Existe muito debate na net. Infelizmente, muito dele é de baixa qualidade. O propósito deste documento é explicar o básico sobre raciocínio lógico, e esperançosamente melhorar a qualidade geral do debate.
O Dicionário Conciso Oxford de Inglês define lógica como "a ciência do raciocínio, prova, pensamento ou inferência". A lógica irá deixar você analisar um argumento ou um pedaço de raciocínio, e deduzir onde é provável de ele ser correto ou não. Você não precisa saber lógica para argumentar, claro; mas se você sabe pelo menos um pouco, você vai achar mais fácil para apontar argumentos inválidos.
Existem muitos tipos de lógica, como lógica emaranhada e lógica construtiva; elas têm regras diferentes, e diferentes forças e fraquezas. Esse documento discute a lógica Booleana simples, porque é comum e relativamente simples de entender. Quando pessoas falam sobre algo sendo "lógico", elas geralmente querem dizer o tipo de lógica descrita aqui.
O Que A Lógica Não É
É válido mencionar algumas coisas que a lógica não é.
Primeiramente, raciocínio lógico não é uma lei absoluta que governa o universo. Muitas vezes no passado, pessoas concluíram que porque algo é logicamente impossível (dada a ciência do dia), deve ser impossível, período. Uma vez também era acreditado que a geometria Euclidiana era uma lei universal; ela é, apesar de tudo, logicamente consistente. Novamente, nós agora sabemos que as regras da geometria Euclidiana não são universais.
Segundo, lógica não é um grupo de regras que governam o comportamento humano. Os humanos podem ter metas logicamente conflitantes. Por exemplo:
John deseja falar com quem quer que esteja a cargo.
A pessoa a cargo é Steve
Portanto João deseja falar com Steve.
Infelizmente, John pode ter um objetivo conflitante de evitar Steve, querendo dizer que a resposta racional pode ser inaplicável na vida real.
Esse documento apenas explica como usar lógica; você deve decidir se a lógica é a ferramenta certa para o trabalho. Existem outros meios de comunicar, discutir e debater.
Argumentos
Um argumento é, citando a esquete de Monty Python, "uma série conectada de afirmações para estabelecer uma proposição definida".
Existem muitos tipos de argumentos; nós iremos discutir o argumento dedutivo. Argumentos dedutivos são geralmente vistos como os mais precisos e mais persuasivos; eles provêm prova conclusiva para suas conclusões, e são ou válidos ou inválidos.
Argumentos dedutivos têm três estágios: premissas, inferência, e conclusão. Entretanto, antes de nós podermos considerar estes estágios em detalhe, nós precisamos discutir os tijolos de um argumento dedutivo: proposições.
Proposições
Uma proposição é uma afirmação que é ou verdadeira ou falsa. A proposição é o significado da afirmação, não o arranjo preciso de palavras usadas para exprimir esse significado.
Por exemplo, "Existe um número par primo maior que dois" é uma proposição. (Uma falsa, nesse caso.) "Um número par primo maior que dois existe" é a mesma proposição, refraseada.
Infelizmente, é muito fácil mudar intencionalmente o significado de uma afirmação por refraseá-la. É geralmente mais seguro considerar o fraseamento de uma proposição como significante.
É possível usar lingüisticas formais para analisar e refrasear uma afirmação sem mudar seu significado, mas como fazer isso está fora do âmbito desse documento.
Premissas
Um argumento dedutivo sempre requer um numero de suposições centrais. Essas são chamadas premissas, e são as suposições onde o argumento é construído; ou para olhar de outra forma, as razões para aceitar o argumento. Premissas são apenas premissas no contexto de um argumento particular; elas podem ser conclusões em outros argumentos, por exemplo.
Você deve sempre apresentar as premissas de um argumento explicitamente; esse é o princípio de Audiatur Est Altera Pars. Falhando em apresentar suas suposições é freqüentemente visto como suspeito, e irá reduzir a aceitação de seu argumento.
