Debate Publicado: 12/06/2002
Atualizado: 12/06/2002
BIG BANG: 1a RESPOSTA DO DEBATEDOR B PARA A 1a RESPOSTA DO DEBATEDOR A

de Huáscar do Valle


Em primeiro lugar quero cumprimentar a belíssima introdução de meu debatedor e de sua contestação quase totalmente honesta. Texto muito claro, muito bem fundamentado, demonstrando profundo conhecimento da versão ortodoxa sobre o início do universo por meio de uma expansão apelidada de Big Bang, aproveitando-se de uma expressão, em tom de zombaria, do grande astrônomo Fred Hoyle.

(Em passant, Fred Hoyle, um dos mais influentes e respeitados astrônomos do século passado, que, como muitos outros astrônomos, jamais aceitou a teoria do big-bang, foi um dos primeiros a aplicar a teoria da relatividade à física moderna e à cosmologia, precisou a idade e temperatura das estrelas, previu a existência de objetos quase estelares e fez contribuições valiosas para explicar como elementos mais pesados são formados, dentro das estrelas, em elementos mais pesados). Quero notar que fiquei emocionado com o perdão que me foi concedido algures no texto. Ignorava que meu debatedor, além de astrofísico, fosse também padre, com o poder de absolver eventuais pecados. De qualquer maneira, confesso que cheguei às lágrimas perante tão tocante manifestação de generosidade, espírito humanitário e compreensão.

Apresentarei meus comentários em formatação normal e em vermelho com tabulação os tópicos de Rembold dos quais pretendo discordar ou comentar.

A diferença entre a abordagem do debatedor B e a minha é notória.
Claro! Por isto o debate deve ser interessante. Se eu fosse um físico ortodoxo, caber-me-ia apenas falar amém. No entanto, considero-me um Teólogo Profano, ou seja, um ateísta que estuda o fenômeno Deus e sua relação com o homem. Interessa-me particularmente explicar como pessoas cultas e inteligentes podem acreditar em bobagens como Deus, paraíso, alma imortal, criacionismo (incluindo o big bang), etc

Se alguém quiser conhecer minha teoria profana posso mandar por e-mail, graciosamente, é claro, meu livro A Treatise on Profane Religion. Ele foi publicado em português, mas não o tenho no computador.

Como efeito colateral de minha linha de estudo procuro também explicar como pessoas cultas e inteligentes podem ter a pretensão de explicar algo que aconteceu entre dez ou vinte bilhões de anos atrás. Permita-me repetir a citação de Joseph Silk:

"Em muitos respeitos, o big-bang é, para a moderna cosmologia, o que a mitologia era para os antigos. Acreditar que nós compreendemos os primeiros momentos do universo, os primeiros micro-segundos do tempo cósmico, requer uma fé imensa na busca dos cientistas para a última união das forças da natureza, porque evidência direta definitivamente não existe".
Entretanto, a principal diferença de abordagem é que penso que a atitude mais científica consiste em dizer NÃO SEI. Só as religiões e as ideologias têm certezas. A ciência sempre tem dúvidas. A verdade de ontem pode ser uma bobagem hoje, como a famosa teoria flogística do passado. Se me permitem entrar no terreno da futurologia, eu diria que daqui há algumas décadas estaremos rindo de muitas teorias hoje consideradas verdades científicas.

A impressão que tenho é existe uma corrida entre os cientistas para ver quem "acerta primeiro". Há pouco tempo cientistas pouco honestos, com a preocupação de serem os primeiros, anunciaram que descobriram como fazer a fusão nuclear a frio. Foi um blefe monumental. A lamentável história do homem de Piltdown também mostra que há fraudes vergonhosas. Para mim o criacionismo implícito na teoria do big bang é outra fraude (ou mitologia, como colocou Silk), para tentar convalidar a cosmologia bíblica, e não tenho motivos para mudar de idéia. Ultimamente tem surgido idéias tão esdrúxulas como buracos de minhoca, super-cordas e não sei o que mais. É a competição para aparecer. Cientistas também são humanos, com as mesmas fraquezas que nós, leigos.

