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de Dan Barker
Em 16 de janeiro de 1984, enviei esta carta anunciando meu recém descoberto ateísmo para mais de 50 colegas, amigos e familiares: "Querido amigo(a),Hoje eu escreveria uma carta completamente diferente, mas ali era onde eu estava naquela época. A nostalgia da "pequena criança" foi embora há cerca de um ano e foi substituída com um embaraço que jamais acreditei. A distinção entre o agnóstico e o ateu foi esclarecida. Depois de colocar as cópias da minha carta no correio, senti um alívio. A única coisa a fazer era esperar pelas reações. "Lamento ouvir sobre seu recente compromisso com "não ter compromisso" com o Cordeiro de Deus, sobre o qual você, de forma tão bonita, escreveu e musicou de um jeito tão próspero", escreveu o pastor Mark Griffo, da Assembléia de Deus, um co-missionário anterior que tinha sido uma das crianças em um coral sacro que regi, e quem encorajei a entrar no ministério. "Percebi que você não é meu inimigo, como você declarou, mas Satanás é! Ele veio para matar, matar e destruir a vida... meu coração chora dentro de mim tentando descobrir a reposta que você dará [em relação às crianças] quando lhe perguntarem: "Dan, você pode escrever mais canções para minhas futuras crianças poderem conhecer a fonte de amor, Jesus Cristo, como você conhece?" Estou orando por você sempre, tendo em vista sua ressurreição." Para Mark, eu estou morto. A esposa de Mark foi menos caridosa: "Você quer interação significativa? Não há nada significativo nas convicções que você escolheu... Lamento que o Cordeiro de Deus, sobre o qual você uma vez escreveu, não é mais o Senhor da sua vida. Para realmente conhecer o Deus Todo-Poderoso, Salvador, rei, onisciente, todo-amoroso criador de você e eu [sic], nunca abandone-o... humilhe-se diante da presença de Deus!" David Gustafeson, diretor da Pacific & Asia Christian University in Hawaii [Universidade Cristã do Pacífico e Ásia, no Havaí], que foi um co-pastor comigo numa igreja em La Puente, escreveu: "Fiquei de alguma forma chocado com sua carta... Suponho que apenas terei que orar mais forte... acredito que um infalível teste é simplesmente chorar para "Deus" (se você acredita ou não) e pedir-lhe para corrigi-lo radicalmente se você estiver errado... isso seria melhor para Deus usar "quaisquer meios" para mostrar-lhe a verdade, do que descobrir tarde demais que estava enganado... li seus textos, e é claro eles apresentam um bom material. Não esperaria qualquer outra coisa de alguém tão brilhante como você. Acho que as contradições na Bíblia mostram a beleza de Deus falando através da delicada humanidade e ainda mantendo a principal mensagem da bíblia intacta." Enviei para David uma resposta exaustiva e recebi dele uma caixa com quatorze fitas-cassete de um teólogo. Eu tinha escrito uma nota no rodapé da minha carta para a Gospel Light Publicações, dizendo a eles que eu entenderia se eles decidissem não continuar trabalhando comigo. Estávamos no meio de um projeto. Wes Haystead escreveu: "Obrigado por honestamente ter compartilhado sua jornada comigo. Prometo não começar a bombardear você com tratados e livros de Josh McDowell... Sobre continuarmos trabalhando juntos, eu voto sim, desde que, é claro, você me forneça três canções para Sunrise Island rapidamente. Esses tipos de canções agendadas têm preferência sobre princípios pessoais, certo? Realmente valorizo seu talento, sua sensibilidade, sua flexibilidade e sua amizade. Então espero que possamos continuar trabalhando juntos até um de nós converter o outro ou até você sentir que as metas de nossos projetos são incompatíveis com suas direções." Segui em frente e terminei de escrever o mini-musical Sunrise Island Vacation Bible School [Escola Bíblica de Férias Ilha do Amanhecer] para a Gospel Light. Foi estranho sentir trabalhando profissionalmente num projeto com o qual eu discordava filosoficamente, mas justifiquei esta hipocrisia por notar que a Gospel Light teria tido uma enorme dificuldade com a agenda e o orçamento se eles mudassem a programação no meio do caminho, e eles estavam totalmente cientes da minha mudança de visão. Hal Spencer, presidente da Manna Music, editor de meus musicais e outras canções cristãs, escreveu: "Minha resposta imediata é que isto não pode ser verdade e que você está apenas passando por um período duvidoso