecimento científico do início do universo, mas não temos nenhuma evidência semelhante relativa a Deus. Isso é verdade, mas é auto-incriminador. Sim, a ciência é um empenho material. É impossível provar o sobrenatural (o que quer que isso seja) com as ferramentas do mundo natural. Mas dizer que nós não temos evidência de que Deus teve um início é sublinhar o fato de que nós não temos evidência acerca de Deus. O raciocínio Kalam estava sendo proposto um milênio antes dos cientistas abraçarem o Big Bang, e seus méritos foram então, como agora, não científicos.

O Argumento Kalam Compara Maçãs com Laranjas?

Outro jeito de mostrar que o argumento Kalam pode ser um mero jogo de palavras é identificar a hipótese sobrenatural escondida na segunda premissa. Aqui está o argumento novamente:

  1. Tudo que começa a existir tem uma causa.
  2. O universo começou a existir.
  3. Portanto, o universo tem uma causa.

Observe como as palavras "tudo" e "universo" estão ligadas. Neste silogismo, os dois termos são considerados sendo da mesma essência, do mesmo nível lógico. Considere o seguinte raciocínio imperfeito:

  1. Todas as maçãs que caem das árvores ficam machucadas.
  2. Esta laranja caiu de uma árvore.
  3. Logo, esta laranja está machucada.

Este raciocínio está errado porque, bem, porque nós estamos comparando maçãs e laranjas. Uma laranja não é um membro de um grupo de maçãs.

"O universo", para os filósofos (ou "o cosmos", para os cosmologistas), é o grupo de todas as coisas. Um grupo é uma coleção de itens. Um grupo pode ser um membro ou um sub-grupo de outro grupo, e este pode ser considerado um sub-grupo de si mesmo, mas um grupo não pode ser um membro de si mesmo.14 Todavia, o raciocínio cosmológico trata o universo como se fosse um item em seu próprio grupo. A primeira premissa refere-se a todas as "coisas", e a segunda premissa trata o universo como se ele fosse um membro do grupo das "coisas". No entanto, desde que um grupo não deve ser considerado um membro dele mesmo, o raciocínio cosmológico está comparando maçãs com laranjas.

Você não pode tirar uma conclusão ou lei de relações entre itens num grupo que tem assume o grupo como um todo. O fato de cada membro de uma orquestra tocar em harmonia com todos os outros membros da orquestra, não significa que todas as orquestras tocam em harmonia umas com as outras. O fato de que cada membro de um grupo de números eqüidistantes está separado de seus vizinhos imediatos por uma distância de dois, não significa que o grupo de números eqüidistantes está separado de seus vizinhos por uma distância de dois. Tal pensamento transfere uma verdade de um nível para outro, saltando onde ela é desviada. Quando você diz que "tudo o que começa a existir" tem uma causa, você não pode afirmar categoricamente que o grupo de todas estas coisas (o universo), mesmo se ele teve um início, deve seguir as mesmas regras ou manter as mesmas relações com os itens que ele contém.

Para ilustrar isso, considere o raciocínio imperfeito que usa a palavra "começo":

  1. Toda nação começou com uma revolução.
  2. A Aliança de Todas as Nações começou há dez anos atrás.
  3. Logo, houve uma revolução dez anos atrás.

Isto é ilógico porque a "Aliança de Todas as Nações" não é uma nação individual, e a palavra "começou" significa alguma coisa inteiramente diferente quando é aplicada ao grupo como um todo. Semelhantemente, no raciocínio cosmológico, a cláusula "começa a existir" não deveria significar a mesma coisa quando é aplicada ao "universo", na forma que foi aplicada às "coisas" individuais dentro do universo.

Explicando o argumento cosmológico Kalam, Craig escreve:

"1. Tudo que começa a existir tem uma causa.

