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de Peter Atkins
O desapaixonado olhar fixo da ciência examina questões publicamente, troca informações abertamente, discute pontos delicados objetivamente, e constrói uma rede de idéias e teorias independentes que progressivamente expõem o complexo como um resultado do simples. O brilho sentimental dirigido para si dentro da religião reflete as questões de forma privada, troca informações com certeza e afirmação, discute pontos delicados com guerra, terror e coerção, e constrói uma rede de idéias conflitantes que ocultam a ignorância por debaixo de uma capa de prosa elaborada, porém vazia. A ciência revela onde a religião oculta. Onde a religião dá a entender que explica, na verdade recorre à tautologia. Afirmar que "Deus fez isso" não é nada mais do que uma admissão de ignorância vestida enganadoramente como uma explicação. A ciência, com seu corpo de informação publicamente acessível, e seus argumentos abertos e escrutinos, pode levar o espanto a uma compreensão inteira do mundo físico. (Claro, eu devo argumentar que esse é o mundo inteiro.) A ciência respeita o poder do intelecto humano; a religião o deprecia. A ciência nos dá o prospecto da compreensão total, ao continuamente mostrar que, dado tempo, não há um só aspecto do mundo que esteja fechado ao seu escrutínio e explicação. A religião encantadoramente faz parecer que os cérebros humanos são muito débeis para alcançar a compreensão total. Porém, a ciência está progressivamente avançando em direção do conhecimento completo, deixando as religiões se debatendo no seu próprio velório. A ciência é um trabalho duro, mas as respostas que ela entalha da pedra da ignorância são dignas de confiança. A religião é especulação de sofá bem adaptada à cérebros adiposos. A ciência não pode responder perguntas profundas com apenas palavras: ela retira do suor de incontáveis experimentos e as brigas dos teóricos para fazer os dados terem sentido. A religião pode loucamente especular, e portanto inutilmente, com flácida opinião pessoal e nunca ser posta à teste, exceto talvez além do túmulo. Não existe, claro, um além-túmulo exceto nas mentes dos que não conseguem adaptar-se com o prospecto de sua própria aniquilação. A ciência procura pela sublinhada simplicidade da qual brota a sua espantosa complexidade que nos rodeia e nos delicia. A ciência está pescando observações e procurando a simplicidade máxima da existência. A verdade máxima será de espantosa simplicidade; rastrear essa simplicidade até o mundo dos fenômenos pode muito bem se mostrar mais exigente do que a exposição da simplicidade. Mas essa dificuldade não significará que a descoberta da simplicidade é uma fundação falsa. A religião procura pela embaraçosa complexidade - Deus - que, de alguma forma, e de um modo intrinsecamente inescrutável, dá conta de tudo o que existe. A explicação de uma entidade menor em termos de uma maior é uma perversão do que ela tenta explicar. Mas o ponto crucial do argumento não é de todo a superioridade da ciência como um modelo de compreensão do mundo físico: é se esse mundo físico é ou não o mundo todo, e se há ou não qualquer aspecto da existência que necessariamente fica fora do reino da ciência. Se há, então a ciência não pode clamar ser algo mais do que um contribuinte parcial para a compreensão global. Se não há, então a ciência pelo menos é potencialmente capaz de prover a compreensão completa de tudo o que existe. Aqui, entretanto, nós devemos ser muito cuidadosos ao distinguir entre perguntas que foram inventadas e perguntas que pelo menos parecem ser reais. Apenas as últimas são prováveis de levar à compreensão real do mundo; as primeiras meramente expõem a condição psicológica dos indivíduos e sociedades que as inventaram. Eu acho que, na minha visão, a maioria das perguntas que as religiões se valem são do primeiro tipo, vazias. Então, onde quer que pareça perfeitamente legítimo se fazer a pergunta, Qual é o propósito deste universo?, de fato a