de sua vida. Entretanto, conhecendo você, temo que seja mais do que isso... estarei pedindo ao Senhor para me guiar em alguma coisa que eu possa dizer para influenciar seus sentimentos". Hal e eu nos encontramos para almoçar dois meses depois. Embora ele seja bastante entendedor a respeito da indústria da música (seu pai era Tim Spencer, um dos "Filhos dos Pioneiros"), ele não era muito dado à teologia ou filosofia. Ele permaneceu apontando para uma folha numa flor num arranjo próximo de nossa mesa, dizendo: "Como aquela folha chegou aqui?" Depois que apresentei os problemas com o desenho e argumentos da causa primeira, ele virou-se para a folha e disse: "Mas não posso imaginar como aquela folha chegou aqui sem um Criador." Nós depois nos esbarramos no aeroporto de Nashville em 1985 quando eu estava debatendo com um pastor e ele estava numa cerimônia de prêmios de música country. A chance de termos nos encontrado foi tão surpreendente que ele disse: "Viu? Isso prova que existe um Deus!" Embora não tenha escrito mais nada para a Manna Music, meus musicais estão ainda vendendo e Hal continuou a me tratar profissionalmente. Eli Peralta foi meu professor de espanhol no nono grau. Ele foi um dos componentes do Peralta Brothers Quartet [Quarteto Irmãos Peralta] com quem preguei o evangelho durante o segundo grau. Ele escreveu: "Obrigado por nos deixar a par da sua mudança de vida. Fique assegurado que a pureza e claridade de sua comunicação está sendo aceita num espírito de amor e consideração. É significante que nos dias anteriores a chegada da sua carta eu estava relembrando de nosso companheirismo e amizade dos anos que se passaram e desejando que poderíamos nos ver alguma vez... Meus irmãos e eu ainda pensamos em você com muitas recordações aficionadas e momentos de diversão que passamos juntos. Os informei acerca de sua transição da fé à razão, e mesmo isso tendo um significante impacto emocional em nós, eu, particularmente, sinto um profundo senso de calma e ainda nos considero amigos!" Jill Johnson, esposa do pastor associado à igreja de Auburn, onde dei meu último concerto cristão, me enviou uma carta surpreendentemente tolerante: "Eu apóio totalmente seu sincero desejo de buscar a verdade no amor. Digo isso porque num certo sentido, a decisão que você tomou é um evento cataclísmico não só para você e para aqueles que você ama (Permaneço pensando em seu pai pela mesma razão), mas também para muitos fora da esfera de seu lar. Porém, acredito na honestidade, e desde que você crê de todo seu ser nisso que você expõe, tenho certeza que é uma necessidade para você continuar seguindo esse caminho... Quando você "quebra as regras" há sempre aqueles que terão um desejo ou uma necessidade de punir, julgar ou condenar... e apenas espero e oro para que a maioria das pessoas sejam gentis com você mesmo que vocês e elas não estejam em acordo... estou muito feliz que fui capaz de o ouvir num concerto e não ter dúvida de que você continuará criando beleza em esferas além do cristianismo." Loren McBain, pastor da Primeira Igreja Batista de Ontário, Califórnia, a qual minha família estava apoiando e onde servi brevemente como Diretor de Música interino, escreveu: "Eu realmente gostaria de ficar em contato com você se somente for para almoçar uma vez num momento. Ficaria especialmente feliz de jogar xadrez quando você quiser, os mistérios agora ficariam claros a meu favor já que Deus estará do meu lado!" Talvez com a paciência correndo sutilmente, o mesmo homem escreveu uma carta menos amigável dez meses depois: "Você, Dan, e eu conhecemos o que você ouviu e entende totalmente: as leis de "Deus" para viver. E agora você está vivendo pelas suas próprias regras... entendo elas como simples desobediência." Um cooperador, Scoti Domeij, escreveu: "Isso significa que não estaremos vendo um ao outro no MusiCalifornia (uma conferência cristã) Ha! Ha!... não estou ofendido ou nem pelo menos um pouco surpreso com sua jornada da fé à razão. Seu questionamento apareceu em muitas maneiras diferentes quando estivemos juntos. Realmente sinto alguma tristeza e quero saber que dor e quais profundos desapontamentos têm precipitado sua jornada da fé à razão." Shirley e Verlin Cox regularmente me ajudaram a arranjar encontros em Indiana. "Preciso admitir que estou um pouco chocada", Shirley escreveu. "Primeiramente quis escrever uma