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de Carl Sagan
Muitas pessoas pareciam ver discos voadores: sóbrios pilares da comunidade, policiais, militares, pilotos comerciais. E - à parte alguns pigarros e risadinhas - eu não conseguia encontrar nenhum contra-argumento. Como poderiam todas essas testemunhas oculares estar erradas? E mais, os discos tinham sido detectados em radar e fotografados. Você podia ver as fotos em jornais e revistas. Havia até relatos sobre discos que caíam e pequenos alienígenas com dentes perfeitos que jaziam duros nos congeladores da aeronáutica. Na faculdade, nos começo dos anos 50, eu comecei a aprender um pouco sobre como a ciência funciona - os segredos do seu enorme sucesso: quão rigorosos os padrões de evidências devem ser caso realmente desejemos saber se algo é verdadeiro; quantos falsos começos e becos sem saída flagelaram o pensamento humano; como nosso viés pode tingir nossa interpretação das evidências; como os sistemas de crenças amplamente aceitos e apoiados pelas hierarquias políticas, religiosas e acadêmicas acabam freqüentemente se mostrando não só ligeiramente enganados mas grotescamente errados. Tudo se articula na questão das evidências. Em questões importantes como os OVNIs, a evidência deve ser à prova de furos. Quanto mais queremos que seja verdadeira, mais cuidados devemos ter. Nenhum porque-eu-disse de uma testemunha é suficiente. As pessoas se enganam. Elas pregam peças. Elas distorcem a verdade pelo dinheiro, atenção ou fama. As pessoas às vezes interpretam mal o que vêem. Às vezes elas até mesmo vêem coisas que não existem. Essencialmente todos os casos de OVNIs eram histórias - algo que alguém disse. A maior parte das pessoas relatou honestamente o que viu, mas freqüentemente eram fenômenos naturais - ainda que pouco convencionais. Alguns avistamentos de OVNIs mostraram ser aeronaves pouco convencionais; aviões convencionais com padrões incomuns de iluminação; balões de grandes altitudes; insetos luminescentes; planetas vistos sob circunstâncias atmosféricas incomuns; miragens e distorções; nuvens lenticulares; relâmpagos globulares; parélios; meteoros, incluindo bolas de fogo verdes; e satélites, cones de nariz e foguetes de propulsão auxiliares fazendo sua reentrada espetacular na atmosfera (existem tantos satélites artificiais lá em cima que eles estão sempre fazendo aparições vistosas em algum lugar no mundo. Todo dia caem dois ou três na atmosfera, criando destroços em chamas freqüentemente visíveis na Terra a olho nu.). Concebivelmente, alguns podem ser pequenos cometas que se desfazem na atmosfera superior. Pelo menos algumas detecções por radar foram devidos a propagação anômala - ondas de rádio em trajetórias curvas devido às inversões de temperatura atmosféricas. Você poderia ter avistamentos simultâneos por radar e visualmente sem haver nenhum "ali" ali. Havia a suspeita de que a área atraiu piadistas e charlatães. Muitas fotos de OVNIs acabaram descobertas como falsificações - modelos reduzidos pendurados em fios delgados, freqüentemente fotografados em exposição dobrada. Um OVNI visto por milhares de pessoas em um jogo de futebol era somente uma peça de um centro acadêmico universitário - um pedaço de papelão, algumas velas e um fino saco plástico desses de lavagem a seco, tudo junto para fazer um balão rudimentar de ar quente. Como são modestas nossas expectativas sobre alienígenas - e como são baratos os padrões de evidência que muitos estão dispostos aceitar - é demonstrado na saga dos "círculos nas plantações". Fazendeiros ou simples passantes descobriam pictogramas criados em campos de trigo, aveia, cevada ou canola. Começando com círculos simples, relatados primeiramente no sul da Inglaterra em meados dos anos 70, o fenômeno progrediu ano a ano. No fim dos anos 80 e começo dos anos 90, o interior do país era agraciado com imensas figuras geométricas, algumas do tamanho de campos de futebol, criados antes da plantação - círculos tangentes entre si ou conectados por uma linha central, linhas paralelas que se curvam para fora, os "insetóides". Alguns dos padrões tinham um círculo central cercado por quatro círculos menores simetricamente colocados - claramente, concluiu-se, causado por um disco voador e suas quatro hastes de apoio. Um truque? Quase todos disseram que era impossível: havia centenas de casos. Era feito às vezes somente em uma hora ou duas no escuro da noite, e em uma escala muito grande. Não se encontrou nenhuma pegada dos piadistas levando até ou saindo dos pictogramas. Além disso, que motivo haveria para um truque? Pessoas com algum treinamento científico examinaram locais, deram argumentos, criaram jornais inteiros voltados para o assunto. As figuras eram causadas por estranhos redemoinhos chamados "vórtices colunares", ou outros ainda mais estranhos chamados "vórtices anelares"? E que tal relâmpagos globulares? Mas as explicações meteorológicas ou elétricas ficaram mais carregadas, especialmente à medida que as figuras se tornaram mais complexas. Claramente, eram o trabalho de OVNIs, os alienígenas se comunicando conosco em uma língua geométrica. Ou talvez fosse o diabo, ou a há muito sofrida Terra queixando-se sobre as depredações sobre ela deitadas pela mão do homem. Turistas da nova era vieram em bandos. Vigílias de noite inteira foram empreendidas pelos entusiastas equipados com gravadores e câmeras de infravermelho. As mídias