Publicado: 19/07/2000
de Ronaldo Cordeiro
Estou respondendo ao seu texto a pedido do Mário Porto, não sem uma certa preocupação. Apesar de já ter pessoalmente debatido com vários criacionistas em fóruns norte-americanos, sempre fico impressionado com o fato de ainda existirem pessoas capazes de recusar todo o conhecimento científico conquistado nos últimos 140 anos em nome pura e simplesmente da religião. Fico decepcionado por ver essas idéias distorcidas aportarem aqui no Brasil. É triste ver pessoas se verem forçadas a negar a ciência, única e somente por se sentirem na obrigação de interpretar literalmente a Bíblia ou o Corão, ou qualquer livro que considerem sagrado e infalível. Isso me causa estranheza, principalmente porque outros grupos cristãos, também inspirados na Bíblia, não têm qualquer dificuldade em aceitar as descobertas científicas. Por que então os chamados criacionistas reagem tão negativamente à idéia de evolução das espécies? Apenas em nome de uma interpretação literal da Bíblia, ainda que isso implique em lutar contra os fatos. Ainda que isso implique em ignorar as provas. Ainda que isso implique em fazer vista grossa a tudo que demonstre a evolução. Ainda que isso implique em aceitar sem qualquer questionamento ou análise qualquer artigo escrito pelo ICR de Duane Gish e outros autores criacionistas, todos eles com um extenso histórico de erros, interpretações errôneas de estudos científicos, citações distorcidas e fora do contexto, mentiras puras e simples e ignorância proposital de fatos que refutem suas idéias. Toda e qualquer afirmação dos criacionistas já foi ampla e devidamente refutada, e revelou-se resultado ou de má interpretação dos fatos ou de desonestidade pura e simples, e no entanto os mesmos autores criacionistas continuam a repeti-las ad nauseam. É porque o seu público alvo não são os cientistas e sim o público leigo. Qualquer cientista que cometesse os mesmos erros e deslizes de Gish, Morris, Brown, Woodmorappe, já teria sido desacreditado, perdido o emprego e caído no ostracismo, se estivesse nos meios da ciência regular. Por que então esses cidadãos continuam ativos e escrevendo? É porque seu público não está interessado nos fatos, Alexandre. Gish pode mentir, errar e enrolar mil vezes. Lembra de quando ele apareceu com a história das proteínas da galinha ou do sapo-boi serem mais parecidas com as humanas do que são as do chimpanzé, e até hoje está devendo as provas disso? Seus deslizes são tolerados pelos criacionistas porque eles acreditam estar em uma "boa causa", talvez mesmo achem que os fins justifiquem os meios. Eu lhe peço encarecidamente que questione. Que nunca deixe de pensar. Que tente filtrar a informação que chega a você. E que, acima de tudo, tente compreender POR QUE os cientistas acreditam na evolução das espécies como a melhor explicação disponível, antes de jogar no lixo todo o esforço e as conquistas dos cientistas. Você começa seu texto com: "Darwin não era formado em nenhuma cadeira científica, sua área era a teologia."Cuidado Alexandre. Afirmar que uma pessoa não pode fazer uma grande descoberta porque não tem educação formal em X ou Y, é uma espécie de apelo à autoridade às avessas. As idéias de Darwin foram adotadas pela ciência não porque os cientistas gostassem da sua pessoa ou achassem suas credenciais impressionantes, mas porque eram boas idéias, e que foram posteriormente corroboradas por tudo o que se descobriu desde então. Teorias se firmam por sua qualidade, não pelos títulos de seus autores. "Sua teoria de evolução e o criacionismo só podem ser vistos no campo filosófico ou religioso, visto que nem uma nem outra estão sujeitas a experiência em laboratórios, porque elas não são nem observáveis nem repetíveis."Isso é patentemente falso. É o sonho dourado dos criacionistas tentar nivelar a evolução, que é científica, com o criacionismo, que