James Randi Publicado: 01/11/2000
Atualizado: 24/09/2001
É HORA DA CIÊNCIA ASSUMIR SUA POSIÇÃO NOVAMENTE

de James Randi


Sendo um investigador de alegações incomuns, estou acostumado a exemplos incríveis de pensamento medieval ainda no século vinte. E suspeito fortemente que isso continuará pelo terceiro milênio.

Em todo lugar encontramos um viés anti-científico e a crença no inacreditável, e o espectro é amplo. Juízes federais já consideraram a idéia de que demônios podem causar a ação de assassinos seriais. Pesquisadores cuidadosos crêem ter encontrado palavras-código ultra secretas nos discursos do ex-presidente George Bush quando reproduzidos de trás para frente, levando-os à conclusão de que o presidente e outros revelaram inconscientemente essas informações aos inimigos do país. Milhões de americanos acreditam que doenças causam bactérias - e não ao contrário - e eles estão convencidos de que a morte é uma aberração; eles são conhecidos como Cientistas Cristãos.

Mas os americanos certamente não estão sozinhos na sua credulidade. Na China, uma grande porcentagem das pessoas vai a hospitais de qi gong para diagnóstico e tratamento por um místico que não chega a tocá-los; ele somente mexe as mãos à sua volta. Mais incrível ainda: se o paciente não pode visitar um profissional, ele simplesmente envia pelo correio uma tira de papel com seu nome escrito e o terapeuta expede tanto o diagnóstico como a cura, uma dança exótica com as mãos e o corpo feita para "restabelecer o equilíbrio entre yin e yang", a qualquer distância. Nas Filipinas, todo ano milhares de pessoas se juntam para que os prestidigitadores locais aparentemente enfiem os dedos em seus corpos para remover tumores cancerosos. Os curandeiros enfiam a mão em suas contas bancárias também, de maneira bastante dramática.

Atualmente, a ciência alemã está ansiosa com sua empolgante descoberta dos "raios E", que se diz virem das profundezas da terra, causarem câncer, e não podem ser detectados por nenhum instrumento científico conhecido; felizmente, eles podem ser percebidos por um rabdomante com uma forquilha de salgueiro ou um pêndulo. Telespectadores russos cheios de confiança colocam garrafas d'água sobre seus televisores toda manhã para que um curandeiro possa "carregar" seu conteúdo com poder curativo via canal seis. Na Finlândia e na Suécia, as escolas particulares Rudolph Steiner, caras e credenciadas pelo governo, ensinam às crianças noções antroposóficas sobre montar horóscopos e acreditar que há espíritos morando em árvores e pedras.

Delegacias de polícia do mundo inteiro consultam regularmente videntes que eles crêem que lhes fornecem pistas sobrenaturais em casos difíceis. Em Washington, encontros semanais reúnem crédulos de olhos esbugalhados acariciando colheres para que o poder de suas mentes as faça entortar; eles pagam trinta dólares por meia hora desse conhecimento que expande suas mentes. Telespectadores de fim de noite nos Estados Unidos podem ligar para um número 0800 para receberem conselhos sobre seu futuro - por um preço - de videntes que eles só conhecerão por telefone, apresentados pelo "super-místico" israelense Uri Geller. Devotos de técnicas de meditação em êxtase ficam sentados em posição de lótus por um sem-fim de horas em "ashrams" quicando pra lá e pra cá em colchões e tentando voar com o poder da mente.

Dadas as minhas experiências com esses e centenas de outros exemplos chocantes da credulidade humana, a idéia de agentes estrangeiros reproduzindo discursos presidenciais de trás para frente não é nenhuma surpresa. O desempenho dos birutas não é lá dos melhores. Os "videntes policiais" já foram investigados cientificamente e se descobriu serem inúteis; na verdade, eles impedem as investigações, e ainda assim eles prosperam, são consultados por policiais e promovidos de forma extravagante na imprensa. Colheres entusiasticamente massageadas ao ponto de ficarem polidas não se deformam a não ser que um pouco de força seja aplicada, mas esse fato não interfere com os encontros que acontecem em Washington. Cada "voador" da Meditação Transcendental gasta US$5.000 ou mais para aprender a pular para um lado e para o outro em um colchão de borracha, sem nunca decolar. Nenhum montante de evidência contra qualquer alegação transcendental diminuirá o fervor dos crédulos.

Já se chegou a acreditar que Uri Geller, o ex-místico superstar, pudesse entortar colheres pelo poder da mente, e na verdade foi ele que mostrou esse golpe aos altos escalões do Pentágono, sempre alerta aos últimos avanços da ciência. O poder de Geller teve até o aval de um pequeno número de cientistas, que estão um tanto relutantes em falar sobre o assunto hoje. Um talento fantástico como esse, cujo valor social talvez tenhamos dificuldade em reconhecer, era a grande onda dos vazios talk-shows da tevê e das soirees dos ricos e ociosos no meio dos anos 70.