As premissas de um argumento são muitas vezes introduzidas com palavras como "Assuma...", "Desde...", "Obviamente..." e "Porque...". É uma boa idéia fazer seu oponente concordar com as premissas de seu argumento antes de proceder adiante.
A palavra "óbvio" é freqüentemente vista com suspeita. É ocasionalmente usada para persuadir pessoas a aceitarem falsas afirmações, ao invés de admitir que elas não entendem porque algo é "óbvio". Então não tenha medo de questionar afirmações que pessoas dizer ser "óbvias" - quando você ouviu a explicação você pode sempre dizer algo como "Você está certo, agora que eu pensei sobre isso desse jeito, isso é óbvio."
Inferência
Uma vez que as premissas combinam, o argumento procede via um processo passo-a-passo chamado inferência.
Na inferência, você começa com uma ou mais proposições que foram aceitas, você então usa essas proposições para chegar a uma nova proposição. Se a inferência é válida, essa proposição deve ser aceita. Você pode usar a nova proposição para inferências mais tarde.
Então inicialmente, você pode apenas inferir coisas das premissas do argumento. Mas conforme o argumento prossegue, o número de afirmações disponíveis para inferência aumenta.
Existem vários tipos de inferências válidas - e também alguns tipos inválidos, que nós iremos olhar depois nesse documento. Passos da inferência são muitas vezes identificados por frases como "portanto..." ou "...implica que..."
Conclusão
Esperançosamente você ira chegar a uma proposição que é a conclusão do argumento - o resultado que você está tentando provar. A conclusão é o resultado do passo final da inferência. É uma conclusão apenas no contexto de um argumento particular, poderia ser uma premissa ou suposição em outro argumento.
A conclusão é dita para ser afirmada na base das premissas, e a inferência vinda delas. Esse é um ponto sutil que merece explicações mais adiante.
Implicação Em Detalhe
Claramente você pode construir um argumento válido de premissas verdadeiras, e chegar a uma conclusão verdadeira. Você também pode construir um argumento válido de premissas falsas, e chegar a uma conclusão falsa.
A parte complicada é que você pode começar com falsas premissas, proceder via inferências válidas, e alcançar uma conclusão verdadeira. Por exemplo:
Premissa: Todos os peixes vivem no oceano. (falso)
Conclusão: Portanto lontras marinhas vivem no oceano. (verdadeiro)
Há uma coisa que você não pode fazer, no entanto: começar de premissas verdadeiras, proceder via inferência dedutiva válida, e alcançar uma conclusão falsa.
Aqui há um exemplo de um argumento que é válido, e que pode ou não ser sensato:
Premissa: Todos os eventos têm uma causa
Premissa: O universo teve um começo
Premissa: Todos os começos envolvem um evento
Inferência: Isso implica que o começo do universo envolveu um evento
Inferência: Portanto o começo do universo teve uma causa
Conclusão: O universo teve uma causa
A proposição na linha 4 é inferida das linhas 2 e 3. A linha 1 é então usada, com a proposição derivada na linha 4, para inferir uma nova proposição na linha 5. O resultado da inferência na linha 5 é então reafirmado (em forma ligeiramente simplificada) como a conclusão.
Reconhecendo Argumentos
Reconhecer um argumento é mais difícil que reconhecer premissas ou uma conclusão. Muitas pessoas banham seus textos com afirmações, sem nunca produzir alguma coisa que você possa racionalmente chamar de um argumento.
Algumas vezes argumentos não seguem o padrão descrito acima. Por exemplo, pessoas podem afirmar suas conclusões primeiro, e então justificá-las depois. Isso é válido, mas pode ser um pouco confuso.
Para tornar a situação pior, algumas afirmações parecem com argumentos mas não são. Por exemplo:
"Se a bíblia é precisa, jesus deve ou ter sido insano, um mentiroso maldoso, ou o filho de deus."
Isso não é um argumento, isso é uma afirmação condicional. Isso não apresenta as premissas necessárias para suportar sua conclusão, e mesmo que você adicione essas afirmações isso sofre de um número de outros defeitos que são descritos em mais detalhes no documento Argumentos Ateus.
