Publicado: 04/05/2000
de James Randi
O mágico (magician), no inglês americano, é um ator com o papel de um mago. Nós somos artistas. Eu não penso que haja muitos pessoas - embora existam algumas, segundo o próprio David Copperfield admitiu para mim - que ainda acreditam que realmente fazem as coisas que afirmam fazer. Depois de um show de mágica nós todos passamos pela mesma experiência, todos nós nessa profissão; algumas pessoas aparecem depois e dizem: "eu gostei muito mesmo; muito obrigado por ter vindo". E você diz: "foi um prazer. Fico feliz que você tenha gostado". E aí eles dizem "sabe aquela coisa dos frascos que se multiplicaram? É claro que é um truque. E aquele em que você usou anéis e cordas. Aquilo também é um truque. Mas quando você disse àquela mulher que palavra ela tinha escolhido no jornal, aquilo obviamente não era um truque". Eu digo que também é um truque, mas disfarçado como um milagre de natureza semi-religiosa. Eles piscam para você e dizem "sei". E aí vão embora e depois comentam com os amigos: "bom, ele não admite, mas a gente sabe." Há uma fome, uma fome muito grande dentro de todos nós para acreditar que existe algo mais além do que permitem as leis de natureza. E não digo isso só das platéias que assistem a um mágico. Quero dizer dentro de todos nós. Nós gostaríamos de ter um certo tanto de fantasia em nossas vidas, mas é uma tentação muito perigosa supor imediatamente que algo deve ser sobrenatural, oculto ou paranormal se nós não tivermos uma explicação. Posso dizer que na minha vida já empreguei muito tempo investigando, observando e cuidadosamente percebendo e empregando psicologia. Eu não sou psicólogo; não tenho nenhuma credencial acadêmica, portanto eu venho hoje absolutamente sem quaisquer responsabilidades dessa natureza. Não há nenhum decano que me vá me dar uma advertência amanhã de manhã dizendo "você não deveria ter dito aquilo." Eu estou no ramo de dar opiniões de um ponto de vista desenformado, a não ser do ponto de vista de uma pessoa cética que conheça como funcionam as cabeças das pessoas e freqüentemente como não funcionam. Comentou-se na introdução a esta palestra que na atual a taxa do crescimento científico, em um certo número de anos cada ser humano da terra será um cientista, assim como todos os animais - os asnos, os burros, tudo. Bom, o meu amigo David Alexander observou, em um cruel aparte, que mesmo hoje determinadas partes de determinados cavalos se tornaram cientistas. E isso é completamente verdadeiro; eu já conheci muitos deles e embora eles tenham Ph.D.s, mal se percebe. Eu acabei de voltar de um projeto em andamento agora e vi esse princípio em funcionamento. Devo contar a vocês uma outra coisa de passagem. Eu tenho uma teoria; é somente uma teoria, e atualmente continua sem comprovação. Mas as observações até agora tendem a apoiar sua possível validade, com minhas prévias desculpas aos Ph.D.s no recinto. Eu tenho uma teoria sobre Ph.D.s e a própria cerimônia de titulação. Eu estou fora desse campo, não sou um acadêmico, então como observador curioso já vi muitos filmes, e em alguns casos compareci de fato às cerimônias em que Ph.D.s são criados. Eles são criados mesmo. O Ph.D. em si é naturalmente conquistado, mas depois a pessoa que passou em todos os testes e fez todas as coisas certas do jeito certo e foi aprovada, ela não se transforma em Ph.D. até o importante momento em que um rolo de papel, geralmente com uma fita vermelha ou azul em torno, é posto em sua mão. Nesse momento a pessoa se transforma em uma classe muito especial de seres conhecidos como Ph.D.s. Agora, eu notei naquelas cerimônias, e talvez você também tenha notado, que o homem que dá aqueles rolos de papel usa luvas. Por quê? Por que ele usaria luvas? O papel está sujo? Acho que não. Existe alguma coisa nesse rolo de papel, ou talvez na fita, que ele não quer que o contamine, e não quer que toque em sua pele? Eu vou postular - é só uma idéia - que talvez haja um produto químico secreto, geneticamente manipulado, que está na superfície desse papel de modo que quando o candidato a Ph.D. recebe o rolo de papel, esse produto é absorvido pela pele, entra na corrente sangüínea e é conduzido diretamente para o cérebro. É um produto que sofreu uma engenharia química muito precisa - por favor não riam; isso é ciência - que vai diretamente ao centro de fala do cérebro e o paralisa de tal maneira que a partir daí, duas frases, em qualquer língua, ficam impossíveis de ser pronunciadas por essa pessoa. Essas frases são "eu não sei" e "eu errei". Eu honestamente não sei bem; entretanto, minhas observações sobre a situação são tais que eu nunca ouvi um Ph.D. pronunciar qualquer uma daquelas frases. Eu também nunca os ouvi dizer "eu quero me casar com uma lagosta", mas isso não significa que eles não consigam dizer. Mas aquelas duas frases parecem nunca passar por seus lábios. É claro que eu estou sendo extremamente brincalhão. Eu tenho grande respeito não somente para com a ciência, mas para com aqueles que perseguem as várias disciplinas da ciência. É preciso muita coragem, aplicação, estudo, sacrifício, e em muitos casos, até ataques absurdos a sua integridade e sua capacidade a fim manter um ponto de vista em ciência que pode ou não ser popular. Eu já estive com muitos cientistas proeminentes que, de tempos em tempos, têm que arriscar o pescoço profissionalmente, e às vezes seus pescoços são consideravelmente machucados no processo. Não é uma coisa fácil falar