Debate Publicado: 07/06/2002
Atualizado: 07/06/2002
BIG BANG: 1a RESPOSTA DO DEBATEDOR A PARA A INTRODUÇÃO DO DEBATEDOR B

de Sandro Rembold


A diferença entre a abordagem do debatedor B e a minha é notória. Infelizmente, vários erros de compreensão tanto da teoria do Big Bang quanto de outros tópicos de física permeiam sua Introdução. Nessa primeira réplica, vou transcrever alguns trechos da Introdução do debatedor B e comentá-los.

“Apesar das belíssimas e impressionantes teorias e fórmulas dos astrofísicos, não posso aceitar que este indescritivelmente enorme universo tenha se originado de um só átomo, de repente, do nada. Isso é absolutamente irracional. Prefiro acreditar em Papai Noel.”
Em primeiro lugar, a irracionalidade levantada pelo debatedor B permaneceria mesmo que não estivéssemos trabalhando com a teoria do Big Bang. Se o universo fosse estático, as estrelas e galáxias, que são sistemas que evoluem no tempo, continuariam tendo uma idade associada. De onde veio a matéria que formou estes sistemas? Do nada? Se foi “de repente” ou não, isso não altera sua “irracionalidade”. O debatedor B associa erroneamente ao Big Bang uma suposta irracionalidade que é característica da simples existência do universo tal como o conhecemos. Além disso, a expressão temporal “de repente” não tem sentido algum ao se referir ao Big Bang.

Em segundo lugar, aquilo que nos parece racional de imediato nem sempre representa o comportamento da natureza. A aparente irracionalidade da mecânica quântica não muda o fato de esta ser a teoria científica mais bem-sucedida da história, já que é capaz de fazer previsões com excelente precisão. A adequação de uma teoria às observações – coisa na qual o Big Bang se sai muito bem – é que dá sustentação à mesma.

“A teoria do big-bang é sem dúvida uma armadilha. Se você aceita que o universo surgiu de repente, você tem que admitir que houve uma causa primeira, um DEUS, por exemplo, que o teria criado.”
Novamente, a infeliz expressão “de repente” é usada. E volto a dizer que o problema levantado acima permaneceria, num universo estático. Se abandonarmos a teoria do Big Bang, continuamos com esse suposto problema... e ganhamos vários outros que são resolvidos com esta teoria.
“Poderíamos, sem muita convicção, aceitar a hipótese de que o universo [...] existisse em um estado concentrado, antes de uma explosão, alguns bilhões de anos atrás. Porém, imaginar que fosse do tamanho de um átomo, ou da fração de um átomo, e que tenha explodido de repente, dando origem, pelo menos, ao universo visível, de cerca de trinta bilhões de anos-luz, de diâmetro, parece-nos um absurdo indescritível, além de ridículo-próximo da demência.”
A demência referida pelo debatedor B surge da escala do universo na época da “explosão”. Não vejo por que as coisas mudariam tanto se a escala do universo fosse ínfima ou não. Observamos que o universo está em expansão. No ano de 1999, quando a STR foi fundada – eu não encontraria data mais adequada para esse exemplo – , a escala do universo era, conseqüentemente, menor do que a desse exato momento. O debatedor B aceita as evidências da expansão, mas ao mesmo tempo não tem “muita convicção” em aceitar que o universo era cada vez mais “concentrado” conforme regressamos no tempo, o que é uma posição curiosa.
“A teoria do big-bang sempre me pareceu uma loucura completa, pois não consigo aceitar a idéia de um universo incomensurável como o que conhecemos ter nascido de um átomo primordial, de repente, sem causa.”
Novamente, o erro de associar uma causa para o universo exclusivamente quando tratamos da teoria do Big Bang.
“Depois de resistir tantos anos, Einstein e grande parte da intelligentsia científica capitularam ante a prepóstera teoria do big-bang, por influência de ninguém menos que George Lemaître, um monge arrivista a serviço do obscurantismo religioso.”
Porque essa era a única teoria capaz de explicar o “absurdo” de um universo em expansão. Independentemente da filiação religiosa de Lemaître, ele propôs uma solução a um problema científico. Sem ela, o que faríamos para explicar a radiação cósmica de fundo, por exemplo?
“Guth sustentou que o universo surgiu de um quantuum vauum, sem causa (!!!). A existência de um criador, ninguém menos que Deus, é implícita. Que me perdoem os cientistas. Isto me parece um concurso de doidos. Onde fica o bom-senso?”
Eu o perdôo. Realmente, a existência de um criador deve ser tão implícita que eu não tinha me dado conta – e continuo ateu, apesar dessa revelação. Para ilustrar por que a conclusão acima não procede, vou entrar um pouco na física de partículas. Vamos contemplar a reação abaixo:

p + p = p + p + p0

Dois prótons geram dois prótons mais um píon. O píon é formado por um par quark-antiquark u. Bem, Deus deve estar nessa jogada, pois permitiu que duas partículas surgissem... do nada! (Esse nada tem nome: força forte.) Mas não é preciso ir tão longe. Se a teoria do Big Bang é errônea, de onde surgiu o universo? Ele não tem uma causa? O debatedor B insiste em colocar sobre o Big Bang uma culpa que este não carrega. A “causação” não é exclusividade dessa teoria.