Um argumento também não é o mesmo que uma explicação. Suponha que você está tentando argumentar que Albert Einstein acreditou em deus, e diga:
"Einstein fez sua famosa afirmação "Deus não joga dados." por causa de sua crença em deus."
Isso pode parecer um argumento relevante, mas não é; isso é uma explicação da afirmação de Einstein. Para ver isso, lembre que uma afirmação da forma "X porque Y" pode ser refraseada como uma afirmação equivalente, da forma "Y portanto X". Fazendo isso nos dá:
"Einstein acreditou em deus, portanto ele fez sua famosa afirmação "Deus não joga dados."."
Agora está claro que a afirmação, que pareceu com um argumento, está de fato assumindo o resultado que está supostamente sendo provado, a fim de explicar a citação de Einstein.
Além disso, Einstein não acreditou em um deus pessoal preocupado com negócios humanos - novamente, veja o documento Argumentos Ateus.
Leitura Posterior
Nós traçamos o contorno da estrutura de um argumento dedutivo sensato, das premissas até a conclusão. Mas no final, a conclusão de um argumento lógico válido é apenas tão convincente quanto as premissas de onde você começou. Lógica em si mesma não resolve o problema de verificar as afirmações básicas que suportam argumentos; para isso, nós precisamos de outra ferramenta.
O significado dominante de verificar afirmações básicas é a investigação da ciência. Entretanto, a filosofia da ciência e o método científico são tópicos imensos que estão um pouco além do escopo desse documento.
Falácias
Existe um numero de armadilhas para se evitar quando se está construindo um argumento dedutivo; elas são conhecidas como falácias. No português diário, nos referimos aos muitos tipos de crenças erradas como falácias; mas em lógica, o termo têm um significado mais específico: uma falácia é um defeito técnico que faz um argumento ser insensato ou inválido.
(Note que você pode criticar mais que apenas a sensatez de um argumento. Argumentos são quase sempre apresentados com algum propósito específico em mente - e a intenção de um argumento pode também ser válida de crítica.)
Argumentos que contém falácias são descritos como falaciosos. Eles freqüentemente parecem válidos e convincentes; algumas vezes apenas inspeção de perto revela-se o defeito lógico.
Abaixo está uma lista de algumas falácias comuns, e também alguns planos retóricos muitas vezes usados no debate. A lista não é intencionada para ser exaustiva; a esperança é que se você aprender a reconhecer algumas das falácias mais comuns, você será capaz de evitar ser enganado por elas.
"Se o universo tivesse sido criado por um ser sobrenatural, nós iríamos ver ordem e organização em todo lugar. E nós vemos ordem, não aleatoriedade - então está claro que o universo teve um criador."
"Por milhares de anos cristãos acreditaram em jesus cristo. O cristianismo deve ser verdadeiro, para ter persistido tão longo mesmo na face de perseguição."
"A vasta maioria das pessoas nesse país acreditam que punição capital têm um perceptível efeito dissuasivo. Para sugerir que não têm na face de tanta evidência é ridículo."
"Tudo que eu estou dizendo é que milhares de pessoas acreditam no poder da pirâmide, então deve haver algo nisso."
Essa linha de argumento não é sempre completamente falsa; por exemplo, pode ser relevante referir-se a uma autoridade vastamente respeitada em um campo particular, se você está discutindo esse assunto. Por exemplo, nós podemos distinguir claramente entre:
"Hawking concluiu que os buracos negros desprendem radiação"
e
"Penrose concluiu que é impossível construir um computador inteligente"
Hawking é um físico e então nós podemos racionalmente esperar suas opiniões sobre radiação de buracos negros como sendo informadas. Penrose é um matemático, então é questionável até onde ele é bem qualificado para falar no assunto de inteligência de máquinas.
A pergunta pressupõe uma resposta definida para outra pergunta que não foi nem mesmo perguntada. Esse truque é freqüentemente usado por advogados em examinação cruzada, quando eles perguntam questões como:
Essa falácia é o reverso da Falácia de Acidente. Ocorre quando você forma uma regra geral ao examinar apenas poucos casos específicos que não são representativos de todas as causas possíveis. Por exemplo:
"Jim Bakker foi um cristão insincero. Portanto todos os cristãos são insinceros."