contra o que é geralmente aceito. Então o que é geralmente aceito? Devido ao impacto da mídia em nossa civilização, temo que um grande número de coisas são facilmente engolidas porque são repetidas com muita freqüência. São continuamente apresentadas ao público, e acabam chegando à comunidade acadêmica também. Um sem-número de vezes eu falei a cientistas que, quando eu faço uma pergunta crítica sobre alguma crença qualquer em alegações parapsicológicas, sobrenaturais ou ocultas, dizem "sabe, eu ouvi bastante sobre isso e o professor fulano falou alguma coisa sobre isso. Talvez o professor fulano, baseado nos poucos dados que já recolheu, comparado ao que deveria ser recolhido, a fim estabelecer um retrato estatístico satisfatório, uma quantidade de dados a partir dos quais se poderia extrair conclusões por um dos vários quadros estatísticos disponíveis a ele, tenha chegado a conclusões que foram expressas prematuramente. Consequentemente, além disso, e ademais, em exames subsequentes..." Essa é a resposta acadêmica. Quando me perguntam, eu simplesmente digo que "na minha opinião não-acadêmica de leigo, acho que o professor fulano está remando em círculos". É uma expressão simples, direta e honesta de minha opinião. Eu estou encarando presentemente uma situação, que não posso especificar, em que terei que mostrar a diversas pessoas dedicadas, honestas e trabalhadoras que elas cometeram um enorme erro de avaliação. Eu tenho que fazer isso de uma maneira clara, simplesmente porque não fazer assim poderia resultar em grandes danos pessoais, pesar, e considerável decepção e tristeza a um grande número de pessoas que já estão trabalhando com determinadas desvantagens e problemas que não são sua culpa. Eu odeio ser tão misterioso sobre isso, mas é um trabalho de investigação corrente. Eu não me envolvo com freqüência em situações sérias assim. Geralmente minhas circunstâncias são mais abertas - eu estou examinando alegações de alguns astrólogos ou algum tipo de coisa pseudocientífica. Mas eu sempre me lembro de uma experiência que me aconteceu. É fácil, quando nos apresentam fenômenos aparentemente sobrenaturais, dizer "eu suponho que é um fantasma" ou "deve ser paranormal", ou "pode ser poltergeist", e nós deixamos pra lá porque não podemos ou não queremos para nos debruçar um pouco mais sobre o problema. Há alguns anos, quando eu morava em Nova Jersey, minha casa era um tipo de parada de percurso para mágicos itinerantes, mágicos (conjurers), saltimbancos - vários tipos de má reputação que sempre vinham me visitar. Uma vez eu cheguei em casa depois de alguns dias fora, muito cansado, e encontrei meu filho adotivo, Alexis, que estava na cozinha ajudando alguns mágicos a beber cerveja. Eu entrei e disse: "pessoal, eu estou muito, muito cansado; vou dormir. De manhã a gente se vê". Imagino que eles continuaram até tarde nessa noite. Eu dormi, acordei na manhã seguinte e fui cambaleando até a cozinha a tempo vê-los consumir mais mantimentos na forma de café da manhã. Sentei, peguei meia xícara de café e endireitei a mesa. Alexis me olhou e disse "o que aconteceu?" Respondi "acho que eu talvez tenha tido uma experiência clássica de Projeção". Significa que de algum modo você se encontra fora de seu corpo e pode olhar para baixo e vê-lo ou observá-lo à distância. Alexis me olhou e disse "Sei. Você?" Eu disse "é, tenho que falar a verdade. Parece que eu realmente tive essa experiência". "Ok, diga como foi", responderam. Os dois mágicos na mesa se inclinaram para a frente em cima dos ovos com bacon e queriam ouvir o que eu tinha a dizer. "Bom, eu me lembro de acordar no meio da noite - no começo eu não conseguia dormir de tão cansado, então liguei a televisão. O programa continuava lá e finalmente adormeci. Me lembro de acordar no meio da noite e sentir que estava com os braços e pernas abertos contra o teto do meu quarto, olhando a cama do alto. Alice, minha gata preta, estava enrolada bem no centro da cama de modo que eu tinha que ficar bem para o lado. E eu, naturalmente, estava tentando não perturbar o gato! Enquanto estava lá em cima no teto, notei que o quarto estava iluminado por um tipo de luz cinza. Olhei para a televisão e só vi estática na tela e ouvi um chiado neutro. O que vi foi desconcertante. Me vi na cama, apertado de um lado, uma colcha verde sobre ela, com Alice no meio. Quando ela abriu os olhos notei que eram verdes. Pareciam quase dois buracos na cabeça dela. Ela me olhou, fez ' hmmf ' e dormiu de novo". Essa era uma experiência muito forte para mim. Eu realmente acreditei, a partir das evidências disponíveis, que eu havia tido uma experiência de projeção que batia com a descrição que todos nós ouvimos muitas vezes sobre isso. Mas, felizmente para mim, eu não sou inflexível em relação a ter minha estrutura da crenças abalada ou descobrir fatos novos que perturbem minhas convicções anteriores. E, felizmente, eu posso dizer-lhe o que realmente aconteceu. Alexis olhou-me e disse, "tenho duas coisas para mostrar". Ele foi até o pé da escada e voltou com um saco grande e transparente da área de serviço. Ele quase já o tinha levado até a lavanderia. Ele o trouxe para cima novamente, e dentro havia lençóis, fronhas e a colcha verde. Ele disse: "isso está aqui desde ontem". A colcha não estava na cama na noite passada! Eu corri para a porta do quarto, olhei para dentro, e a colcha que eu uso quando a outra está lavando estava na cama. Não são nem um pouco parecidas. Depois Alexis