é eminentemente religioso. A evolução é sim, observável em laboratório. Basta observar o experimento de bactérias adquirindo resistência a antibióticos. Ou insetos adquirindo resistência a pesticidas. Se você não acredita nem nos seus próprios olhos, Alexandre, então infelizmente nosso diálogo não tem sentido. Outra coisa que caracteriza uma ciência é a falseabilidade, ou seja, a possibilidade se ser provada falsa. Se você afirmar que o mundo foi criado em 16 de setembro de 1999, já com a aparência de ser muito mais velho e com as pessoas já com as lembranças de fatos como se tivessem acontecido há muitos anos, já com jornais e revistas e livros contendo histórias exatamente como se tivesse havido um passado, etc, não há nada que possa provar sua teoria falsa. Portanto ela não é científica. Qualquer característica nos seres vivos que prove a evolução, como a presença de órgãos sub-ótimos ou problemáticos, seqüências de DNA sem função, semelhanças no código genético entre espécies, fósseis em seqüência, etc, pode ser explicada pelos criacionistas com um "foi tudo criado assim" ou "Deus opera de maneiras misteriosas". Qualquer teoria "à prova de falhas" é pseudocientífica, Alexandre. Ciência não é isso. Sugiro ler o texto de Robert T. Carroll sobre ciência: http://paginas.teleweb.pt/~ceptico/entradas/ciencia.html "O verdadeiro cientista sempre examina todas as respostas possíveis e toda evidência disponível, antes de tomar uma decisão ou de formar uma opinião. Porém o evolucionista costuma dizer: "Ou você crê como eu ou é um idiota!". Queremos crer que não seja esse o meu caso."O verdadeiro cientista não examina TODAS as respostas possíveis, mas sim as mais prováveis, de acordo com os elementos de que dispõe. Quando uma teoria substitui a outra, é porque a nova explica os fatos melhor que a antiga. Só não há motivos para se ficar reexaminando hipóteses há muito substituídas, como a terra plana, o geocentrismo e o criacionismo. Se a evolução foi aceita como a melhor teoria, apesar de irritar os fundamentalistas, é porque os fatos levaram a isso. Não é questão de dizer que alguém é idiota, ou coisa parecida. O que falta, na maioria dos casos, é um pouco de esclarecimento ou de honestidade consigo mesmo. Por falar em honestidade consigo mesmo, Alexandre, proponho um teste: pense com você mesmo que tipo de prova o convenceria do fato da evolução? Se você visse microorganismos evoluindo em laboratório diante dos seus próprios olhos? Se você analisasse o registro fóssil e percebesse uma nítida seqüência de seres mais elementares para seres mais complexos? Se você descobrisse que o homem possui os chamados pseudogenes no DNA que não funcionam mais porque sofreram danos... e que o chimpanzé possui pseudogenes idênticos, indicando ancestrais comuns? Tudo isso já foi descoberto, Alexandre, mas adivinhe se isso convenceu os criacionistas. Será que alguma prova o convenceria, ou você ficaria procurando explicações ad hoc contrárias a qualquer lógica apenas para se manter na sua convicção? Até que ponto essa idéia de que fomos criados exatamente como está escrito na Bíblia é importante para a sua fé em Deus? Em seguida, você transcreve o "poema" do protozoário. Na verdade, ele revela mais a ingorância sobre o que é a evolução por parte do seu autor, que na verdade apresenta uma versão bastante caricata das teorias atualmente aceitas (falácia do Straw Man). Não sei se sua intenção foi exatamente essa, e espero que não, mas talvez ele tenha mesmo algum forte efeito sobre o público leigo, que não tem conhecimento sobre os detalhes da evolução. Ainda mais no nosso pobre país em que a educação é artigo de luxo para uns poucos privilegiados. Notei até um ligeiro e injusto preconceito para com os pobres dos macacos, chamados de malcheirosos e cheios de pulgas. A verdade é que, gostem ou não os criacionistas, temos sim