Infelizmente, vários erros de compreensão tanto da teoria do Big Bang quanto de outros tópicos de física permeiam sua Introdução.
É uma questão subjetiva. Ele acha que eu cometi erros de compreensão. Eu acho que foi ele. Todo debate é assim, portanto não é um argumento e sim uma obviedade. Trata-se de uma afirmação gratuita, que eu rejeito.
Se o universo fosse estático, as estrelas e galáxias, que são sistemas que evoluem no tempo, continuariam tendo uma idade associada. De onde veio a matéria que formou estes sistemas? Do nada? Se foi "de repente" ou não, isso não altera sua "irracionalidade". O debatedor B associa erroneamente ao Big Bang uma suposta irracionalidade que é característica da simples existência do universo tal como o conhecemos.
Não penso que a matéria de que são feitas as estrelas tenham uma idade associada. O modelo tomístico de que tudo que foi criado tem que ter um criador é um sofisma e está no cerne da bem sucedida armadilha de Lemaître que conseguiu infiltrar o criacionismo bíblico no establishment científico.

Da premissa de São Tomás eu só tiro uma conclusão inversa: se tudo que foi criado tem que ter um criador, o universo não foi criado, sempre existiu. É apenas uma conjectura, pois, perante o universo, somos mais humildes que um pequeno grão de areia a nove mil metros de profundidade, na Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico. Como poderia este grão de areia imaginar a grandeza do oceano, da terra, da Via Láctea, do universo?

Como já disse, acho impossível imaginar um início, exceto admitindo um Deus (esta, a armadilha). Mesmo assim, teríamos que investigar a origem de Deus, o que seria muito mais difícil.

Além disso, a expressão temporal "de repente" não tem sentido algum ao se referir ao Big Bang.
Discordo completamente: A teoria ortodoxa deixa bem claro que foi uma explosão, descrita em milisegundos (!!!). Foi mais que de repente. Para mim isto é totalmente irracional. Admito que este universo observável (que pode ser apenas um dos universos existentes) pode ter sido menor, antes da fase de expansão, mas não posso aceitar que as 10 a 50 bilhões de galáxias (cada uma com bilhões de estrelas e trilhões de outros astros) calculadas pelo observatório Hubble tenham estado concentradas em um objeto menor que um átomo. Entender como pessoas inteligentes podem acreditar nesta irracionalidade é um dos mistérios que procuro decifrar.
A adequação de uma teoria às observações - coisa na qual o Big Bang se sai muito bem - é que dá sustentação à mesma.
Sem dúvida a teoria do big bang é uma adequação (apressada, em minha opinião) de uma teoria às observações. Logo, não é uma ciência. É uma adequação, em minha opinião, uma adequação fantasiosa, mais para Arthur Clark que para Einstein.
Não vejo por que as coisas mudariam tanto se a escala do universo fosse ínfima ou não. Observamos que o universo está em expansão.
O fato de que está em expansão certamente nos dá o direito de rodar o filme de diante para trás e concluir que tantos zilhões de anos atrás ele estava mais concentrado. Mas não nos dá o direito de supor que, por uma singularidade (denominação modernosa para "milagre") ele estivesse concentrado em uma partícula menor que um átomo, ou mesmo do tamanho de uma bola de tênis. Vá lá, do tamanho de uma bola de futebol. Por mais que os astrofísicos façam equações esotéricas para provar esta fato, continuo achando esta noção uma demonstração de um dos pensamentos famoso de Hitler: "as pessoas têm maior facilidade em acreditar em uma grande mentira que em uma pequena mentira."

Além disto as últimas observações sugerem que o universo estaria em expansão acelerada, o que não facilita em nada a teoria do big bang.

Novamente, o erro de associar uma causa para o universo exclusivamente quando tratamos da teoria do Big Bang. Sob meu ponto de vista, mais filosófico, não posso isolar o tratamento da teoria do big bang de uma causa.

Suponhamos que o universo começou de uma explosão de um "átomo primordial", como sugeriu Lemaître. Imaginemos que este átomo primordial estivesse flutuando em um espaço infinito e vazio, sob os olhares vigilantes de Iavé. De repente explodiu e se transformou em bilhões de galáxias e trilhões de estrelas.
Isto é muito mais que science fiction. É um absurdo total e é até perturbador pensar nisso. Para aliviar esta perturbação temos que imaginar que no espaço vazio havia também Iavé, coçando suas vetustas barbas brancas, como o descreve Michelangelo e também Gustav Doré. De repente Iavé, em um gesto do que haveria de se arrepender, resolveu criar o mundo, depois cria o homem, depois afoga o mundo num dilúvio, depois manda seu filho morrer para redimir os pecados da humanidade e promete mandar o filho de novo, na parousia.

Milhões de pessoas acreditam nesta bobagem. E milhares acreditam no começo do universo em um big bang. Qual a diferença?

Como disse Joseph Silk, é uma questão de fé, da qual não compartilho. O começo do universo é um falso problema. Por que ele haveria de ter um começo? Só existe uma resposta: para dar credibilidade à cosmologia bíblica. Eu penso assim e asseguro que o Papa João Paulo II concorda comigo. Tanto assim que recompensou Stephen Hawking, o autor da tese da singularidade, com uma comenda.