“O famoso Stephen Hawing, professor de matemática da cadeira Lucasiana da Universidade de Cambridge (abrilhantada, no passado, por Newton), desde 1979, também caiu na armadilha e criou brilhantes equações para demonstrar que o universo nasceu em um momento de "singularidade" (uma palavra moderna para "milagre"). Segundo esta teoria, no momento da criação as leis químicas e físicas não prevaleceram.”
Dois erros em seqüência, que mais me parecem floreio retórico do que falta de informação (isso é o que eu penso, e posso estar enganado). Uma singularidade é um ponto no espaço-tempo com densidade de massa infinita. Num ponto como esse, as leis físicas que conhecemos não são aplicáveis. Vou repetir: as leis físicas que conhecemos. Entre várias outras coisas, não temos uma teoria da gravitação quântica, e sabemos que em determinadas situações precisamos de uma teoria assim para trabalhar. Silenciar quando não sabemos o que dizer não é assumir milagres, mas é não correr o risco de falar bobagem.
“Ultimamente, até leigos citam a teoria do big-bang como uma justificativa para acreditar em Deus. Se o mundo surgiu do nada, que havia antes? Aquilo que foi criado tem que ter um criador.”
Mais uma vez chamo a atenção do leitor para esse fato: o mundo “surgir do nada” não é uma característica do Big Bang, e o problema irá continuar, mesmo que eventualmente essa teoria se mostrar errônea. A lógica do trecho acima, dependente dessa premissa, não procede. E se leigos citam a teoria do Big Bang para justificar sua fé, é porque pensam com essa mesma lógica errônea. A própria mecânica quântica é usada até por bruxos, o que não quer dizer que a teoria tenha sido proposta por bruxos ou tenha como objetivo incentivar a bruxaria. Cabe aos bruxos mostrar a – improvável – relação entre suas práticas e a mecânica quântica.
“O universo em expansão é fora de questão. Contudo, descobriu-se recentemente que a velocidade com que as galáxias estão se afastando está aumentando em vez de diminuir. Esta descoberta aumenta o mistério. Um universo em expansão acelerada não é coerente com um modelo de um universo em explosão, tanto mais que se supunha que a expansão estaria desacelerando.”
O debatedor B desconsidera uma enxurrada de dados astrofísicos que estão de acordo com o Big Bang – os quais mencionei na Introdução – e se agarra em uma que, ele supõe, dá suporte às suas idéias. “Descobriu-se” é meio forte demais, eu diria. De qualquer forma, a constante cosmológica ser nula ou não nada tem a ver com o universo ter início numa singularidade. Se supunha que ele estaria desacelerando, e pode-se trabalhar com o contrário, se as observações mostrarem isso.
“Acreditar que o universo teve um começo é equivalente a acreditar que ele teve um criador - DEUS! Portanto, a essência do teoria do big-bang é FÉ, ou seja, religião!”
A teoria do Big Bang não implica em um criador, e a essência desta teoria são as observações, e não a religião. Além disso, realmente não vejo no que a teoria do Big Bang ajuda a tornar aceitável a cosmologia bíblica, como diz o debatedor B; os disparates astronômicos ali contidos vão bem mais longe do que um “no princípio Deus criou os céus e a terra...”
“Não tenho a pretensão de saber se, e quando, o universo foi criado. Ninguém sabe. A idéia de que tudo tem que ter um começo pertence à nossa dimensão humana. Não ao universo.”
Eu tenho a pretensão de saber como se passou a história do universo. A idéia de que tudo tem que ter um começo é humana... mas o mesmo não se aplica à idéia de que tudo o que tem um começo tem que ter um criador?
“Não hesito em afirmar que acreditar que o mundo foi criado do nada, de repente, é um endosso à cosmologia bíblica. Penso que uma pessoa racional não pode aceitar a fraude do big-bang. Dada a impossibilidade de determinar se e quando o universo foi criado, prefiro trabalhar com a hipótese de que devem existir muitos universos, além do universo visível que conhecemos e de que eles são infinitos em tempo, espaço e tamanho, pois imaginar limites é impossível.”
Mas a ciência não deve refletir o que preferimos acreditar. Se assim fosse, cada um teria a sua ciência, adaptada a afagar os preconceitos e desejos do seu dono. A dificuldade – e não impossibilidade – de determinar a origem do universo e seu desenvolvimento subseqüente é um estímulo a continuarmos trabalhando, e chegando cada vez mais perto da verdade. E o veredicto final de nossas idéias é sempre dado pela observação. O universo é indiferente ao que gostaríamos que ele fosse. O que o torna bem mais emocionante.

Resumindo meus comentários, a Introdução do debatedor B não apresenta problemas de sustentação observacional do Big Bang, se baseando na alegação de que a teoria é um mero fruto da “sedução” sofrida pelos cientistas pela cosmologia bíblica. Em primeiro lugar, não vejo no que a teoria do Big Bang ajuda a salvar o Gênesis bíblico; e em segundo, mesmo que o quadro do Big Bang fosse realmente descrito pela bíblia, isso seria irrelevante. Ela também diz que o Sol é maior do que a Lua, e nem por isso devemos pensar o contrário, pois tudo indica que ele realmente é maior. Não se faz ciência com “verdades reveladas”.

Você considera a teoria do Big Bang satisfatória
para explicar a origem e a evolução do Universo?

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