DNA em comum com os macacos e com seres tão diversos como o rato, vermes como o Caenorhabditis elegans, e até com o levedo. A história de nossos ancestrais evolutivos está, irremediavelmente, profundamente, gravada no nosso DNA. Mais uma vez, Alexandre, você está sendo honesto consigo mesmo? Examinemos então o que você nos apresenta como "EVIDÊNCIAS SIMPLES CONTRA A EVOLUÇÃO". Começa, estranhamente com "O DESAFIO DO ENCOLHIMENTO DO SOL". Isso me causa uma grande estranheza. Apesar de isso não ter absolutamente nada a ver com o processo evolutivo, sei que alguns criacionistas, os chamados "criacionistas da terra jovem" ou YEC, costumam aparecer com argumentos para provar que a terra é jovem e não tem mais que 6.000 ou 10.000 anos. Fico triste com isso porque é pura e simples ignorância. É querer negar, não só um, mas vários campos do conhecimento humano ao mesmo tempo. A astrofísica, a geologia, a paleontologia, todas elas apontam para uma terra com 4,5 bilhões de anos e para um universo ainda mais antigo. O criacionista Russel Akridge, citado por você, na verdade pegou os dados do artigo de Eddy e Boornazian, de 1979, em que afirmavam ter observado a tal contração de 5 pés por hora, e concluiu que essa taxa deveria ser constante. Você não acha curioso que Akridge tenha falado em "observações ao longo de 400 anos" quando no próprio título do artigo de Eddy e Boornazian se lê "Secular Decrease in the Solar Diameter, 1836-1953."? O período foi de só 90 anos, Alexandre. O fato é que nenhum outro estudo encontrou esse tal "encolhimento do sol". Na verdade, descobriu-se que a metodologia usada por Eddy e Boornazian tinha falhas, e o texto completo do seu estudo jamais foi publicado. Além disso, em 1980, quando o texto de Akridge foi publicado, haviam sim outras medições que não mostravam nenhum encolhimento para o sol, e no entanto ele preferiu não usá-las! Observações subseqüentes também não mostraram o tal encolhimento. Sugiro dar uma lida em: http://www.talkorigins.org/faqs/faq-solar.html#_Toc430357875 Por que então, apesar de todas as medições em contrário e apesar da única fonte de Akridge ter sido desacreditada, suas idéias continuam até hoje, 20 anos depois, sendo divulgadas pelos criacionistas? Por que não admitiram o erro? Por que não corrigiram suas conclusões com base nos estudos mais recentes, como a boa ciência faz? Quero quer que a maioria dos criacionistas seja de pessoas sinceras, que só divulgam esse argumento por acreditar que suas fontes são confiáveis. Seria muito triste, Alexandre, pensar que os criacionistas continuam a usar informações falsas mesmo sabendo do fato, para iludir os incautos. Espero estar dando minha contribuição para evitar que você seja enganado. Mas não nego que fiquei estarrecido com sua afirmação: "Como criacionistas aceitamos, em bases inabaláveis, que o tempo da criação até agora é aproximadamente de 6 a 10 mil anos."Isso faz de você um YEC (Young Earh Creationist). Que decepção, Alexandre! Como eu disse anteriormente, essa posição é um desafio a vários campos da ciência ao mesmo tempo. Alguém com essa postura precisa chegar diante de todos os astrônomos, astrofísicos, geólogos e diante da ciência como um todo e dizer que todos eles estão errados. E muito errados. Não por erros de 1% ou 10%, mas de bilhões de anos. E tudo isso pra quê? Transfiro esta pergunta a você. Por que os criacionistas, sem ter qualquer elemento a seu favor, querem passar por cima do conhecimento científico de que a terra e o universo são antigos? Será que isso é tão importante assim, a ponto de fechar seus olhos para a realidade? Repito a pergunta: será que acreditar que a terra é jovem é tão importante assim para a sua fé em Deus? Os YEC têm uma tarefa bastante ingrata, principalmente porque podem sair de casa à noite e contemplar o céu, sabendo que muitas das luzes que vêem vieram de estrelas