carta de exortação para você, mas após muito reflexão e oração percebi que você conhece mais a bíblia do que eu e Verlin jamais conheceremos. Não passamos na faculdade pelo caminho que você passou... Sim, estamos com o coração partido pelo fato de você ter rejeitado nosso Senhor, mas temos esperança e nossas orações continuarão... No ano passado, na Flórida, ficamos deleitados em ver seu musical "Maria teve um Pequeno Cordeiro" e as igrejas em Indiana em nossa área ainda o assistem. Oh sim, "Maria Teve" foi apresentado na TV na forma de um show de marionetes." Recebi uma carta da irmã Tammy Schinhofen, de quem não me recordo: "Mais ou menos oito anos atrás você foi um instrumento da minha aceitação de Jesus como meu pessoal Salvador... Agradeço a Deus por eu ser uma jóia colocada em sua coroa. Não deixe o inimigo levar ou manchar sua coroa." Um de meus melhores amigos era um homem que era grandemente responsável pelo sucesso promocional de meus musicais, um crente fervoroso. Não é fácil para ele, sendo gay numa comunidade fundamentalista. Ele escreveu: "Não sei se eu posso dizer se 'curti' sua carta, deve haver alguma palavra melhor. Sei como você se sente. Estive claramente na sua situação (talvez eu ainda esteja). O que me golpeou tão vigorosamente foi o jeito que 'os cristãos' reagem a seu questionamento: eles não se importam com o porquê de você perder a fé, mas porque você perdeu a fé na crença deles!" Muitas das cartas foram sinceras, mas sem conteúdo. "Não tenho respostas", escreveu um amigo. "Não é uma questão de lógica ou inteligência", escreveu outro. "As habilidades e capacidades intelectuais humanas, não importa quão grande sejam, não são suficientes", escreveu uma mulher que "cura pela fé". Muitas das cartas contém argumentos ad hominem. Uma cooperadora me disse que eu tinha "cedido aos desejos do meu ego", e um vizinho escreveu que eu devo ser uma pessoa "doída e amarga." Outro tentou me fazer admitir minhas "feridas profundas". Uma mulher pregadora me anunciou: "alguma vez ao longo do caminho você ficou chateado com Deus", e um co-pastor me disse: "você está numa jornada egoísta às custas da sua própria integridade". A irmã adolescente de um de meus amigos próximos, vivendo num alojamento missionário, escreveu: "não posso dizer que oro por você todos os dias porque eu não oro... exatamente agora na escola estamos aprendendo biologia de um professor que conhece apenas sobre filosofia, história medieval e literatura inglesa... como você pensa que aparecemos neste planeta?" Escrevi para ela e sua mãe, a qual vive numa comunidade cristã conectada com a University of the Nations [Universidade das Nações], operada por uma organização evangélica carismática chamada Youth With A Mission in Kona, Hawaii [Jovens Com Uma Missão em Kona, Havaí], desafiando a escola para um debate sobre isso. Nunca mais tive notícia deles. Cerca de um mês depois de ter enviado minha carta, recebi uma ligação do vice-presidente e decano de instrução acadêmica na Azusa Pacific University [Universidade Azusa Pacific], Dr. Don Grant. Ele e o diretor de assuntos acadêmicos me encontraram para almoçar uma tarde para ver o que tinha dado errado com um de seus emissários. Don tinha sido o diretor do Coral Dynamics, para o qual toquei piano e cantei durante minha bolsa de estudos nos anos em que fiquei na Azusa Pacific. Foi uma almoço amigável, mas, não obstante, eles estavam tentando achar algum meio de me levar de volta. A conversa foi num nível mais articulável do que a maioria, mas quando respondi com argumentos eruditos e documentados que eles nunca tinha ouvido, eles caíram nos mesmos argumentos ad hominem, conjeturas psicológicas, e coisas semelhantes. A medida que nos aproximávamos de nossos carros agradeci a eles por seu tempo e vontade de discutir esses assuntos, e fiz um desafio para eles. Disse a eles que eu estaria desejoso de participar de um debate na Azusa Pacific contra qualquer um de seus professores sobre a questão da existência de Deus. Nunca tive notícias deles novamente. Nunca mais vi Manuel Bonilla novamente (o cantor cristão mexicano)1, mas conversamos no telefone duas vezes. Ele me disse que apenas "sabia" que o Espírito de Deus estava em minha vida, particularmente desde que organizei e gravei uma versão especialmente inspirada de uma canção religiosa de um de seus álbuns em meados de 1983, tocando