Por que as pessoas de todas as culturas aderem tão ansiosamente a embromação óbvia que deveria ter sido abandonada junto com os fardos emocionais e supersticiosos que criaram a idade média? Parte, mas não todo o motivo, se encontra na aceitação acrítica e na promoção desses conceitos pela mídia, por personalidades importantes e órgãos governamentais. Aquelas festas do pessoal que entorta colher em Washington são freqüentadas regularmente por altos escalões do pentágono. O governo alemão pagou 400.000 marcos em 1990 contratando rabdomantes para percorrer edifícios e hospitais federais para tirar mesas e leitos do caminho dos mortais raios-E que as autoridades aceitaram como reais. O senador Claiborne Pell, de Rhode Island, presidente do influente Comitê de Relações Exteriores, requisitou ao congresso enormes quantidades de dinheiro para custear pesquisa do sobrenatural, com medo de que cientistas russos possam estar à frente dos Estados Unidos em questões tão importantes. Até recentemente Pell tinha um assistente especial com permissão de segurança ultra-secreta que se dedicava somente a essa pesquisa, por um salário anual de US$49.000. E poderíamos esquecer que um ex-presidente do Estados Unidos e a primeira dama refizeram até sua agenda oficial a conselho de um astrólogo em São Francisco?

Parece haver uma certa característica da mente humana que exige que o seu dono aja de maneira estúpida de tempos em tempos. Às vezes esse estado se torna permanente, parte da personalidade da vítima. Alguns pensam que esse mal pode ser comum com "estrangeiros" ou "no outro sexo", outra faixa de idade, ou outra civilização. Nem tanto. Em toda a história de que se tem registro, em todas as culturas de todo o mundo, ontem e hoje, temos excelentes exemplos de crenças, práticas, teorias e atitudes absurdas que só mudam de nome, intensidade e sabor.

OVNIs - que geralmente se descobre serem fenômenos meteorológicos simples ou ilusões de ótica comuns mas que os crédulos supõem serem visitantes extraterrestres - também eram relatados na China antiga, mas eles assumiam qualquer forma menos as configurações de naves espaciais atualmente populares. A versão oriental era um dragão, com ventas em fogo e tudo; não havia uma versão asiática de Júlio Verne. Descrições vívidas desses monstros parecem, para os ocidentais, demonstrar a charmosa inventividade daquele pessoal estranho e crédulo que escreve daquele jeito esquisito. Por algum motivo, dragões me parecem mais prováveis que naves espaciais. Ninguém vê nada de errado em ouvir seriamente as histórias dos jornais atuais sobre senhoras excêntricas que descrevem quão minuciosamente seus genitais foram examinados minuciosamente por pequenos ETs com olhos de insetos a bordo de um OVNI brilhante a caminho de Alfa Centauri. Mas dragões?

O mundo foi presenteado com um filme em branco e preto na tv há não muito tempo que pretendia mostrar um ET do espaço sideral sendo dissecado. A rede de tv pagou cem mil dólares por esse milagre do cinema, que foi exibido por muitos fãs como a tão procurada prova de seres extraterrestres. O filme era tão intrinsecamente falho que até eu me espantei que alguém o aceitasse. Esse filme, que deveria ter mudado o curso da história, foi relegado à vasta galeria de embaraçosos enganos.

Lendas de índios americanos do Sasquatch, um humanóide gigante, também são contadas pelos habitantes dos Himalaia, da China, Sibéria, Wisconsin, norte da Califórnia e Canadá, nas suas versões regionais. O animal pode se chamar yeti ou o abominável homem das neves, pé-grande, macaco gambá ou até Gigantopitecus, mas esse vivente pelo jeito nunca deixa provas de seu rastro ou restos orgânicos ao morrer. Indivíduos jovens nunca são vistos, e nem um traço de evidência jamais foi visto para provar sua realidade. Muitas falsificações de pé-grande já foram confessadas e expostas, mas a crença cresce a cada dia.

Parece que alguns fenômenos naturais foram descobertos independentemente por diversas civilizações. Já se andava sobre brasas no Japão, Sri Lanka, Índia, Havaí e várias partes da África muito antes de esses lugares poderem se comunicar uns com os outros. O fato de que esse fenômeno já foi adequadamente explicado não mudou nada no sentido de retirá-lo dos repertórios mágicos dessas culturas e alguns dos populares movimentos "motivacionais" foram criados justamente a partir de tais descobertas.