chamou minha atenção para o pátio, notando que tinha posto Alice pra fora ontem à tarde porque um dos mágicos era muito alérgico a gatos. Tinha ficado fora, muito infeliz, durante a noite e a manhã. Ela não tinha como estar enrolada no meio da cama na noite anterior. Foi um sonho - uma alucinação, se você quiser. Eu tive duas evidências muito boas de que não poderia ter acontecido. Isso é importante porque se eu não tivesse uma ou ambas aquelas evidências, eu teria agora que dizer que, até onde eu sei, eu tive uma experiência de projeção. Mas em relação a todas as demais experiências de projeção de que ouvimos falar, nós precisamos pensar. Aquelas pessoas não são tão céticas sobre o assunto como eu, na maior parte dos casos. Se não tiverem alguma evidência convencendo-os do contrário, o que os impediria de dizer "eu estou absolutamente certo de ter tido uma experiência de projeção"? Não há nenhuma outra explicação exceto a conclusão possível e bastante simples de que estavam sonhando ou tiveram uma alucinação. Até onde sabemos, pode ter sido uma costeleta de porco estragada. Por favor considerem isso com calma, e não se esqueçam disso, porque esse é um bom exemplo de como mesmo um arqui-cético poderia ter se enganado. Eu já tive diversas pequenas experiências como aquela, incluindo os déjà vu 2 que tantas pessoas tiveram (adoro aquela frase que diz "eu sempre tenho o mesmo déjà vu, uma vez atrás da outra"). Mas eu resisti a tentação de meramente dizer "bem, enfim eu tenho a prova". Eu sou altamente cético, mas em que esse ceticismo se baseia? Se você também for cético, você já se perguntou no que baseia o seu ceticismo? Ou você só é do contra? Você simplesmente não quer aceitar o status quo? Você conhece algumas pessoas que acreditam nisso que são bem pouco inteligentes e você não quer se juntar ao grupo? Você deve ter um motivo, imagino, para si e para os outros a respeito de por que você é cético. Essas coisas não têm grande probabilidade de ser verdadeiras; logo, você necessita de prova. Nós não precisamos provar uma negativa; não é possível fazer isso. Eu não posso provar que telepatia não existe. Eu me lembro de uma pergunta que me fizeram há anos. Uma senhora levantou na platéia e disse: "pode você provar que PES (Percepção Extra-Sensorial) não existe?" Eu disse que não, e ela sentou-se com os braços cruzados e disse "Aha!" Aquela era uma vitória para ela. E eu expliquei que não se pode provar uma negativa. Minha pergunta é: "você acredita nisso?" Ela respondeu "com certeza". Eu perguntei se ela poderia provar que é assim. Ela disse "eu estou completamente convencida". "Não foi isso que perguntei", respondi. "Você pode provar? É você que está fazendo a afirmação". Nós céticos, como Michael Shermer afirmou claramente, não estamos no ramo de desmistificações. Se eu estivesse nesse ramo, e freqüentemente já me rotularam assim e eu sempre me aborreci e sempre neguei - significaria que eu entraria em uma investigação convencido que "isto não é assim e eu vou lhe mostrar que não é". Eu não sou um advogado; eu não tenho uma posição de defesa para assumir. Eu entro em uma situação como um investigador. Para ser completamente justo, eu não posso provar uma negativa, mas eu entro preparado para tanto. Tenho preconceito contra isso? Ah, sim! Tenho que admitir isso. Mas se você senta junto de uma chaminé por 63 anos na noite de 24 de dezembro e um homem gordo em uma roupa vermelha nunca aparece, você pode dizer "cem por cento das minha evidências mostram que essa alegação não é necessariamente assim. Eu não posso provar que não é, mas não é muito provável que seja verdadeiro, baseado no que nós sabemos". O exemplo de Papai Noel pode parecer trivial e um pouco impróprio, mas na verdade é uma boa metáfora para muitas alegações paranormais e pseudocientíficas. Outra é a das renas voadoras. Essa nós realmente podemos testar. (por favor não diga nada para a Sociedade Protetora dos Animais). Eu não quero fazer a experiência de verdade, mas vamos passo a passo como se eu fosse fazê-la. É um experimento de pensamento. Vamos selecionar, por algum processo aleatório, mil renas. Nós as numeramos, juntamos em um caminhão de renas (eu não sei como se chama o lugar em que se você põe renas) e as levamos para o topo do World Trade Center em Nova Iorque. Vamos testar se renas voam ou não. Você põe todas as renas lá, um operador de vídeo a postos, um monte de blocos de papel e canetas. São dez e dez da manhã. Ok, primeira experiência. Rena número um, por favor: para a borda. Câmera ligada? Bom. Empurre. Ahn, escreve "não". NÃO mesmo! Número dois. Empurra. Eu não sei qual vai ser o resultado da experiência; eu suspeito fortemente qual será, baseado em meu fraco conhecimento da aerodinâmica de uma rena média, embora eu não seja perito nisso. Mas baseado em registros anteriores do que as rena conseguem e do que não conseguem fazer, acho que vamos acabar com uma pilha da renas bem infelizes e estraçalhadas no pé do World Trade Center. E provavelmente alguns policiais do lado de um carro dizendo "não sei, mas aí vem outra". O que nós provamos com essa experiência? Nós provamos que renas não voam? Não, claro que não. Nós mostramos somente que naquela ocasião, sob aquelas condições de pressão atmosférica, temperatura, radiação, naquela posição geográfica, naquela estação do ano, que aquelas 1000 renas não podiam voar ou escolheram não voar (se for o segundo caso, então nós certamente sabemos algo sobre a inteligência