o piano com convicção enquanto ele cantava. Perguntei a Manuel se ele ficaria surpreso de saber que enquanto eu estava organizando e tocando aquela canção, eu era secretamente ateu e que minha inspiração foi musical, não espiritual. Ele não disse uma palavra. Quando conversei com Manuel novamente em 1985, ele estava amigável, mas me disse que estaria desejoso de oferecer-me algum aconselhamento para me ajudar a vencer minhas lutas. A única coisa que pude fazer foi dizer que eu estava feliz e agradecer-lhe por sua amizade. Pouco tempo depois que minha carta foi enviada, tive um almoço com Bob e Myrna Wright, dois amigos muito próximos. Bob tinha sido o pastor do Standard Community Christian Center [Centro Comunitário Cristão Padrão], e foi o dirigente da minha cerimônia de ordenação. Eles me disseram que queriam pedir desculpas para mim. Disseram que se lamentavam por não terem percebido meus conflitos internos que me levaram à rejeição do cristianismo. Se eles soubessem, talvez eles poderiam ter me ajudado a evitar o desânimo e a decepção que me levaram a mudar de visão. Foi um encontro difícil porque eu amava e respeitava essas pessoas e sabia que elas eram sinceras. Disse a elas que minha desconversão não tinha nada a ver com quaisquer problemas pessoais, mas que tinha a ver com a natureza e conteúdo da mensagem cristã em si. Tentei explicar que aconselhamentos ad hominem eram o ponto-chave da questão. Não entenderam. Para forçar o meu ponto de vista, decidi criar um pouco de dissonância cognitiva. "O que aconteceria comigo", perguntei, "se eu morresse neste momento?" Eles permaneceram em silêncio. "Bob, você é um ministro ordenado. Você conhece a bíblia. O que acontece com os incrédulos?" "Bem, a bíblia diz que eles vão para o inferno", ele respondeu. "Você me conhece," continuei. "Não sou uma pessoa má. Sou honesto. Se eu caminhar para fora deste restaurante e for morto por um caminhão, estarei a caminho do inferno?" Eles não tinham resposta para essa questão, se retorcendo em seus assentos. "Bem, você acredita na bíblia?" Pressionei. "É claro!" Disse Myrna. "Então irei para o inferno?" "Sim", eles finalmente responderam, mas não sem um grande desconforto. Talvez não era um assunto interessante para o almoço, mas quis fazer a brutalidade do cristianismo real para eles. Sabia que seria duro para eles imaginarem seu Deus punindo alguém como eu. Depois eu soube que eles ficaram perturbados por eu tê-los coagido a dizer que eu iria para o inferno. Isso os forçou a reconhecer que mesmo querendo muito ser amigos, a religião deles me considera como um inimigo. As cartas que recebi e as conversas que se seguiram após meu "esclarecimento" estavam todas do outro lado da mesa. Elas exibiam amor, ódio e todo sentimento entre os dois. Muitas amizades foram perdidas, outras transformadas, e ainda outras foram fortalecidas. De todas as cartas e tentativas de levar de volta, nem um sequer teve impacto intelectual. Embora eu estivesse triste em ter descontinuado alguns relacionamentos, acho que não sinto falta deles. Suponho que isso é muito mais parecido com um divórcio: mesmo tendo havido bons tempos e memórias alegres, uma vez acabado está acabado. Algumas poucas cartas ofereceram alguma defesa para as contradições bíblicas. Nenhuma apresentou qualquer prova documentada do primeiro século. Nenhum argumento racional sequer para a existência de um deus, além do tipo "então, de onde viemos?" foi apresentado. A maioria das respostas foram centralizadas em coisas como: humildade, vergonha, atitude, oração - em resumo: intimidação "espiritual". O desafio de Dave Gustafeson para "clamar a Deus" não é nada menos do que uma desonestidade intelectual. Um de meus amigos me pediu simplesmente para "fingir que Jesus é real e ele fará Ele mesmo real para mim". Teriam eles tentado alguma vez "clamar a Buda" ou "fingir que Alá é real", como um teste da existência deles? Estas pessoas estão me pedindo para mentir para mim mesmo. De qualquer forma, eles deveriam saber melhor. Eles deveriam saber que eu já tinha "clamado a Deus", para o qual eu tinha freqüentemente orado e "sentido o Espírito" dentro de mim, e que muitas vezes passei pelos rituais. Eles não parecem perceber que não estou buscando uma confirmação interior. Eu estava buscando um objetivo, uma prova externa. Além disso, mesmo que eu conseguisse "fingir", um