e galáxias que distam milhões de anos-luz da terra. E o que fazem eles então? Admitem o erro? Não, Alexandre. Eles criam teorias estapafúrdias para tentar justificar a luz vinda de estrelas distantes. E na verdade nem mesmo entram em acordo entre si. Alguns criacionistas sugerem que o universo teria sido criado com a luz dos objetos longínquos já a caminho da terra, de forma exata que parecesse que estes objetos emitiram luz há bilhões de anos. Isso significa prever o movimento de cada fóton do universo, mas deixemos de lado por um instante o aspecto absurdo. Isso nos levaria a uma hipótese não falsificável, como a que exemplifiquei acima, além de nos dar a má impressão de um criador com a intenção deliberada de nos iludir. Outros já não concordam com essa hipótese e afirmam que a velocidade da luz teria sofrido mudanças ao longo do tempo, de forma a parecer que viajou bilhões de anos quando só viajou 6 a 10 mil. Essa alteração de milhões de vezes(!) na velocidade da luz, que aparentemente teria parado de acontecer nos dias atuais, além de absurda é simples de se provar falsa, bastando usar referências como a freqüência dos pulsares mais distantes, que é a mesma dos mais próximos, e não mais lenta como seria de se esperar. A observação do universo não mostra nenhuma variação significativa no valor de c, muito menos a de que os criacionistas precisariam. Alguns outros criacionistas apelaram para questionar a precisão das técnicas usadas para medir o tamanho do universo, afirmando que ele todo teria não mais que 200 anos luz! Isso é assustador! Afirmaram mesmo isso! Uma única galáxia, Alexandre, como a nossa, tem dezenas de milhares de anos-luz de diâmetro. Há bilhões de galáxias (espero que você acredite nisso, pois até usa esse fato como analogia num argumento seu). As distâncias entre elas são maiores ainda. Não há, racionalmente, como alguém que saiba do que está falando tentar encaixar o universo num raio de 200 anos luz. Se você conhecer alguma maneira, por favor me conte. Ainda apareceram os seguidores de Slusher com sua idéia do espaço riemanniano (ou hiperbólico, em oposição ao euclideano), que foi mesmo uma hipótese levada a sério por cientistas desde Einstein. Só que a curvatura que os criacionistas sonham para o tal universo riemanniano é (por pura conveniência, é claro!) de 5 anos luz (para que nenhuma distância seja maior que 15,71, ou 5 x pi, anos-luz), o que nenhum cientista sério jamais afirmou. O universo riemanniano criacionista, com uma curvatura tão pequena, traria alguns fenômenos absurdos, como vermos uma supernova explodindo e, décadas depois, vermos a explosão acontecendo de novo. Além do mais, recentes observações das sondas Boomerang e Maxima finalmente trouxeram provas de que o universo é plano (euclideano): http://www.berkeley.edu/news/media/releases/2000/05/09_maxima.html Quem sabe daqui a uns 50 anos os criacionistas resolvam abandonar esse argumento? Vamos esperar... Mas enquanto isso, faço novamente a pergunta: o que levaria alguém a divulgar hipóteses sabidamente errôneas para seu público? Ignorância? Descuido? Será que alguém, antes de afirmar que algum conhecimento científico está errado, não deveria primeiro compreender melhor sobre o que está falando? Qualquer desses argumentos criacionistas, se apresentando a alguém que entenda sobre as áreas específicas envolvidas, provavelmente seria motivo de riso. Será então que seus inventores visavam mesmo o público leigo? Em seguida você faz uma crítica ao método do Carbono 14. É um argumento estranho à discussão, já que a teoria de evolução já está estabelecida desde o século passado e a datação radiométrica pelo C-14 foi descoberta, como você mesmo diz, em 1947. A evolução nunca precisou da datação radiométrica, e mesmo os fósseis não foram a base para a formulação da teoria por Darwin. Por que então os criacionistas atacam