2. O universo começou a existir.

3. Logo, o universo tem uma causa.

A lógica do raciocínio é válida e muito simples. O raciocínio tem a mesma estrutura lógica da argumentação de que 'todos os homens são mortais. Sócrates é um homem. Logo, Sócrates é mortal'. Assim sendo, há boas razões para acreditar que cada um dos passos são verdadeiros? Eu acho que eles são."15

Mas isto não está certo. O argumento de que "todos os homens são mortais" não tem a mesma estrutura lógica do raciocínio Kalam. Sócrates é um homem, mas o universo não é uma "coisa". O raciocínio teria a mesma estrutura lógica do argumento Kalam se dissesse: "Todos os homens são mortais. A raça humana é feita de homens. Logo, a raça humana é mortal". É fácil de ver a falta de lógica quando é exposto desta maneira.

Bertrand Russell, em seu debate com Copleston, em 1948, tocou no assunto:

"Eu deveria dizer que o universo está apenas aí, e isso é tudo... Eu posso ilustrar o que me parece ser sua falácia. Cada homem que existe tem uma mãe, e isso me parece que seu raciocínio é que a raça humana deve ter uma mãe, mas obviamente a raça humana não tem uma mãe. Essa é uma esfera lógica diferente."16
O que "tudo" significa? Basicamente "tudo" é o sinônimo de universo (ou cosmos). Entretanto, no raciocínio cosmológico "tudo" não se refere a "todas as coisas que existem", porque ele não é seguido da cláusula limitadora "que começa a existir", implicando (como nós vimos) que há algumas coisas (NCE) que não são parte deste grupo particular. "Tudo" está implícito no contexto como "duas" palavras separadas, "todas" as "coisas", referindo-se a cada item individual dentro de CE.NT Isto é apoiado pelo fato que a cláusula "que começa a existir" é singular, referindo-se à uma única "coisa" no grupo CE. (Craig usa a expressão "o que quer que seja", a qual significa "qualquer coisa.")

Uma "coisa" é um objeto ou sistema que é distinto, de alguma forma, de outros objetos ou sistemas. O dicionário Webster's New World of the American Language define coisa como: "tudo concebido ou referido como algo existente como indivíduo, entidade distinguível, específica, a) qualquer única entidade distinguível de todas as outras [cada coisa no universo]..." (O mesmo dicionário dá definições adicionais de coisa como um conceito abstrato, mas nós podemos assumir que os teístas consideram Deus e o universo como objetos reais.)

Uma "coisa" é algo distinguível, e, para ser distinguível, deve ser limitado. Dizer que eu comi um morango é dizer que o que eu comi não foi uma melancia ou uma pêra. Dizer que minha filha é ruiva significa que ela não é loira ou morena. Dizer que meu amigo é de Nova York quer dizer que ele não é de Chicago, Paris, ou qualquer outra cidade. Para ser considerado uma "coisa", um objeto deve ser parte de um contexto mais amplo dentro do qual e pelo qual o objeto pode ser limitado. O objeto deve ser capaz de ser "separado" de outros objetos.

O universo é uma "coisa"? Quando o raciocínio cosmológico passa para a segunda premissa, "o universo começou a existir", nós somos forçados a ver o universo como um item particular no grupo de "coisas". Mas o "grupo de todas as coisas" é uma "coisa" em si mesmo? Como o grupo de todas as coisas é distinguido das outras coisas ou outros grupos? Em que contexto o universo existe dentro do qual ele pode ser identificado como um objeto distinto?

Mesmo se sugerirmos que o universo (cosmos) é uma "coisa" discreta (não apenas um conceito), nós estamos implicando que existe um reino além e superior ao universo dentro do qual ele está contido, limitado e definido. Isso equivale a simplesmente assumir o transcendental. Filósofos teístas esperam que ninguém perceba que a linguagem que eles estão usando sem esforço invoca a existência de um reino além da natureza, retratando o universo de uma distância, como se "ele" tivesse um ambiente. É fácil para os não-teístas, que não seduzidos a misturar esferas lógicas, evitar semelhante súplica para essa questão.17

Compleston, respondendo a Russel, perguntou: "Mas você vai dizer que nós não conseguimos, ou que nós não deveríamos sequer levantar a questão da existência do conjunto deste lamentável esquema de coisas, do universo inteiro?