deus onisciente não saberia disso? O tom universal de quase todas as cartas e conversas que tive foi de que era eu quem tinha o problema. Ninguém reconheceu que minha mudança de pensamento poderia ser uma acusação ao cristianismo. Alguns deles formalmente vieram a mim para serem aconselhados, mas agora eles não querem mais aprender de mim. (Não sei se eles deveriam fazer isso.) Todos eles assumiram que o desafio no momento era para me levar de volta. Mesmo os poucos que pediram para ler meus textos nunca comentaram sobre eles, exceto superficialmente. Não sei se algumas destas pessoas mudaram seus pontos de vista, mas realmente sei que nenhuma delas será a mesma. Você pode não ajudar, mas pode ser afetado quando um de seus questionamentos atingem em fundo suas convicções. Embora as desavenças entre meus amigos e cooperadores foi algo difícil de contabilizar, o efeito em minha família foi muito mais dramático. Quando meus pais pegaram minha carta, eles ficaram chocados. Eles tinham sido orgulhosos do trabalho de seu filho como um ministro ordenado2, evangelista e compositor cristão. Sem saberem nada sobre minha mudança gradual, esta anunciação veio como uma surpresa total. Minha mãe imediatamente tomou um ônibus, viajando de Phoenix até minha casa na Califórnia, e tivemos uma longa e emocional discussão nas primeiras horas da manhã. Ela nunca mais seria a mesma, mas isso só foi perceptível após eu ter aprendido os efeitos a longo prazo da visita dela. Minha mãe me diz que ela ficou aturdida pela dissonância. Retirando-se para ter alguma perspectiva, ela nunca foi novamente para igreja. Num artigo da revista Wisconsin, publicado pelo jornal Milwaukee (em 28 de julho, 1991), o jornalista Bill Lueders cita minha mãe, Pat, como ela mesma disse sobre nossa última noite em que nos encontramos: "as respostas que ele me deu impressionaram meu coração e minha mente... tive muito amor pelo meu filho que eu sabia de alguma forma que ele estava certo." Dentro de algumas semanas ela concluiu que a religião era "apenas uma enchimento de lingüiça", sentindo um "tremendo grande desapontamento com Deus." Ela começou ler e a pensar por si própria, e hoje, alegremente, ela chama a si própria de incrédula. Um fato que surpreendeu minha mãe foi que ninguém da igreja dela jamais pareceu se importar com sua partida. Ela tinha sido membro da Assembléia de Deus durante anos. Ela tinha cantado no coral, cantado solos regularmente, ensinado na Escola Dominical, e participado em muitas outras funções. O único incidente extraordinário, após sua partida da igreja, foi um momento embaraçoso quando ela foi agarrada por uma mulher mais velha no supermercado, a qual estava falando em línguas e orando para expulsar o demônio da minha mãe. É desnecessário dizer que isso apenas confirmou a recente descoberta da minha mãe, que a religião é "enchimento de lingüiça". Minha desconversão levou meu pai um pouco mais longe. Ao ler minha carta, ele correu ao altar da igreja e entregou seu coração a Deus. Ele agendou a assistência dos membros da igreja a fim de orarem por mim. O pastor impôs suas mãos sobre meu pai, pedindo a Deus uma benção especial durante sua tentativa de fé. Primeiramente, meu pai tentou discutir comigo, amigavelmente, e atormentamos um ao outro com muitas páginas de correspondência sobre esses assuntos. Por fim ele parava, devido provavelmente a muito mais a influência da minha mãe do que minha. Ele começou a conhecer o "outro lado" e finalmente chegou a respeitar a argumentação dos livres-pensadores. O mesmo artigo da revista Wisconsin cita meu pai, Norman Barker, discutindo sobre como ele encarou a mudança da visão de seu filho: "Tentei endireitá-lo. Isso funcionou ao contrário." Depois que meu pai parou de acreditar em Deus, ele ficou pasmo em como seus amigos cristãos viraram as costas para ele. "Eu costumava pensar que era uma coisa dura ser cristão neste grande mundo mal. Você quer ver uma coisa interessante? Tente não ser um!" Ele informa, "Estou muito mais alegre agora!" - "Ficar livre da superstição, medo, culpa e do complexo do pecado, ser capaz de pensar livremente e objetivamente, é um alívio tremendo." Um dos benefícios imediatos em meu pai foi no campo da música. Na década de 50, quando ele e minha mãe "nasceram de novo", meu pai abandonou sua carreira como trombonista em bandas de salão (ele tinha tocado para