da rena média.) Entretanto, nós não provamos, e não podemos provar, a negativa de que renas não voam, técnica, racional, e filosoficamente. As pessoas freqüentemente olham esse exemplo e dizem "bem, quantas renas você teria que testar?" Não vou entrar na estatística do argumento; eu simplesmente afirmo que você não pode provar uma negativa. As pessoas que alegam que algo é assim ou assado é que precisam prová-lo. É o que nós nos chamamos de ônus da prova. Neste caso, se for assim é muito fácil provar. É só me mostrar uma rena voando. Aí eles tentam achar uma desculpa racional: "Ah, não. São somente as oito reninhas que vivem no pólo norte que podem voar, e voarão, na noite de 24 de dezembro, para fazer essa tarefa específica". E nesse caso você abre os braços e diz "bem, acho que sua hipótese não é muito testável". Não esquente a cabeça! Experimentos de pensamento como esse só chegam até aí. Como exemplo de uma experiência real que testa alegações incomuns, eu acabei de voltar da Hungria, onde fui convidado a ir a Budapeste pela academia de ciências. Eles estavam muito preocupados com o fato de que agora que muitos destes países estão livres da pesada e onerosa rédea do comunismo e têm a liberdade para receber todos os tipos da informação científica em periódicos e palestras, o absurdo também aparece junto. Astrólogos, curandeiros, artistas do paranormal, pessoas com pêndulos, rabdomantes 3 - eles fazem fila aos montes porque vêem um novo mercado. Os cientistas da Hungria estavam preocupados com isso. Um conhecido membro do parlamento que é também um cientista respeitado e importante cientista de renome internacional me disse "Sr. Randi, o senhor viu a publicidade a respeito das senhoras magnéticas?" Eu tinha visto. Caso você não esteja familiarizado com as senhoras magnéticas de Hungria, eu o aliviarei dessa ignorância imediatamente. Talvez você tenha visto uma foto que apareceu em todas as agências de notícias do país no ano passado, do homem magnético de (então) Leningrado. Era uma foto de um homem de meia-idade de pé assim, sem camisa, com um ferro de passar preso aqui, um martelo ali, pregos, lâminas de barbear - vários tipos de metal grudados no seu corpo. A legenda dizia que ele atraía essas coisas. Elas pulam, do nada, para o seu corpo. Ele era magnético de algum modo. Aposto que o seu relógio de pulso ficava uma bagunça! Não o deixe perto de seus computadores! Eu fico imaginando o sujeito atravessar uma porta de aço. Bum! Direto no batente! Bem, eu levei isso com o proverbial grão de sal do tamanho de uma bola de basquete, colei a história no meu livro de recortes e esqueci o assunto. Mas o professor me perguntou sobre as senhoras magnéticas de Hungria, e disse "sua reputação é de que os objetos, não necessariamente metálicos, aderem ao seu corpo com tal tenacidade que um homem forte não consegue tirá-los". Agora, espere aí! Suponha que você tenha alguma cola instantânea, e nós pegamos uma bola de tênis e a colamos do lado da garganta dessa senhora. Se um homem forte não puder arrancá-la, irá arrancar sua pele - ou sua cabeça! Alguma coisa tem que ceder! Meu amigo cientista e patrocinador dessa viagem me olhou e perguntou "como eles falam uma coisa dessas?" Eu disse "bem, vamos ver as senhoras magnéticas". Ele disse que no dia seguinte, depois da entrevista coletiva, elas chegariam. Eu mal podia esperar. Um dos parapsicólogos tinha sugerido me trazer alguma instrumentação para a detecção de magnetismo. Prometeu que nós levaríamos as duas senhoras para o laboratório, (de mãos dadas, grudadas uma na outra, com certeza). Eu declinei ir ao laboratório porque os leigos lendo o relato no jornal não iriam entender "laboratório". O que você vai fazer? Por um ciclotron na orelha delas? Não. Eu me equipei com um dispositivo científico e fui. O dispositivo se chama bússola. É um instrumento científico e um jeito fácil de executar o teste. Se uma mulher for magnética, a bússola vai apontar bem para ela. As duas senhoras apareceram. Eu havia dito anteriormente a meu amigo que ele precisa entender que a alegação é uma coisa; o evento em si freqüentemente será totalmente diferente. Não terá nem metade da graça ou da verdade que a demonstração de fato. Uma senhora literalmente fez isto: tirou seu relógio de pulso e fez assim. [Randi põe seu relógio na testa e ele permanece lá sem cair.] "Como você explica isto?", disse. Eu olhei ambas as senhoras, que usavam uma maquiagem muito gordurosa e brilhante. Obviamente era pegajosa, misturada com um pouco de suor. Ela disse "nós não temos nenhuma explicação para isto". Eu disse que eu não achava aquilo muito difícil de explicar. A segunda senhora tinha uma demonstração melhor ainda. Ela pegou um pequeno pires cerâmico da bolsa e o pôs na testa, onde ele permaneceu. "E como você explica isto?", papagueou a outra mulher. Eu o retirei da sua testa, e o grudei na testa das primeiras quatro pessoas à minha direita. Grudou muito bem na testa de todos eles! Então nós testamos sob condições controladas. (por sinal, o teste da bússola falhou retumbantemente; ela continuava apontando para o norte, recusando-se obstinadamente a apontar para elas.) Eu pedi sabão e água e, através do intérprete, perguntei à primeira senhora se eu poderia lavar sua testa para remover a maquiagem e o suor que pudessem estar ali. Ela me informou que se lavasse sua testa não funcionaria porque a água é absorvida pela pele e água e eletricidade, ou magnetismo, não se misturam. Ela