a datação por C-14? Como você mesmo diz, em seguida: "Observe-se que coisa alguma é datada em mais de 40000 anos.". Se tivesse sido datada estaria errado, Alexandre. Lembre-se que você mesmo transcreve que a meia-vida do C-14 é de 5.730 anos, e grosso modo, cada meia vida adicional faz a precisão cair pela metade. Qualquer medição acima de 40.000 anos não é considerada precisa pelos cientistas (técnicas mais modernas chegam a 50.000), porque qualquer pequena variação na contagem pode resultar em um erro muito grande. E é por isso que ela não é, nem nunca foi usada, para confirmar a idade de bilhões de anos da terra, nem para datar fósseis mais antigos. Para datações de rochas antigas, usam-se radioispótopos com meias-vidas mais longas, como o método do Rubídio-Estrôncio (49 bilhões de anos). Se você não sabia disso, me desculpe, mas faço questão de salientar que você não vai encontrar absolutamente nenhum livro científico que afirme que o C-14 é usado para isso. Se encontrar, aí sim você poderá fazer um favor à sociedade denunciando o livro. Os criacionistas deveriam no mínimo saber desse fato, se têm a pretensão de desafiar a ciência. Mas se sabem, por que será que ainda usam esse argumento? Em seguida você sai do assunto do C-14 e afirma: "Outra pergunta que as pessoas às vezes fazem, relaciona-se com o aperfeiçoamento que ocorre dentro das espécies. Isto pode parecer-se com a evolução, mas não é."Isso que você chama de "aperfeiçoamento", e que alguns outros criacionistas chamam de "microevolução", é evolução sim! Você se esqueceu de exemplificar que isso também ocorre na natureza, sem intervenção do homem, num processo chamado seleção natural. Se você acredita que existem diferenças entre indivíduos de um grupo, que esses indivíduos podem transmitir essas diferenças para seus descendentes e que algumas dessas características podem favorecer a sobrevivência de alguns indivíduos em relação a outros, então parabéns: você é um evolucionista. Para fugir dessa palavra "evolução" que os criacionistas abominam, tratam diferenciadamente a "microevolução", que alguns deles até reconhecem como fato, e "macroevolução", que envolveria surgimento de novos órgãos ou de novas espécies (por favor não me culpe se eu não tiver definido os termos da maneira que os criacionistas gostam, mas acho que deve ser alguma coisa assim). No entanto, posso sugerir um texto interessante (Exemplos Observados de Especiação) para mostrar que a tal "macroevolução" pode ser observada também: http://www.talkorigins.org/faqs/faq-speciation.html Você vai ver que existem sim exemplos documentados de surgimento de novas espécies. Para poupar a você uma desnecessária discussão sobre "macroevolução", não custa nada lembrar também que a existência de pseudogenes e retroposons em comum no DNA de duas espécies é prova de ancestralidade comum, e portanto também prova a "macroevolução"? Por exempo, sabia que os mamíferos sintetizam sua própria vitamina C, e portanto não precisam dela na alimentação, porque possuem um gene para a produção da enzima que a sintetiza? Descobriram que o homem também possui esse gene, só que ele não funciona porque alguma mutação deletou dele um único par de bases. Um criacionista talvez pudesse sugerir que Deus teria criado o homem com esse gene perfeito, mas que o pecado teria causado esse dano, não é mesmo? Então como explicar que o chimpanzé tenha essa mesma mutação nesse mesmo gene nessa mesma posição? O genoma está cheio desses exemplos, Alexandre, e eles vão aparecendo em número cada vez maior à medida que o Projeto Genoma avança. http://www.talkorigins.org/faqs/molgen Os criacionistas travam uma batalha perdida. E mais um detalhe... já lhe ocorreu que a evolução do homem a partir de seu ancestral em comum com o chimpanzé está bem mais para "micro" do que para "macroevolução"? Se tiver refutações para os exemplos de