"Sim," Russell replicou. "Eu não penso que haja qualquer significado nisso. Eu penso que a palavra 'universo' é uma palavra conveniente em algumas relações, mas eu não penso que ela agüenta qualquer coisa que possua um significado."18

Quais declarações podemos fazer sobre o universo que nos mostra o que ele não é? O Grand Canyon não está em Nova Jersey, as pirâmides do Egito não foram construídas no século 20, bolas de beisebol não são feitas de feijões de gelatina. Onde o universo não existe? Do que ele não é feito? Como ele pode diferir de um "não-universo"?19 Tais perguntas são sem sentido quando feitas no "grupo de todas as coisas."

Conclusão

Para o Raciocínio Cosmológico Kalam ser salvo, os teístas devem responder estas questões pelo menos:

  1. Deus é o único objeto acomodado pelo grupo de coisas que não começam a existir?
    • Se sim, então por que o raciocínio cosmológico não está suplicando a pergunta?
    • Se não, então quais são os outros candidatos para a causa do universo, e como eles foram eliminados?
  2. A lógica Kalam é usada unicamente para antecedentes temporais no mundo real?
    • Se sim, ela assume a existência de antecedentes atemporais no mundo real, então por que ela não está suplicando a pergunta?
    • Se não, então por que a impossibilidade de um infinito real não refuta a existência um Deus realmente infinito?
  3. O universo (cosmos) é um membro dele mesmo?
    • Se não, então como pode seu início ser comparado com outros inícios?

Na ausência de boas respostas a estas questões, nós devemos desconsiderar o raciocínio Kalam para a existência de um deus.

Notas

1 - O Big Bang não é um "evento." Um evento acontece no tempo e no espaço, precisando de um contexto. Como o tempo e espaço são parte do universo, chamar o Big Bang de "evento" tomaria lugar num contexto além dele mesmo, equivalendo-se a uma suposição de transcendência. Voltar

2- Um grupo vazio pode ser significante. Pode ser muito significativo dizer "eu não tenho amigos." Porém, nós sabemos o que define um grupo de amigos e nós podemos dar exemplos não-vazios deste grupo na vida real. Um grupo nulo é somente significante se poderia ser possivelmente não nulo. Isso só pode acontecer se sabermos o que constitui um item nesse grupo. No caso do NCE nós não temos exemplos. Logo, um grupo nulo seria igual a não existir tal grupo. Voltar

3 - Eu não estou acusando os teístas de qualquer súplica em especial. Não é impossível imaginar a ausência de início: o recente modelo do tempo em duas dimensões, de Stephen Hawking, é um intrigante exemplo, e alguns ateus têm sugerido que o universo é eterno. Entretanto, estas idéias vêm após o raciocínio cosmológico, e desde que elas são normalmente rejeitadas pelos teístas, dificilmente elas podem consideradas base para a justificativa original do NCE. Além disso, a idéia do começo do universo, por si mesma, trata de "toda a realidade", e não de algum item em particular. Voltar

4 - W. L. Craig, Reasonable Faith: Christian Truth And Apologetics, (Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1994) p. 117 Voltar

5 - No mundo conceitual, é claro, há coisas sem início, como o grupo de números negativos. Mas o ponto-chave do raciocínio Kalam é que o infinito não existe no mundo real. Voltar

6 - Isto poderia ainda se equivaler a pedir pela questão, porque a existência do sobrentaural é parte do pacote que os teístas querem provar. Voltar

7 - Como pode uma inferência que é feita a partir de observações dentro do universo natural ser aplicada fora do universo? Voltar

8 - Este, a propósito, é um jeito de refutar argumentos teológicos. Se a complexidade funcional requer um projetista, então o projetista também precisa de um projetista, porque o projetista deve ser pelo menos tão complexo quanto a coisa a ser projetada. Um Deus criador, se existe, possuiria uma mente funcionalmente complexa, maravilhosa, organizada e decidida... mas esse é um argumento diferente. Voltar