negou que aquele fosse um teste adequado, como a segunda senhora, e elas foram embora. "Você aprendeu sua primeira lição sobre investigação científica de alegações incomuns", disse ao professor. "Não comece a dar teorias sobre como aquilo pode acontecer antes de verificar se o fenômeno corresponde aos relatos dos jornais, ou se é algo muito menos impressionante." Para ser justo com estas mulheres, posso imaginar como aquele relato pode ter ido parar nos jornais. Tenho certeza de que aquelas senhoras não disseram aos repórteres que "um homem forte não consegue tirar isto de mim". Mas um repórter é um ser humano e talvez sua história não fique tão boa quando ele escreve que as coisas grudam no corpo delas. Então talvez pense "Hmmm, e que tal dizer 'com tal tenacidade que um homem forte não consegue tirá-los'?" Agora sim, ele tem uma matéria! O que eu estou dizendo é que a mídia tem tanta culpa na propagação de absurdos e pseudociência quanto as próprias pessoas que fazem as alegações. Por exemplo, há alguns anos o New York Daily News, na página três onde põe as "notícias importantes" e as coisas sensacionalistas, anunciou que um estudante da Duke University não somente descreveu com sucesso e em grande detalhe um acidente de avião 24 horas antes do evento, como até mesmo deu o número de pessoas mortas. Ele indicou somente duas a menos. Descreveu até o local da queda nas Ilhas Canárias. Isso foi espalhado por agências de notícias e mostrado em programas da televisão; estava em todos os noticiários por um bom tempo. Foi recebido pela imprensa como um exemplo genuíno de profecia, e o diretor do programa da universidade do qual ele participava deu uma declaração de que ele tinha um envelope lacrado 24 horas antes em seu cofre que não foi tocado por este rapaz antes de o episódio ocorrer. Alega-se que foi aberto naquela hora e que continha a predição. Para explicar esse fenômeno eu os conduzirei a um mundo diferente, por um momento, para que vocês entendam uma coisa. Os mágicos sabem como aquele jovem poderia muito facilmente ter feito esse truque. Eu não entrarei em todos os detalhes; vocês podem imaginar alguns deles por si. Mas o efeito é exatamente como descrito - um envelope lacrado e assinado, posto em um cofre, aberto mais tarde com todo cuidado. Dentro se encontra uma fita cassete ou uma carta lacrada com todos os tipos da segurança, assinados, talvez genuinamente reconhecido por um tabelião no dia anterior. Ele contém a predição. Um milagre de natureza semi-religiosa? Não, é um truque. Pode ser feito por qualquer bom mágico. Agora, voltemos ao artigo do Daily News, primeira edição. Ele saiu de tarde. A história estava na página 3 com uma caixa de texto no meio descrevendo a mecânica de como o envelope tinha sido trancado em um cofre e um parágrafo final que citava o estudante da Duke University que fez a predição com esta afirmação: "é tudo parte da publicidade para meu show de mágica, que acontece amanhã à noite. Não levem a sério". As segunda e terceira edições da notícia do Daily News tinham tudo menos aquela frase. Um outro exemplo de como a mídia distorce alegações vem de um jovem que morava bem perto na minha rua quando eu vivia em Rumson, Nova Jersey. Era um dos sujeitos dali que saíam em aventuras como sair em botes e veleiros. Era um bom rapaz. Um dia na primeira página do New York Times havia uma pequena caixa mostrando um mapa do triângulo das Bermudas com uma cruz maltesa em cima. A manchete era "garoto de Rumson perdido no mar no Triângulo das Bermudas". Eu li o pequeno artigo, que continuava em outra página e dizia que ele tinha saído em seu barco a vela pra uma pessoa, ido para o triângulo com um rádio-transmissor, e não se ouviu mais dele. A guarda costeira estava procurando por ele. Assim que acabei de ler isso e liguei para alguns amigos em Nova Iorque para contar sobre o ocorrido, saí para pegar a correspondência e para minha surpresa lá estava o rapaz acenando para mim. Ele estava perfeitamente bem! Eu disse "você está no Times de hoje". Ele respondeu "é, me pegaram tarde da noite e me trouxeram. Eles querem que eu fique em observação no hospital, mas eu estou ótimo. Teve uma tempestade; eu perdi o rádio no mar e eles acabaram me achando bem logo, por umas 2:30 da madrugada, e me trouxeram de helicóptero." Embora a primeira história tenha gerado grande sensação, a seqüência nunca apareceu no New York Times ou em qualquer jornal que eu saiba. Ela ainda faz parte da mitologia sobre o triângulo das Bermudas. Até onde nós sabemos, a partir dos registros publicados nos jornais, aquele garoto ainda está lá num barco no triângulo das Bermudas ou talvez tenha sido levado para Marte. É preciso aprender que os editores e repórteres de jornal são sujeitos aos mesmos tipos de pressões que todos nós. Todos nós queremos algo bem sucedido. Freqüentemente a escolha está entre uma matéria e uma não-matéria. Precisamos perceber que não podemos depender da mídia para sempre representar os fatos como realmente são. Isso não é grande novidade para vocês, mas é preciso sempre ter isso em mente. Cuidado ao aceitar o que está impresso; não deixe que lhe digam "alguém escreveu, deve ser isso mesmo" ou "alguém escreveu um livro sobre isso. Deve ser verdade". Além disso, existem muitos livros que, antes que cheguem às prateleiras e estejam à venda, são completamente refutados porque são baseados em informações falsas. São imediatamente recolhidos? Não. Eu lhes dou um bom exemplo. Há