especiação e para os erros em comum no DNA, fique à vontade para responder. O que não pode é caricaturar a evolução, afirmando coisas que a ciência não afirma, como aquela história de cruzamento de meia vaca com meio cavalo, ou uma espécie de uma hora para outra passar a gerar uma espécie diferente. Continuando, acho uma pena que você tenha escrito um trecho tão longo sob o título "A EVOLUÇÃO E A LEI DA PROPABILIDADE(sic)". Todo ele padece das falácias probabilísticas que são ótimas para impressionar leigos, mas quando analisadas acabam revelando suas fraquezas. O primeiro erro é a comum confusão da evolução das espécies com a abiogênese, que seria o surgimento do primeiro organismo vivo na terra, e é disso que o trecho realmente fala em sua maior parte. Evolução e abiogênese são duas coisas bem distintas, Alexandre, e você sabe bem disso. Quero crer que tenha sido um descuido da sua parte. Explorar a falta de conhecimento atual da ciência a respeito de detalhes sobre a abiogênese, de forma alguma torna a evolução falsa. A maioria das analogias probabilísticas citadas (fico até surpreso por você ter deixado de fora aquela clássica do Hoyle-Wickramasinghe e o Jumbo num ferro velho) sofre de falhas metodológicas crassas. Sugiro ler o artigo (Mentiras, mentiras deslavadas, estatísticas e probabilidades dos cálculos da abiogênese): http://www.talkorigins.org/faqs/abioprob.html Os exemplos dados por Gish e a maioria dos criacionistas, se apóiam em premissas falsas, como a de que o primeiro auto-replicador teria partido diretamente de aminoácidos para uma célula complexa, omitindo também uma série de passos intermediários (substâncias químicas simples, polímeros, polímeros replicantes, hiperciclo, protobionte, bactéria). O primeiro replicador poderia ser bem mais simples do que pensam os criacionistas. Outro erro comum é o de se achar que uma, e somente uma, seqüência de aminoácidos forma uma proteína funcional, e qualquer alteração na seqüência daria errado (daí o cálculo de Gish: 1/2050 = 1.125 x 1065), o que é falso. Segundo Musgrave: "Algumas moléculas funcionalmente equivalentes podem ter de 30% a 50% de seus aminoácidos diferentes. Na verdade, é possível substituir proteínas bacterianas não estruturalmente idênticas por proteínas do levedo, e proteínas de vermes por proteínas humanas, e os organismos continuam vivendo felizes." Sua citação de que "...a mais simples replicadora molécula de proteína que se poderia imaginar ...tem uma probabilidade em 10450." também merece um questionamento, já que você não menciona que tipo de molécula seria essa, mas com certeza NÃO É a mais simples. O peptídeo "auto-replicador" do grupo de Ghadiri, ou o hexanucleotídeo auto-replicante, ou o auto-replicator SunY, todos são exemplos de peptídeos auto-replicantes elementares citados por Musgrave no artigo acima. Os cálculos para o auto-replicador de Ghadiri estão na referência que eu citei, e como você poderá constatar, é altamente provável que ele se forme por acaso, e em bem pouco tempo. Com relação ao DNA, o mesmo raciocínio vale. "Salisbury calculou que a probabilidade de uma cadeia típica de DNA é de uma em 10600". Que cadeia típica é essa? E a infinidade de cadeias igualmente funcionais que poderiam ser formadas com a mesmo número de pares de bases? Talvez você não tenha entendido o que você chama de "...réplica evolucionista , segundo a qual o arranjo desordenado tem a mesma probabilidade que o arranjo ordenado". Não sei de onde veio esta afirmação, mas talvez ela queira lembrá-lo de que a probabilidade da formação de uma seqüência FUNCIONAL (há inúmeras) não é a mesma coisa que a probabilidade de uma seqüência ESPECÍFICA (uma). É como se você pensasse que uma e somente uma seqüência seria a "ordenada", e todas as outras seriam "desordenadas", o que é falso. Acho que você já deve ter percebido como a explicação também