9 - Stephen Hawking, em sua introdução em Before The Beginning, por Martin Rees, chama Deus de uma "construção teórica." Voltar

10 - Craig, Reasonable Faith, p. 116. Voltar

11 - Craig, W. L. (1992). "The Origin and Creation of the Universe: A Reply to Adolf GrŸnbaum," British Journal for the Philosophy of Science 43. (Como é citado em "Some Comments on William Craig's 'Creation and Big Bang Cosmology' (1994)" por Adolf GrŸnbaum) Voltar

12 - Criação simultânea não é apenas não-intuitiva, mas problemática. Sem a sucessão temporal não há maneira de determinar a ordem de causa e o efeito. Se a criação apareceu simultaneamente, nós não podemos eliminar a possibilidade de que o universo criou Deus. (Não dizem alguns ateus que "Deus" é uma criação humana?) Voltar

13 - O livro de Gênesis retrata a divindade hebréia criando o mundo no tempo: "No primeiro dia, segundo dia etc." Literalmente, segundo a bíblia, as ações de Deus são realmente temporais e, portanto, sob a jurisdição do raciocínio Kalam. Voltar

14 - Eu sei que há alguns esforços teóricos para tratar os grupos como se fossem membros deles mesmos. O "grupo de todos os grupos" tem a obrigação de incluir ele mesmo, ou o "grupo dos conceitos" ser um conceito, tendo a obrigação de incluir a si próprio. Porém, eu penso que estes são exemplos de misturar esferas lógicas, produzindo confusão semântica. Um grupo como coleção tem um uma referência diferente de um grupo como conceito. (Todos os grupos de conceito provavelmente têm a mesma referência.) Para ser útil, um conceito deve descer ao seu último nível de referência e evitar paradoxos: o "grupo dos grupos dos grupos dos grupos etc" é obviamente artificial, carecendo de qualquer referencial útil. O "catálogo de todos os catálogos que não listam a si mesmos" é paradoxal e, portanto, impossível. Para qualquer evento, "o universo" é uma coleção de coisas materiais (referenciais mais baixos), não uma "coleção de conceitos." (Agradecimentos a Doug Krueger e Alan Gold por contribuições neste assunto.) Voltar

15 - Craig, Reasonable Faith, p. 72. Voltar

16 - Em Bertrand Russell, On God and Religion, ed. Al Seckel, (New York: Prometheus Books, 1986), p. 131. Voltar

17 - Os ateus são algumas vezes acusados por terem uma "predisposição contra o sobrenatural", mas isso poderia ser contraposto dizendo que os teístas têm uma "predisposição contra o natural." Voltar

18 - Em Bertrand Russell, on God and Religion, p. 129. Voltar

19 - Nós poderíamos dizer que "o universo não é composto inteiramente de costeletas de porco," mas isso não distingue o universo de qualquer outro grupo. Nós nunca esbarraremos num "grupo de todas as coisas", feito inteiramente de costeletas de porco, e dizer: "opa, isto não é o universo." (Se nós pensamos que conseguimos, nós teríamos que admitir que este é apenas um subgrupo de todas as coisas que existem, um parte do universo, não outro universo.) Nós podemos encontrar rios em Nova Jersey, pirâmides construídas no século 20 e feijões de gelatina em vários formatos, e nós concordaríamos que sua existência contribui com o grupo de todas as coisas onde as outras coisas não contribuem. Voltar

Nota do tradutor - O autor do texto quis dizer que no inglês a palavra "tudo" é expressada como "everything". "Every" = "tudo"; "thing" = "coisa". Portanto, "every thing" (everything), equivale a "todas as coisas", traduzindo literalmente. Sendo formada por essas duas palavras. Voltar

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© Copyright 1999 por Dan Barker.

Dan Barker, um ex-ministro evangélico que agora trabalha como Diretor Presidente da Freedom From Religion Foundation, tem participado em muitos debates formais com teístas.

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  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.ffrf.org/articles/kalam.html
  • Traduzido por: Rogério Augusto Pereira Silva
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.