um livro chamado Aprendendo a Usar a Percepção Extrasensorial. Foi publicado por Charles Tart, um respeitado psicólogo da universidade da Califórnia em Davis. Eu ouvi uma palestra do Dr. Tart em Casper, Wyoming. Vou contar exatamente o que ele disse e ver se a sua reação será a mesma que a minha. Eu a gravei em uma fita, por isso sei exatamente as palavras que ele disse; este não é um caso de interpretação ou memória falha. Ele disse, falando para a audiência: Houve uma época, anos atrás, quando eu era altamente cético a respeito de todos os tipos de alegações paranormais. Uma das coisas que me convenceram que deve haver algo diferente foi uma estranha experiência pessoal que eu atravessei. Era durante a guerra. Eu estava em Berkeley, Califórnia, e todo mundo estava fazendo hora extra. Nós trabalhamos até bem tarde da noite e a jovem que era minha assistente na época trabalhou comigo até bem tarde naquela noite. Depois ela foi para casa; eu fui para casa. No dia seguinte ela chegou bastante agitada. E relatou este evento. Era durante a guerra; eles faziam hora extra. Eles freqüentemente estavam muito, muito cansados quando iam para casa. Era compreensível que caíssem em um sono profundo e dormissem tanto quanto pudessem. Ela contou que durante aquela noite tinha sentado de repente na cama, convencida que algo terrível tinha acontecido. "Eu tive uma terrível sensação de premonição", disse, mas não sabia o que tinha acontecido. "Eu imediatamente saí da cama e fui até a janela para olhar para fora e ver se conseguia achar algo que tivesse acontecido, como um acidente. Eu estava saindo da janela e de repente ela foi violentamente sacudida. Eu não entendi aquilo. Voltei para a cama, acordei na manhã seguinte e escutei o rádio". Um navio de munição no porto de Chicago tinha explodido. Ele literalmente varreu o porto do mapa. Deixou a cidade inteira no chão e mais de 300 pessoas morreram. Nunca se descobriu se foi um acidente ou sabotagem. Ela disse que tinha percebido o momento em que todas essas pessoas foram mortas naquela grande explosão. Como é que ela poderia de repente ficar com medo, saltar da cama, ir à janela, e então - a partir de 35 milhas (aproximadamente 55 km) dali, a onda de choque ter alcançado Berkeley e sacudido a janela?De fato, ela se lembrava de ter olhado o relógio para ver que horas eram - com precisão de minutos. Bem, quando eu ouvi isso, eu disse a mim mesmo: "tem alguma coisa errada aqui". Estou vendo alguns sorrisos na platéia; talvez vocês tenham percebido a mesma coisa que eu. Um amigo meu, geólogo, estava a três ou quatro assentos de mim; eu mandei um bilhete para ele. Ele piscou, sorriu, levantou e saiu do recinto. Quando voltou, me entregou de volta o bilhete, e ali dizia somente "8 segundos". O que eu perguntei? [resposta da platéia: qual é a diferença entre os tempos de propagação de uma onda de choque no ar e uma onda de choque no chão ao longo de uma distância de 35 milhas? A diferença é de 8 segundos.] Assim, 8 segundos antes que a janela sacudisse, ela tinha ficado confusa pelo próprio quarto sacudindo; não pela onda de ar, mas pela onda na terra. Eis minha teoria: a onda na terra que agitou a cama a acordou, ela saiu da cama, foi à janela, olhou para fora, não viu nada, foi sair da janela e de repente os vidros sacudiram na frente dela. Na manhã seguinte eu procurei o professor Tart enquanto ele tomava café da manhã sozinho. Eu já tinha trocado correspondência e telefonemas com ele, mas nunca tinha o encontrado pessoalmente. Eu cheguei, me apresentei, sentei um pouco e ofereci minha pequena teoria. Eu disse que haveria uma diferença de 8 segundos. Ele não ergueu os olhos dos seus ovos mexidos por muito tempo. Finalmente, quando o fez, sorriu e disse "Sr. Randi, essa pode ser a explicação que o senhor prefere". Acho que ele decidiu que não iria pensar muito naquela idéia. Mas eu não sei de nenhum pronunciamento seu subseqüente àquele, então talvez ele tenha chegado à conclusão de que o que a minha explicação tinha mais probabilidade de ser verdadeira. Mas isso é tão típico dessa área! Novamente, eu estou envolvido em uma coisa que não posso contar o que é, e me desculpem por isso, em que existem diversos importantes cientistas que estão ignorando absolutamente, se recusando a olhar evidências muito boas neste caso que eu estou investigando. Eles vêm com maneiras de explicar as coisas que vocês não acreditariam, a menos que já tenham passado por isso antes. É incrível como eles ignoram boas evidências que mostram que há uma explicação prosaica, racional e muito provável para o que eles estão observando. Eu quero encerrar esta apresentação com alguns exemplos paralelos de alegações científicas que acabaram se mostrando bem absurdas. Voltemos a 1903 na França. Talvez vocês já tenham escutado algo a respeito, se não, é realmente algo que vocês realmente deveriam procurar. Um cientista proeminente - um físico chamado Rene Blondlot - estarreceu o mundo da ciência com seu anúncio da descoberta dos raios N. Sendo um homem muito respeitado que ganhou muitos prêmios em ciência com todo o mérito, ele fazia experiências que pelos padrões de hoje eram muito simples, como encontrar a velocidade da eletricidade em um condutor. Parece fácil hoje, mas naqueles dias era uma experiência muito sofisticada e não era feita tão facilmente. Blondlot tinha setenta e tantos anos quando descobriu os raios N, assim chamados porque ele era chefe do departamento de física da