pergunta é uma transposição da vida diária. Não há a necessidade deste universo ter um propósito: ele pode ser completamente uma entidade acidental sem propósito. Porque a religião implicitamente afirma que a ciência não pode tornar divino o propósito do universo, os religiosos concluem que a caixa da ciência está incompleta. Isso, claro, é ilógico, porque a religião não pode ter a permissão de inventar arcos ilusórios para seus adversários saltarem: arcos, sim; arcos ilusórios, não. Existem diversos exemplos da invenção desses arcos, incluindo a vida após a morte (nem um pouquinho de evidência, se o desejo estiver excluído), a alma (ditto), e a existência do mal em um mundo criado por um Deus infinitamente amoroso (um problema trivial se não há tal Deus). Em algum lugar na linha divisória entre o inventado e o real existe a pergunta do espírito humano e suas associadas qualidades, tais como o amor e a apreciação estética. Eu garanto que essas qualidades, ou pelo menos suas appurtenances fisiológicas, existem. A pergunta, então, é se a ciência pode ou não elucidá-las. Não há evidências que ela não possa, e não é irracional supor que ela pode sem recorrer à importações sobrenaturais. O amor é uma emoção complexa, envolvendo respostas geneticamente controladas, excreções hormonais, e reflexões e considerações intelectuais. A ciência pode elucidar tal condição, se bem que ela provavelmente nunca dará a entender que é capaz de predizer se alguém vai ou não se apaixonar por outra pessoa (se bem que algumas agências de encontros tem algum sucesso nesse campo). Misterioso e complexo o amor pode ser, mas ele certamente deixa aberto o prospecto de elucidação. A estética, também, não é inconcebivelmente compreensível. Atos de valor, heroísmo, criatividade, grandeza, e criminalidade, todos estão dentro do domínio da psicologia, e a psicologia é pelo menos um graveto, se não um ramo inteiro, da ciência. Complexo, concordo; imprevisível, talvez; mas não fechados à ciência. Existe, claro, uma verdadeira pergunta grande, cosmicamente grande: De onde é que tudo veio? Aqui nós vemos mais definidamente a distinção entre os métodos. A religião adota a resposta adiposa: Deus fez isso - por razões que permanecerão para sempre inescrutáveis até que, talvez, nós fiquemos diante Dele (ou seja, até que nós estejamos mortos). Tal resposta, enquanto intrinsecamente absurda e má em suas implicações, parece satisfazer àqueles a quem Deus é uma parte significante de suas existências. A ciência, em contraste, está trabalhando sem parar e arduamente por uma explicação compreensível. Testemunhe o progresso extraordinário que foi feito desde o desenvolvimento da relatividade geral no início do século vinte. Embora difícil, e ainda incompleto, não há razão para acreditar que o grande problema, como o universo surgiu, e tudo o que existe, não será resolvido; nós podemos seguramente presumir que a solução será compreensível às mentes humanas. Além disso, que a compreensão será alcançada desse lado do túmulo. Resumindo, onde a religião despreza o poder da compreensão humana, a ciência, a nobre caçadora, a respeita.
Peter Atkins é Professor de Química na Universidade de Oxford e um Fellow do Lincoln College. Seus livros incluem Criação Revisitada (W. H. Freeman, 1992) Esse artigo é da revista Free Inquiry, Volume 18, Número 2. Comentários
Waldon Volpiceli - waldon@zipmail.com.br - Na verdade parece que o ser humano que quer mesmo é religião, mesmo as seculares. Lembremos de duas igrejas do mundo: o comunismo e o neo-liberalismo. Ambas mostraram suas falhas (o liberalismo em 1929 e o comunismo em 1989), mas há milhões hoje inclusive de intelectuais que crêem nestas duas "fés". Roberto Campos, Margareth Tatcher, Reagan do lado dos liberais e Mao Tsé Tung, Prestes e etc... do lado dos comunistas. E estes dois lados podem até entrar em guerras pelas suas crenças, bem o estilo das religiões. Acreditar é realmente mais fácil que pensar.
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