se aplica ao seu exemplo das pessoas no auditório (veio do debate Gish vs. Saladin? Não me lembro mais). Mais um equívoco comum, de que já falei: "Atribuir à seleção natural o que o acaso não pode realizar é o mesmo que admitir a necessidade de um criador."Estávamos falando de abiogênese e você estende a sua conclusão à seleção natural, que é um mecanismo da evolução? Duas coisas bem distintas. Você ainda irá cometer esse equívoco outras vezes ao longo do texto. Mas mais uma vez, para que fique claro. Evolução e abiogênese são coisas bem distintas, e apresentar cálculos improváveis para a abiogênese é irrelevante para se desprovar a evolução. "O Dilúvio universal, narrado pela Bíblia e presente em todas as culturas, alterou o clima na terra, antes uniforme e ameno. Isto fez que a seleção natural entrasse em ação."Mas que decepção, Alexandre! Dilúvio universal? Vou me abster de comentar isso. Em seguida você direciona a discussão para a probabilidade da vida em outros planetas, que não é, como você diz, consenso entre os cientistas. Como mais uma vez é um assunto mais relacionado com abiogênese do que com evolução, não creio que seja pertinente ao nosso diálogo. No entanto, um detalhe me chamou a atenção. Talvez você tenha interpretado mal as idéias de Carl Sagan. Ele acreditava sim na possibilidade da vida fora da terra e foi um dos idealizadores do projeto SETI, para busca de inteligência extraterrestre, portanto talvez valha a pena verificar suas fontes. Só para concluir, os criacionistas têm o costume de citar frases de cientistas, às vezes verdadeiras, às vezes não, às vezes de pessoas de áreas ligadas à evolução, às vezes não. De vez em quando aparece algum deslize (a propósito Alexandre, não existe prêmio Nobel de biologia). Mas permita-me um comentário sobre uma afirmação sua: "Se por um momento de humildade, quisesse fazer a sua lógica funcionar, diria: "Desde que o homem existe mesmo, Deus deve existir", ao invés da flagrante contradição: "Desde que o homem existe mesmo, a geração expontânea deve ter ocorrido"Mas Alexandre, se você afirma que a vida não poderia ter surgido por acaso porque é muito complexa... qual é a probabilidade de que um Deus criador do universo (e portanto presumivelmente muito mais complexo) tenha surgido por acaso? Bem. Não quero desviar a discussão para o campo teológico, mas você não acha que está apenas transferindo o problema? Repare que em nenhum momento você toca no assunto (delicado sem dúvida) de tentar explicar qual a origem do Deus em que você acredita. Mas "já que ele está aí você tem que acreditar que ele surgiu espontaneamente", não é mesmo? Agora, comentando o tópico "A EVOLUÇÃO E AS LEIS DA TERMODINÂMICA", não há muito o que ser dito. Não sei bem por que, os criacionistas ainda tentam usar interpretações altamente distorcidas, principalmente da 2ª lei, a seu favor, apesar desse argumento já ter sido repelido inúmeras vezes. Talvez seja o caso a que me referi de argumentos destinados aos incautos. Quanto à primeira lei, ela é empregada pelos criacionistas no contexto do surgimento do universo, o que foge ao assunto da evolução (o que é muito estranho aliás, já que as leis da termodinâmica só surgiram instantes DEPOIS do Big Bang). Já em relação à 2ª lei, como já lembrei acima, evolução também é o que acontece quando bactérias desenvolvem resistência a antibióticos, e os criacionistas teriam bastante trabalho para provar que isso não pode estar acontecendo (deve ser ilusão de ótica) porque viola a 2ª lei da termodinâmica. Os criacionistas evitam os modelos matemáticos do cálculo da entropia e em vez disso partem para definições vagas de "simples" e "complexo" e "ordem" e "desordem", conforme sua conveniência: "A 2a Lei da Termodinâmica declara que todas as coisas relegadas ao acaso tendem sempre a ir do complexo para o simples, do organizado para o