universidade de Nancy. O que eram os raios N? Raios N eram a alegada radiação com propriedades impossíveis emitida por todas as substâncias com exceção da madeira verde (madeira não seca) e metal anestesiado (metal que tinha sido mergulhado em éter ou clorofórmio não emitia raios N!) Seis a oito meses depois da anunciada descoberta dos raios N, 30 ensaios de toda a Europa confirmavam a existência dos raios N. Foram publicados relatos nos periódicos científicos a despeito de haver muitos laboratórios que relatavam não conseguir replicar os resultados. Tal aceitação era compreensível considerando que os raios X, que também exibiam propriedades curiosas, já tinham sido firmemente estabelecidos. Blondlot tinha um espectroscópio básico com um prisma (não de vidro, mas de alumínio) no interior, e um fio. O estreito fluxo de raios N era refratado através do prisma e ao sair produzia um espectro em um anteparo. Os raios N seriam invisíveis, a não ser quando vistos quando colidiam com um fio tratado (por exemplo, tratado com o sulfeto de cálcio). Movia-se a linha junto da abertura de saída dos raios N e quando ela se iluminava isso era relatado como detecção dos raios N. Logo os raios N foram estabelecidos como fato. A revista Nature estava cética quanto aos raios N porque laboratórios na Inglaterra e na Alemanha não conseguiram encontrá-los. (A Alemanha tinha acabado de descobrir os raios X na década anterior e os franceses estiverem irritados porque não tinham um raio também.) A Nature mandou um físico americano de nome Robert W. Wood da universidade Johns Hopkins para investigar. Agora, eu fui acusado do malandragem na minha época, mas o que Wood fez foi brilhante. Quando ninguém estava olhando, ele removeu o prisma do dispositivo de detecção dos raios N e o colocou no bolso. Sem o prisma a máquina não poderia funcionar porque era ela dependia da refração dos raios N pelo prisma tratado com alumínio. Ainda assim, quando o assistente conduziu a experiência seguinte ele encontrou os raios N! Ele jura que estavam lá. Quando a experiência acabou, Wood sabia que realmente tinha acabado. Ele estava pronto para fazer seu relatório, e quando foi recolocar o prisma na máquina, um dos outros assistentes o viu e pensou que ele na verdade estava retirando o prisma, e decidiu desmascarar Wood. Achando que Wood tinha removido o prisma (quando na verdade ele o tinha recolocado lá), ele montou a experiência, não encontrou nenhuma linha, abriu a caixa para mostrar que o prisma não estava lá e para seu espanto, lá estava ele! A coisa estourou. Os ensaios foram retirados, os que estavam no correio foram desmentidos, e os raios N desapareceram de cena. Como isso aconteceu? Como mais de 30 ensaios foram publicados? Não porque os cientistas que os escreveram eram estúpidos. Não porque estavam mentindo. Mas porque eles estavam se iludindo. Irving Klotz fez esta observação na Scientific American: De acordo com Blondlot e seus discípulos, então, era a sensibilidade do observador mais que a validade dos fenômenos que foi posta em xeque por críticas como as de Wood, um ponto de vista que não é estranho àqueles que acompanharam controvérsias mais recentes sobre percepção extrasensorial. Em 1905, quando somente os cientistas franceses permaneceram na seara dos raios N, o argumento começou a adquirir um aspecto um tanto chauvinista. Alguns proponentes dos raios N afirmavam que somente as raças latinas possuíram as sensibilidades (intelectual assim como sensorial) necessárias para detectar manifestações dos raios. Alegou-se que os poderes de percepção anglo-saxãos eram amortecidos pela contínua exposição à névoa e os teutônicos dessensibilizados pela ingestão constante de cerveja.Contudo a ciência nem sempre aprende com estes erros. Recentemente visitando Nancy e falando sobre pseudociências, eu discuti este exemplo e embora eu estivesse na cidade que deu o nome aos raios N, ninguém na platéia jamais tinha ouvido falar deles, ou de Blondlot, nem sequer os professores da universidade de Nancy! Agora vamos à Alemanha moderna, depois da queda do comunismo, e comparemos os raios N aos recentemente descobertos "raios E". Na verdade, são chamados Erdestrallen, ou "raios-Terra (Earth)", mas a mídia no mundo todo os chama de raios E, meio que paralelos aos raios N. Os raios E são ainda uma coisa ainda mais estúpida do que os raios N. O que são? Antes de tudo eles não podem ser detectados por nenhum meio conhecido, exceto por rabdomantes. Causam câncer. Supostamente vêm do centro da Terra. O governo da Alemanha Ocidental gastou por volta de 400.000 marcos, ou aproximadamente US$200.000, para pagar rabdomantes para ir em hospitais financiados pelo governo federal e edifícios do governo federal para mover camas e mesas que estavam no caminho desses mortais raios E. Eu me ofereci para ir de graça e conduzir um teste de duas partes muito simples: 1. Um rabdomante consegue encontrar o mesmo ponto duas vezes? e 2. Dois rabdomantes conseguem encontrar o mesmo ponto uma vez? A sua resposta foi "nós não precisamos fazer a experiência porque sabemos que rabdomancia funciona. Ela existe desde a Idade Média e a tradição histórica valida sua veracidade". Eu desafio todos os rabdomantes de maneira similar. Uma vez que 94% da superfície da Terra têm água a uma distância perfurável, meu desafio é encontrar um lugar seco! Eles não querem aceitar. Por que? Porque têm uma probabilidade de sucesso de somente 6%. Rabdomancia é uma reação ideomotora