Essa falácia é similar a Post Hoc Ergo Propter Hoc. A falácia é afirmar que por causa de dois eventos ocorrerem juntos, eles devem ser casualmente relacionados. É uma falácia porque ignora outros fatores que podem ser a(s) causa(s) dos eventos.
"Os níveis de alfabetização caíram constantemente desde o advento da televisão. Claramente ver televisão impede o aprendizado."
Note que essa falácia é diferente da Non Causa Pro Causa. Que têm a forma "A implica B, A é falso, portanto B é falso", onde A não implica de fato B. Aqui, o problema não é que a implicação é inválida; melhor dizendo é que a falsidade de A não permite-nos deduzir nada sobre B.
"Se o deus da bíblia aparecesse pra mim, pessoalmente, isso iria certamente provar que o cristianismo é verdade. Mas deus nunca apareceu pra mim, então a bíblia deve ser um trabalho de ficção."
Parabéns, Leo Vines, pela sua atitude de traduzir esse ensaio e publicá-lo na STR. Foi, para mim, de muito valor pessoal e educacional. Certamente recomendarei para pessoas de mesmo interesse intelectual.
O texto de vocês está ótimo! No entanto, me recordo que há um tempo atrás existia uma bibliografia sobre livros de lógica. Por que ela foi tirada? SE POSSÍVEL, gostaria de voltar a ter acesso a ela.
José Ronaldo de Morais - ronaldojm@tcu.gov.br - Distrito Federal, enviou em 07/11/2001
Só tenho adjetivos positivos para dizer sobre o texto. Vou fazer o concurso do Senado Federal e na parte de LÓGICA que vai cair o texto só tem ajudado. Mesmo não sendo um entendido profundo, a iniciativa de disponibilizar uma tradução do ensaio é bastante saudável. Obrigado, Ronaldo
Ana Paula Souza Fonseca - apaula@cdl.com.br - Bahia, enviou em 29/08/2001
Esta página é muito útil tanto para professores quanto para alunos. Deve ser divulgada nos sites de busca com mais detalhes, é muito difícil encontrarmos nestes sites algo sobre a matéria filosofia. Adorei este site e vou divulgá-lo a outros estudantes de filosofia de minha classe. Parabéns!
O que é difícil de entender é como, quando se é ateu, perante o desprezo de uma mulher, a miséria ou mesmo a morte de um ente querido, como se consegue aguentar o fardo e as mil angustias que a natureza humana trazem, se pode-se resolver tudo como Shakespeare disse, com um simples estilete?!
É compreensível que se dúvide.
Mas muita pretensão imaginar que algo possa estar fechado na sua cabeça e que ninguém possa emitir um opinião que revele algo ou acrescente.
Tudo só falacias.
Ivan Schüler - ischüler@uol.com.br - Rio Grande do Sul, enviou em 21/04/2001
Muito interessante esse esquema de falácias. Apenas uma dívida: Se eu vou ao médico e digo: meu corpo está doendo. Nada aparece nos exames, ninguém é capaz de sentir o meu corpo se não eu próprio. Então o médico poderia olhar para mim e dizer: Falácia! Você não está sentindo nada e suma daqui. Ou o médico deveria ter fé no paciente?
A coisa me parece muito mais complexa do que um jogo de falácias. Acho que temos um problema de escala. Não temos todas as ferramentas para "medirmos" todos os eventos que ocorrem no universo (por exemplo, no caso acima passaríamos a pessoa por todos os aparelhos disponíveis e não teríamos nenhuma evidência de dor). Me pergunto se as falácias não cairiam dentro de si mesmas.
Sua página é muito propícia para trabalharmos as falácias não formais em sala de aula, espero que persistam no intento.
Poria como sugestão: ampliar o tratamento por meio de exemplos contextuais maiores e teorização mais aprofundada, mesmo assim agradeço a colaboração no meu trabalho.
Com meus votos de estima e sucessos.
A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.