Não é difícil imaginar que um grupo dentre os primeiros acadêmicos egípcios descobriu através de paciente observação e manutenção de registros que o Nilo subiria e inundaria a terra em certas datas, a intervalos calculáveis por um sistema conhecido só por eles. Supondo - com bastante segurança, creio eu - que esses espertos enroladores eram motivados pela mesma sede de riqueza e poder que os seus descendentes em todo o mundo têm hoje, uma maior extrapolação de suas atitudes prováveis pode sugerir que na época eles anunciaram a assustadora possibilidade de que era iminente que o Nilo não subiria e fertilizaria a próxima safra a não ser que eles conduzissem determinadas cerimônias nos templos. Que ameaça melhor geraria generosas doações das comunidades de fazendeiros, se não dos próprios governantes do Egito? Desta maneira, ou de outra similar nasceu o primeiro clero, e nós ainda não nos recuperamos dessa inovação.

Ainda hoje, quando se poderia esperar que a Índia de nossos dias, com suas grandes contribuições à ciência e matemática, estaria livre de crenças em noções medievais, existe uma crença universal em astrologia e outras formas de mágica em geral. Na verdade, existe um grande culto religioso internacional construído em torno de um "baba" na Índia que executa - como um milagre - o mesmo truque das "cinza santas" que sempre foi parte do repertório dos artistas de rua de lá. Ele também faz aparecer relógios de pulso para espectadores especialmente importantes ou generosos e filmes feitos dessa maravilha facilmente mostram os métodos padrão de mágica em uso. Seus "milagres" são aceitos por pessoas de escolaridades as mais diversas e ele é tratado como uma importante força política pelo governo daquele país. Mas seus truques são essencialmente o que os charlatães da Europa medieval usavam para ganhar a vida.

Na África, como tem acontecido há séculos, feiticeiros "tiram o espinho" de ferimentos e outras áreas atingidas do cliente simplesmente através de truques. Do outro lado do mundo, brasileiros buscam o mesmo serviço de curandeiros enquanto americanos e ingleses ricos voam em jatos fretados para as Filipinas para ter miúdos de galinha magicamente extraídos de suas barrigas superalimentadas, tudo isso cobrado por hora a taxas astronômicas.

É sempre o mesmo truque, com diferentes pronúncias da pataquada que o acompanha. Nós nos Estados Unidos chamamos os procedimentos equivalentes de quiropatia, cromoterapia, quelação e/ou homeopatia, e é feito aqui com jalecos brancos, instrumentação e excêntricos exibicionismos técnicos que aumentam consideravelmente o custo e a credibilidade.

Às vezes, absurdos são embalados, importados e vendidos sem grande mudança. De um anúncio recente em uma revista norte-americana de Kung-Fu intitulado "Domine a Força!":

"Mova objetos com a Energia Chi sem tocá-los. Mova objetos somente com seus olhos. Levante uma tigela d'água com Yin Chi. Afaste pássaros, cães, somente com seus olhos."
Esses cursos milagrosos são vendidos por correio em todo o mundo. Não existe evidência de que tais feitos alguma vez tenham sido demonstrados, mas os representantes sabem que os clientes nunca reclamam quando descobrem que foram enganados. As vítimas simplesmente procuram uma maneira nova em folha de dilapidar seu dinheiro e tempo.

O iogue Maharishi Mahesh promete ensinar poderes miraculosos aos seus discípulos. Desafio ao perigo e à morte, como expresso nos "siddhis" da mitologia hindu antiga, deram origem a alegações de poderes miraculosos que alcançariam pessoas iluminadas, e agora são avidamente assimilados e oferecidos pelo movimento de Meditação Transcendental a clientes que lhes paguem por isso. Esses poderes incluem não só o poder de levitação, mas também o de invulnerabilidade. Eu já vi "levitações" acontecerem, e para mim parecem jovens imitando sapos gigantes. Eles ficam pulando em posições desconfortáveis, mas acredite: não é levitação. Em relação à "invulnerabilidade", eu já me ofereci para pôr essa alegação à prova se e quando ela tiver sido dominada por qualquer meditador transcendental. Para o meu teste, usarei um equipamento simples - só um taco de beisebol. Essa é uma aplicação do bom senso a uma credulidade insensata.

É claro que muito da culpa pela aceitação pública da pseudociência e da embromação pura pode ser remetida aos nossos sistemas educacionais que não conseguiram familiarizar os jovens - no início do processo educacional - com os fundamentos do pensamento crítico. A maior parte das pessoas não tem idéia de que ciência seja simplesmente um processo lógico de descobrir verdades a respeito do mundo em que vivemos; a ilusão é de que ciência é um tipo de conjunto de regras esquisitas, uma religião que fala através de álgebra ou um grupo mágico de encantamentos e feitiços. Não é, e por ela ser mal entendida, é mais temida do que respeitada. Legisladores, pressionados por grupos religiosos que pregam aceitação cega ao invés de examinar as evidências, não encorajam o enfoque científico.