a orquestra da rádio de Hoagy Carmichael, entre muitas outras bandas, inclusive durante a segunda grande guerra e em alguns filmes de Hollywood) jogando fora sua coleção de músicas dançantes, deixando para trás sua vida "pecadora", tocando seu trombone unicamente na igreja. Ele tinha visto a música popular como "mundana" e contrária à saúde espiritual. Quando ele finalmente desistiu da religião no final dos anos 80, ele deu a volta por cima, mas isso não aconteceu de forma totalmente clara. Antes de deixar a igreja, meu pai começou a tocar seu trombone em bandas locais de jazz na área de Phoenix, reconectando-se com a vida que ele havia abandonado quase quarenta anos atrás. Ele não disse a ninguém na igreja o que ele estava fazendo porque ele sabia que eles iriam desaprová-lo. Uma noite, enquanto meu pai estava tocando numa banda de dança numa festa de 4 de julho, apareceu na TV uma cobertura do evento, a qual capturou um olhar rápido da banda no fundo. No dia seguinte a esposa do pastor telefonou para meu pai e disse: "Não vi você na TV na noite passada?" Ah! O olho de Deus que vê tudo! Meu pai não pôde continuar com sua secreta vida dupla por muito tempo. Então ele finalmente parou claramente com isso, abandonando o "Avante, soldados cristãos!"3 em favor do "Não fique muito tempo numa coisa só"4 Uma noite, imediatamente antes de ele se esvaziar inteiramente do sistema da crença, meu pai dirigiu até a igreja, pegou o estojo de seu trombone para fora do carro e caminhou para a construção onde ele podia ouvir a oração, o canto e a pregação. Quando ele chegou à porta, ele percebeu fortemente que não pertencia mais àquele lugar. Esperando que ninguém fosse perceber, ele rapidamente deu a volta e foi para casa. Nunca sugeri aos meus pais para que eles se tornassem ateus. Eles tinham seus próprios pensamentos. Eles decidiram investigar todos os lados da questão. É excitante ver o que aconteceu em suas vidas. Não acho possível tirar alguém da religião se a pessoa não quiser. Tudo o que podemos fazer é prover informação e ser um exemplo. Uma repercussão que demonstra o exemplo da incredulidade foi o efeito em meu irmão mais novo, Darrell. Primeiramente ele ficou chocado, mas então ele foi se entusiasmando para ser um livre-indagador. Darrell foi, antes de mais nada, um fechado cético por muitos anos, sem saber exatamente em que acreditava, mas mantendo suas crenças no caso da dúvida. Gosto de satirizar dizendo que Darrrell nunca foi um cristão muito bom. Quando dei a ele um livro sobre humanismo, ele disse: Isso é o que eu sou! Nunca soube disso até agora, mas eu sou um humanista." Ele estava desconfortável com a palavra "ateu", e quando ele me pediu para me acompanhar num encontro de ateus em Los Angeles, ele quase mudou de idéia e sentou fora do carro. Um ano ou dois depois, Darrell tornou-se um dos diretores dos Ateus Unidos. Ele foi para reclamar de violações sobre a separação entre estado/igreja nas cidades de Redlands e San Bernardino. Ele se tornou um demandante em um próspero processo, relativo à propriedade do município, contra a manutenção de um parque de tema cristão em propriedade pública. Meus amigos me dizem que Darrell foi um sólido suporte para eles quando eles tiveram sua desilusão inicial com a religião. Foi bom ter alguém para conversar em tempos como este, e Darrell chamava-os regularmente para comparar idéias em suas novas análises do cristianismo. A mudança gradual em meus pais e em meu irmão Darrell foi tremendamente comovente. Eu jamais teria predito tal surpresa. Meus pais haviam sido crentes fanáticos por Jesus por anos e Darrell havia sido um pregador nas ruas, junto com uma organização missionária. Eu deveria ter sabido que em um relacionamento baseado no verdadeiro amor e aceitabilidade, não há nada a temer. O fato de que estes "nascidos de novo", evangelistas de porta em porta, estavam abertos para mudança me deu esperança. Isso me faz perceber que há alguma coisa que plana acima da religião. Há algo na vida que é muito superior a Jesus, algo mais excelente do que o dogma religioso. Verdadeiro amor, bondade e inteligência não conhecem barreiras. Meu outro irmão, Tom, é um cristão nascido de novo. Ele é um bom homem, muito trabalhador e consciente. Embora nunca tenhamos sido muito próximos, nós gostamos de nos ver ocasionalmente e o assunto de religião nunca vem à tona. Algumas