desorganizado. A evolução requer exatamente o contrário...: a contínua construção das mais simples formas para as mais complexas."Será? Para simplificar as coisas, coloque água, areia e óleo numa garrafa. Deixe o sistema "relegado ao acaso". Com o tempo, a areia irá para o fundo, a água ficará no meio e o óleo por cima, passando assim da "desordem" para a "ordem" espontaneamente. E isso sem necessidade dos tais "motores inteligentemente projetados" que os criacionistas dizem ser necessários. Outro exemplo: o vapor na atmosfera quando se congela, forma cristais de gelo (ou seja, passa da "desordem" para a "ordem") e se precipita sob a forma de granizo ou neve. Um criacionista (desculpe, não me lembro quem) afirmou que, na verdade, a estrutura cristalina é uma forma mais "simples" porque na verdade carrega menos informação que uma forma "complexa". Tudo bem, como o freguês sempre tem razão, de agora em diante o gelo é que é simples e a água é que é complexa. Então quando este gelo chegar à terra, vai derreter e conseqüentemente passar de "simples" para "complexo", ainda espontaneamente e ainda sem nenhum "motor inteligentemente projetado". Qualquer que seja o estado que os criacionistas quiserem definir como "simples" ou "complexo", "ordenado" e "desordenado", as mudanças podem ocorrer naturalmente, bastando para isso apenas as propriedades da matéria e uma fonte de energia externa, que no caso é o sol. De maneira análoga, os aminoácidos têm a propriedade de formar proteínas. Apenas propriedades, Alexandre. Ainda resta alguma dúvida? Quanto ao Gyorgyi e a "sintropia", parece ser uma hipótese pessoal dele, sem muito sucesso no meio científico. O único lugar onde eu já vi esse conceito ser citado foi no próprio ICR, portanto não se pode dizer que seja exatamente o pensamento da comunidade científica, não é mesmo? Para concluir, "...Desafiamos sua consciência e senso científico, pedindo-lhe que coloque esse material em sua página para apreciação e comentários de outros céticos."Será um prazer. Mas se você achar embaraçoso que publiquemos algum dos argumentos que talvez você tenha usado por sincero desconhecimento, pode solicitar a remoção. No entanto, sinceramente espero que você autorize a publicação na íntegra. "Seria de muita utilidade para o instituto, já que tudo isso será um material que, como dissemos, usaremos para propor ao Ministério da Educação e Cultura a inclusão da teoria da criação nos livros didáticos do país. Pela simples liberdade de expressão do livre pensamento é que lutamos..." Nós também. No entanto, quando se trata de definir o que irá ser ensinado a nossos filhos, acredito que quem deve decidir o que incluir nos currículos de história são os historiadores, nos de matemática os matemáticos, nos de ciências os cientistas... "...Como conseguimos na Europa e EUA, cremos conseguir no Brasil."... e é isso o que acontece quando políticos se metem a decidir sobre currículos escolares. No entanto, a coisa não foi bem assim. Os criacionistas não conseguiram incluir o criacionismo (que já foi declarado religião em várias decisões judiciais) nos currículos norte-americanos. Conseguiram sim, por manobras políticas, tirar a obrigatoriedade do ensino da evolução e do Big Bang, ou incluir advertências em livros escolares dizendo que ela é "controvertida porque ninguém estava lá pra ver", em uns poucos estados. Quanto à Europa, desconheço o que o criacionismo tenha conseguido por lá, mas agradeço alguma referência. Acho que uma maneira muito mais proveitosa de se canalizar seus esforços seria pesquisar mais, estudar mais a fundo, e procurar conhecer os assuntos que discutimos mais profundamente. E deixar o ensino da ciência para os cientistas. Ou você acharia natural um cientista invadir uma igreja e tentar ensinar o cristianismo a um pastor?
Um Abraço.
Evolucionista
Criacionista
Nenhuma das duas / Outra | ||||