A comunidade científica também tem culpa. Quando um inventor do Mississipi conseguiu assinaturas de uns trinta PhDs (a maior parte físicos) em um documento atestando que ele tinha descoberto uma verdadeira máquina "sem energia" (essencialmente um aparelho de moto perpétuo), e quando um escritório de patentes norte-americano emitiu uma patente em 1979 para outro inventor de um "motor ímã permanente" que não consumia nenhuma energia, houve pouca reação da comunidade científica. A farsa da "fusão a frio" deveria ter sido jogada no lixo há muito tempo, mas o justificado medo de represálias legais por partidários ofendidos enfraqueceu os oponentes. O Instituto Nacional de Saúde dos EU entregou trinta certificados a diversos projetos de "cura alternativa", alguns de mérito bastante questionável, e depois convidou uma equipe chinesa para demonstrar uma série de peças circenses que foram apresentadas como exemplos de poderes místicos. Os truques eram todos truques comuns, direto do repertório de estelionatários.

Essas alegações absurdas, junto com as alegações dos rabdomantes, homeopatas, os truques com luzes coloridas e os místicos entortadores de colher, podem ser testadas de maneira direta, definitiva e barata e depois descartadas se não passarem nos testes. O dinheiro cedido pelo Instituto Nacional de Saúde poderia ter sido utilmente empregado para um projeto de longo prazo como esse. Por que esse processo foi ignorado?

Aceitar absurdos como meras aberrações inofensivas pode ser perigoso para nós. Nós vivemos em uma sociedade internacional que está alargando as fronteiras do conhecimento a uma velocidade sem precedentes, e só conseguimos acompanhar uma pequena porção de todo o conhecimento que nos é disponível. Misturar nossas informações com noções infantis de mágica e fantasia significa aleijar a percepção que temos do mundo que nos rodeia. Nós precisamos buscar a verdade, e não fantasmas de absurdos mortos.

Sob o risco de ser insuportavelmente realista, tenho que dizer dizer que Elvis Presley está morto mesmo, o céu não está desabando, moto perpétuo é uma quimera, fusão a frio é um beco sem saída, a Terra não é plana e a culpa está não nas estrelas, mas em nós mesmos.

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A primeira versão deste artigo apareceu originalmente na revista TIME de 13/04/1992.

Comentários

Manoel de Jesus Alves de Almeida Júnior - man_jr@ig.com.br - Ceará Ceará, enviou em 19/09/2001

James Randi não é apenas um mágico de primeira. É um escritor de fina pena e ferino senso de humor. Seu texto é ágil e consistente.

Infelizmente pouca gente o conhece. O pensamente cético é - para grande desgraça da humanidade - uma "avis rara". Não é ensinado nas escolas. Não estimulado nas TVS e nem é popular na cultura geral.

Esse talvez seja o problema do ceticismo. Não basta a "Ciência reagir" como afirma Randi. A Ciência só é lembrada pela "massa" quando a mídia lhe atribui algum feito surreal ( clonagem, viagens espaciais, cura de doenças ) ou alguma desgraça equivalente ( armas nucleares, vírus de computador, experiências cruéis com animais ).

Em geral, o mundo não científico ( a maioria do planeta - diga-se de passagem ) ignora o senso crítico, a lógica e o racionalismo. A cultura em geral - tanto a erudita quanto a popular - prefere o misticismo, a ficção científica fantasiosa, bizarrices anti-naturalistas ( que em geral resultam em livros fantásticos - alguém pode realmente criticar "A Metamorfose" de Kafka ou o quase mitológico registro de "Senhor dos Anéis" ? ) e litaratura fantástica ( "Grande Sertão: Veredas" no Brasil; toda literatura de Garcia Marques e parte da Jorge Luis Borges )

Um livro como "Contato" de Carl Sagan e sua série popular na TV: Cosmos, são excessões a regra. E "Contato" - diga-se de passagem, só se tornou sucesso porque Sagan, um crente em vida inteligente fora da Terra - criou um contato terráqueo-alienígena no livro. Imagine o fracasso que ele seria se tudo tivesse se provado uma fraude no final...

Ceticismo, infelizmente para nós céticos, é a crença de uma minora. Para que isso mudasse, muito em nossa cultura e sistema de valores teria que ser mudado radicalmente. Sou CÉTICO ( sem ironia ) em relação a isso. Um forte abraço

Manoel

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
  • O ensaio base original está disponível em http://www.randi.org/jr/time1992.html
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.