vezes me refiro a Tom como a "ovelha branca" da família. Minha vó materna "Grams" foi uma mulher sem muito estudo, amorosa e generosa, cuja visão sobre religião flutuava de acordo com sua medicação. Ela e eu fomos muito próximos. Quando minha avó recebeu minha carta, ela deve ter rasgado, escrevendo: "Não cederei ante o Diabo". Posteriormente, minha avó me escreveu novamente, com um humor mais característico dela: "Certamente você não tem que se defender para mim. Você é um bom homem, um dos melhores que jamais vi, e estou muito grata por isso... Apenas fico de mente aberta e tento viver uma vida boa. Isso é tudo que posso fazer." Poucos anos depois, ela me disse que tinha ficado assustada com alguns Testemunhas de Jeová à frente de sua porta, rosnando: "Caia fora daqui! Sua atéia!" Não acho que ela realmente era uma atéia, porque em outros tempos ela falou sobre Deus e Jesus em sua vida, mas pelo menos ela se tornou mais "mente aberta". De uma grande forma isso era devido à mudança em meus pais. Minha avó paterna vive em Oklahoma. Depois de meu avô morrer em 1986, ela e eu trabalhamos em um projeto de quatro anos juntos, publicando um livro chamado Paradise Remembered [Paraíso Lembrado], que era uma coleção de estórias do meu avô, o qual foi um garoto indígena da tribo Delaware (Lenape) num território indígena antes de Oklahoma ter se transformado em Estado. Minha avó havia sido membro da Igreja Cristã sua vida inteira e sei que ela está desconfortável com minha desconversão. Ela viu uma de minhas aparições no programa televisivo "Oprah Winfrey" e me escreveu um cartão-postal dizendo: "Vi você na TV. Esse não é nosso Danny". Apesar disso, continuamos nos dando maravilhosamente bem. Dois de meus tios me responderam numa maneira amigável e civilizada à nossa mudança óbvia de visão, mas o terceiro irmão de meu pai, um cristão fundamentalista, está nos excluindo, se recusando a responder nossas cartas. Depois de eu ter enviado para ele uma cópia do Paradise Remembered (à memória de seu pai), o qual foi recebido com excitação e gratidão pelo resto da família, ele me enviou de volta sem nenhuma explicação. Só posso pensar que ele está pouco disposto a ter comunhão com seus parentes "impuros". Meus quatro filhos na Califórnia foram muito bem durante toda a controvérsia. Ao menos que eles tragam à tona ou o assunto apareça normalmente no curso da conversa normal, não discutimos religião. Quando eles visitam Wisconsin, ofereço acompanhá-los à igreja de sua escolha, mas eles nunca me levam junto. Duas ou três vezes durante os anos de segundo-grau, minha irmã Becky me enviou uma carta suplicando para eu "voltar para Deus", assim sei que eles têm lutado com esse assunto. Entretanto, tenho repetidamente dito a eles que meu amor por eles não é relevante ao que eles acreditam. Eles podem ser cristãos se quiserem, contanto que sejam boas pessoas e não machuquem os outros. Eles vão à igreja com sua mãe. Ela trabalha numa escola cristã. O padrasto deles é um jovem diretor numa Igreja Batista. Eles sabem o que penso. Nunca quis que fossem forçados a uma posição de ter que escolher entre os pais. São crianças espertas e tenho que confiar que têm a habilidade de distinguir o fato da ficção e o certo do errado. Dediquei o livro "Just Pretend: A Freethought Book for Children" [Apenas Finja: Um Livro de Livre-Pensamento para Crianças] para eles, o qual diz: "Ninguém pode te dizer o que pensar.Depois de meu casamento cristão ter terminado, me mudei para um minúsculo apartamento de um quarto em Cucamonga. (Sim, existe uma Cucamonga). Meu irmão Darrell tinha um amigo que escreveu para o jornal The San Bernardino Sun-Times e eles publicaram uma história sobre minha desconversão, para a qual solicitei ajuda da Freedom From Religion Foundation [Fundação da Liberdade de Religião] e deram cobertura para o Freethought Today [Livre-Pensamento Hoje]. Após não muito tempo que esse fato ocorreu foi que minha correspondência com Annie Laurie Gaylor floresceu como um namoro à distância. Me mudei para Wisconsin e em maio de 1987 nos casamos. O casamento livre-pensador-feminista, uma questão "não realizada no céu", aconteceu no histórico Freethought Hall [Salão do Livre-pensamento] em Sauk City. Ele foi dirigido por uma juíza de paz calçando sapatos roxos e uma toga, anunciando: "Você agora pode beijar o noivo." (Veja a Parte 9 para