Porque essa era a única teoria capaz de explicar o "absurdo" de um universo em expansão.
Prefiro nenhuma teoria que uma teoria irracional. Usando uma expressão jurídica (do CPC): "da narração dos fatos não decorre a conclusão". O fato é o universo em expansão. Podemos concluir que ele era menor. Concluir que o universo cabia em um átomo primordial revela a intenção de adaptar um fato a uma crença criacionista, incompatível com uma ciência séria, data venia.
Eu o perdôo.
Você me perdoa? O que é isto?
Se a teoria do Big Bang é errônea, de onde surgiu o universo? Ele não tem uma causa? O debatedor B insiste em colocar sobre o Big Bang uma culpa que este não carrega. A "causação" não é exclusividade dessa teoria.
Somos insignificantes demais para responder a esta pergunta, no entanto eu trabalho com a hipótese que o universo sempre existiu, pois não consigo sequer imaginar limites, nem para o tempo nem para o espaço.
Uma singularidade é um ponto no espaço-tempo com densidade de massa infinita. Num ponto como esse, as leis físicas que conhecemos não são aplicáveis.
A singularidade é uma explicação modernosa para milagre, obviamente. Veja o que Aurélio diz sobre "milagre" (itálico meu):

  1. Feito ou ocorrência extraordinária, que não se explica pelas leis da natureza.
  2. Acontecimento admirável, espantoso: os milagres da Natureza; os milagres da ciência.
  3. Portento, prodígio, maravilha: As pirâmides do Egito são milagres arquitetônicos.
  4. Ocorrência que produz admiração ou surpresa: É um milagre vê-lo aqui.
  5. Rel. Qualquer manifestação da presença ativa de Deus na história humana.
  6. Rel. Sinal dessa presença, caracterizado sobretudo por uma alteração repentina e insólita dos determinismos naturais.
Silenciar quando não sabemos o que dizer não é assumir milagres, mas é não correr o risco de falar bobagem.
Concordo plenamente. Prefiro dizer "não sei" a dizer bobagens, como a cosmologia criacionista do big bang.
... o mundo "surgir do nada" não é uma característica do Big Bang.
Claro que é!
O debatedor B desconsidera uma enxurrada de dados astrofísicos que estão de acordo com o Big Bang - os quais mencionei na Introdução - e se agarra em uma que, ele supõe, dá suporte às suas idéias.
Da mesma maneira que desprezo enxurradas de palavras dos Upanishades, do Bhagvad Gita, do Zend Avesta, da Bíblia, do Corão, e agarro-me em meu ateísmo e meu materialismo.
A teoria do Big Bang não implica em um criador...
Mantenho minha opinião. Eu e São Tomás de Aquino. Aquilo que foi criado tem que ter um criador. No entanto, ao contrário de São Tomás, se eu não acredito em um criador, não posso acreditar na criação. Que São Tomás me perdoe. Acreditar em uma criação "sem causa", como queria Lemaître, só me causa risos...

Imaginemos o nada! Sem Deus. Sem espaço. Sem tempo. De repente, há uma explosão e surge o universo. Sem causa! Isto é brincadeira...

... a essência desta teoria são as observações, e não a religião.
Negativo. Ninguém observou o big bang. É uma das poucas coisas das quais tenho certeza. A essência desta teoria são ilações de observações.
... mas o mesmo (a dimensão humana) não se aplica à idéia de que tudo o que tem um começo tem que ter um criador?
Possivelmente sim, fato que não nega sua validade. Por mais que me esforce, não consigo imaginar a geração espontânea. Precisamos de um Pasteur astrofísico para desmoralizar esta versão cósmica da geração espontânea.
Mas a ciência não deve refletir o que preferimos acreditar.
Concordo. No entanto, é o que está acontecendo. Cientistas são seres humanos, sujeitos a fraquezas, superstições e crenças.
... não vejo no que a teoria do Big Bang ajuda a salvar o Gênesis bíblico.
Sugiro ler novamente meu artigo. E lembre-se:

A teoria do big bang foi criada por um monge, a pedido de um papa, e mereceu uma comenda, de outro papa. É totalmente irracional, tratando de assuntos fantasiosos que teriam acontecido bilhões de anos atrás.

Coloque este fato dentro do quadro do debate entre o criacionismo e a evolução para explicar as espécies, e os mistérios se esvaem. É apenas um round ganho pelo criacionismo católico. Por enquanto.

Fraternalmente,

HUÁSCAR TERRA DO VALLE

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