que é muito enganadora. É um movimento inconsciente que você não consegue detectar e parece para todo mundo alguma força misteriosa. De forma similar, há alguns anos eu estava na França investigando os resultados das experiências feitas por Jacques Benveniste na água com memória. Ele conseguiu publicar seu artigo na Nature, que pôs um anúncio no meio do ensaio de que talvez "os membros vigilantes da comunidade científica com um olho para achar furos no trabalho de outros talvez possam sugerir testes adicionais sobre a validade das conclusões". A Nature mandou uma equipe de investigadores para o laboratório, da qual eu era parte [os outros dois eram John Maddox e Walter W. Stewart.] Nós mostramos que havia sérios problemas com o protocolo, e também falsificação de dados. Quando os controles eram mais cuidadosos, o experimentador não conseguia replicar os resultados. E tem a teoria da homeopatia, nascida há aproximadamente 220 anos, invenção de um certo Samuel Hahnemann. A medicina estava em sua infância. Pessoas pobres que não tinham recursos para pagar médicos se recuperavam mais freqüentemente do que a aristocracia que recebia todo tipo de substâncias, que freqüentemente as matava. Samuel Hahnemann deu água para pessoas pobres e doentes, e ela conteria um agente curativo. Uma vez que essas pessoas não iam a médicos, tendiam a sobreviver, e isso apoiou sua crença no poder curativo de sua água especial. O primeiro princípio da homeopatia é que um extrato de alguma substância em água ajudará na cura. O segundo princípio é que uma solução atenuada, ou diluída, funcionará ainda melhor. Quão diluídas elas são? Se você pegar uma solução e a diluir com 10 partes de água para cada parte da solução original, você tem o que é chamado uma "solução um" 4. Se você pegar uma porção disso e a diluir em 10 partes de água, agora uma parte em 100, essa é uma "solução dois". Se você tiver uma "solução cinco", você tem uma parte em 100.000. Quando chega ao "limite de Avogadro" há uma chance de haver uma molécula na solução. Mais uma diluição e você tem uma chance em 10 de ter uma molécula na solução. Bem, esse pessoal da homeopatia usa soluções de 10 à potência 50 (o número 1 seguido por 50 zeros)! Uma vez que há 10 elevado à potência 23 estrelas no universo conhecido, isso sim é o que eu chamo de diluído. Mas isso não é nada. Eles chegam a 10 à potência 1500!!! Isso é tão diluído que eu não consigo conceber o que 10 elevado a 1500 signifique, então chamei Martin Gardner e pedi um exemplo para ilustrar o número. Ele me ligou de volta e disse que esse é o equivalente de tomar uma grão do arroz, esmagá-lo acima em uma colher de chá, dissolver esse pó em uma esfera de água do tamanho do sistema solar, e a seguir repetir esse processo dois bilhões de vezes!! (Os problemas técnicos de misturar tal solução são óbvios!) O ponto crítico da homeopatia - essa diluição toda - é que cada molécula de água que entra em contato com a água da homeopatia retém a memória dessa água especial! Assim um pouco de substância vai longe. Eu tenho uma pergunta simples da perspectiva de um leigo. Uma vez que a água existe há "bilhões e bilhões de anos", nesse processo ela esteve em contato com cada molécula orgânica e inorgânica na Terra. Se for esse o caso, por que não dar ao paciente água comum de torneira? De fato, essas águas homeopáticas são tão diluídas que médicos homeopatas e cientistas não conseguem sequer perceber a diferença entre água com ferro e água com ouro. Qual é, gente, vamos acordar. Não há nenhuma evidência de que isso funcione, contudo as pessoas continuam a acreditar do mesmo jeito. Eis uma resposta típica, de uma carta escrita por Boaz Robinzon da escola de agronomia: "eu quero que você saiba que não importa o que o comitê de investigação da Nature escreveu, eu ainda estou certo de que o fenômeno observado é real e reprodutível e é somente uma questão de tempo até que se prove que estamos certos". Esse é um exemplo clássico de alguém que não deseja encarar a realidade. Eu tenho viajado o mundo há anos dizendo para as pessoas acordarem. Esse é o meu ramo peculiar. Eu não deveria estar nessa área, mas alguém tem que fazer isso. Algum dia terminará? Provavelmente não, mas talvez com os esforços dos céticos e dos cientistas nós podemos "diluir" um pouco! Obrigado.
Publicado na Skeptic Vol. 1, No. 1, Primavera de 1992, Págs. 22-31. O artigo acima é copyright © 1992 pela Skeptics Society, P.O. Box 338, Altadena, CA 91001, (818) 794-3119. O ensaio é uma transcrição de uma apresentação oral feita sem notas ou texto na sessão inaugural da série de palestras da Skeptics Society na Caltech em 12 de Abril de 1992. Porque as palavras escrita e falada diferem tanto, o texto foi levemente editado. Notas 1 - Em português a mesma palavra mágico expressa tanto o artista como um fenômeno genuíno; em inglês, a palavra magician corresponde em ambos os sentidos, mas conjurer se aplica somente ao artista. Voltar 2 - Déjà vu é a sensação que algumas pessoas tem de já ter visto determinada cena ou situação antes, exatamente como está vendo no exato momento. Voltar 3 - Rabdomantes são pessoas que afirmam detectar água ou outros materiais no solo usando pêndulos ou bastões de madeira ou metal. Voltar 4 - Este é evidentemente um descuido de Randi ou um erro de transcrição. O correto seriam 9 porções de água, e não 10. Voltar Comentários
Daniel Sottomaior - Sottomaior@str.com.br -
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