conhecer o texto completo da cerimônia). Uma das "repercussões" foi Sabrina Delata Gaylor, nossa filha nascida em setembro de 1989, uma livre-pensadora de quarta geração pelo lado de sua mãe, e um membro da tribo de índios americanos Delaware (Lenape), pelo meu lado. Sabrina também tem sangue Chiricahua Apache do lado da bisavó da minha mãe, a qual era um membro puro da tribo do Arizona da qual Geronimo veio. (O clã de Geronimo lutou contra a intrusão dos missionários espanhóis.) Exatamente como alguns parentes religiosos nomeiam suas crianças com nomes "Fé", "Caridade" ou "Esperança", buscamos um nome que significaria razão. "Delata(h)" é a palavra índigena Delaware para "pensamento" ou "razão." Em 1987 fui trabalhar em tempo integral para a Freedom From Religion Foundation [Fundação da Liberdade de Religião] em Madison, Wisconsin. A Fundação é uma organização internacional de livres-pensadores - ateus, agnósticos, humanistas seculares - trabalhando para manter o estado e a igreja separados e para educar o público sobre as idéias dos não-teístas. Trabalhar para a Fundação foi uma excitante e intelectual satisfação. Isso me possibilitou continuar "espalhando as boas-novas" e utilizar (e melhorar) algumas de minhas habilidades que ganhei nos tempos de pastor. Escrever regularmente artigos para o jornal da Fundação "Freethought Today" [Livre-Pensamento Hoje], realizar programas de TV e rádio, participar de debates em universidades e igrejas, compor música de livre-pensamento, realizar concertos, fazer discursos, escrever livros de livre-pensamento para crianças - todas essas coisas me permitiram continuar estudando as questões pelas quais eu me interessei minha vida inteira e permanecer falando sobre as mesmas. Durante os anos com a Fundação aprendi que falar faz diferença. A Fundação foi capaz de fazer contato com milhares de livres-pensadores no continente e motivou muitos deles a tornarem mais explícito seu modo de pensar. No fim de uma de meus debates em Iowa, um estudante veio a mim e disse "Vá em frente e acrescente meu nome à sua lista. Fui criado Católico numa pequena vila rural e nunca fui capaz de reconhecer minhas dúvidas até agora." Bem aqui nasceu um livre-pensador. Isto poderia soar como um sermão de domingo à noite, mas tenho que dizer que minha vida está indo muito melhor desde que deixei a religião para trás. Amizades inválidas foram descartadas, o verdadeiro amor das pessoas, como meus pais, foi algo maravilhoso e confirmante e os novos amigos livres-pensadores têm feito mais do que suprir algum senso de perda inicial. A desonestidade é um preço muito alto a se pagar para manter uma amizade. Para conseguir o ouro puro, você deve derretê-lo e tirar as impurezas. Nunca sabemos totalmente como nossas ações podem afetar os outros. Li artigos que tiveram um tremendo impacto em meu pensamento, mas nunca escrevi agradecendo ao autor. Livres-pensadores que escrevem ao jornal local algumas vezes se sentem desencorajados quando eles não recebem sequer uma simples resposta positiva. Entretanto, isso não significa que a vida de alguém não mudou. Acho que todas nossas ações são semelhantes a isso. O que fazemos produz efeitos que irradiam muito mais do que podemos ter pretendido ou imaginado. Neste louco mundo atual de religião falar como um livre-pensador pode não ajudar, mas produz impacto.
© Copyright 1990 de Dan Barker. Todos os direitos reservados. De Perdendo a Fé na Fé: De Pastor a Ateu - Capítulo 2 Por favor, não distribua cópias deste capítulo nesta forma. Perdendo a Fé na Fé, de Pastor a Ateu de Dan Barker pode ser comprado através do endereço: Freedom From Religion Foundation, Inc., PO Box 750, Madison WI 53701 Notas do Tradutor 1 - Este nome foi provavelmente citado previamente no capítulo 1 deste livro. Voltar 2 - A ordenação de um ministro é o ato de investí-lo formalmente no cargo de ministro protestante, ou seja, é um pastor evangélico ingressado oficialmente no cargo. Voltar 3 - Este é o nome de um hino evangélico - ref: Hinário Novo Cântico, Casa Editora Presbiteriana, 2ª edição, hino n.° 311, conhecido no Brasil como "Avante, avante, ó crentes, Soldados de Jesus! Voltar 4 - Este é o sentido aproximado do original em inglês: "Don't Get Around Much Any More", que é o nome de uma música de Bob Russel e Duke Ellington. Voltar
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