impressa e eletrônica do mundo inteiro seguiam os passos dos "intrépidos cerealogistas". Best-sellers sobre os extraterrestres que faziam marcas em campos de plantação eram comprados por um público que perdia o fôlego de admiração. É verdade, nenhum disco chegou a ser visto no trigo, nenhuma figura geométrica foi filmado enquanto era gerada. Mas os radiestesistas autenticaram sua origem alienígena, e canalizadores fizeram contato com as entidades responsáveis. A "energia Orgone" foi detectada dentro dos círculos. Fazia-se perguntas no parlamento britânico. A família real chamou para consulta especial o lorde Solly Zuckerman, antigo conselheiro científico principal no ministério da defesa. Dizia-se que fantasmas estavam envolvidos, e também os Cavaleiros Templar de Malta e outras sociedades secretas. O ministério da defesa estaria encobrindo o caso. Alguns círculos mal feitos e deselegantes foram julgados como tentativas das forças armadas de tirar o público da pista certa. A imprensa tablóide se esbaldou. O Daily Mirror contratou um fazendeiro e seu filho para fazer cinco círculos na esperança de fazer um tablóide rival de Londres, o Daily Express, relatar a história. O Express, ao menos nesse caso, não caiu no golpe. As organizações "cerealógicas" cresceram e dividiram-se. Grupos rivais mandavam versos maldosos uns aos outros. As acusações eram de incompetência ou coisas piores. O número de círculos subiu para a casa de milhares. O fenômeno se espalhou para os Estados Unidos, Canadá, Bulgária, Hungria, Japão, Holanda. Os pictogramas, especialmente os mais complexos, começaram a ser citados cada vez mais freqüentemente como argumentos evidenciando visitas alienígenas. Conexões foram feitas com o 'rosto' em Marte. Um cientista conhecido meu escreveu-me que havia matemática extremamente sofisticada escondida nestas figuras; só poderia ser o resultado de uma inteligência superior. De fato, uma coisa na qual quase todos os cerealogistas concordavam era que as últimas figuras eram demasiado complexas e elegantes para serem devidas à mera intervenção humana, quanto mais a alguns charlatães irresponsáveis e desleixados. A inteligência extraterrestre era visível à primeira vista. Doug Bower e Dave Chorley, dois sujeitos de Southampton, anunciaram em 1991 ter feito figuras nos campos por 15 anos. Eles tiveram a idéia tomando cerveja uma noite no pub que freqüentavam, o Percy Hobbs. Eles tinham achado graça nos relatos de OVNIs e pensado que poderia ser divertido satirizar os crédulos em relação a OVNIs. No começo, aplainavam o trigo com a barra de aço pesada que Bower usava como um dispositivo de segurança na porta traseira de sua loja de molduras de fotos. Depois, usaram pranchas e cordas. Seus primeiros trabalhos levaram somente alguns minutos. Mas, sendo piadistas inveterados assim como artistas sérios, o desafio para eles começou a crescer. Aos poucos, projetaram e executaram figuras cada vez mais exigentes. No princípio, ninguém parecia notar. Não haviam relatos na imprensa. Sua arte fora negligenciada pela tribo dos ufólogos. Eles estavam à beira de abandonar os círculos para mudar para algum outro truque mais recompensador emocionalmente — quando, de repente, os círculos 'pegaram'. Bower e Chorley adoraram, especialmente quando cientistas e outras pessoas começaram a anunciar seu veredito de que nenhuma inteligência meramente humana poderia ser responsável por aquilo. Cuidadosamente, planejaram excursões noturnas mais elaboradas, às vezes seguindo diagramas meticulosos preparados em tinta guache. Eles acompanhavam de perto seus intérpretes. Quando um meteorologista local deduziu um tipo de redemoinho porque todas os círculos foram curvados em sentido horário, confundiram-no fazendo uma figura nova com um anel exterior no sentido anti-horário. Logo outras figuras apareceram no sul da Inglaterra e em outros lugares. Tinham aparecido piadistas sem imaginação. Bower e Chorley mandaram uma mensagem em resposta no trigo: "NÓS NÃO ESTAMOS SOZINHOS". Mas algumas pessoas a consideraram uma mensagem genuinamente extraterrestre (embora fose mais adequado se estivesse escrito "VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHOS"). Doug e Dave começaram a assinar seus trabalhos de arte com os dois dês; mesmo isto foi atribuído a uma finalidade alienígena misteriosa. Os sumiços noturnos de Bower despertaram as suspeitas de sua esposa, Ilene. Foi com grande dificuldade - Ilene acompanhou Dave e Doug uma noite e se juntou aos crédulos na admiração do trabalho no dia seguinte - que ela se convenceu de que suas ausências eram inocentes, pelo menos no sentido conjugal. Bower e Chorley acabaram se cansando da peça cada vez mais elaborada. Mesmo estando em excelentes condições físicas, ambos estavam na casa dos sessenta anos e um pouco velhos para operações noturnas nas plantações de fazendeiros desconhecidos, e freqüentemente pouco simpáticos. Talvez tenham se irritado com a fama e o dinheiro daqueles que somente fotografaram sua arte e anunciavam que os artistas eram alienígenas. E se preocuparam com o fato de que, se demorassem demais, ninguém acreditaria neles. Então eles confessaram. Mostraram para os repórteres como fizeram mesmo os padrões mais elaborados de insetóides. Talvez você pense que nunca mais alguém diria que é impossível manter uma farsa por muitos anos, e que nunca mais se ouviria que ninguém poderia ter motivos para iludir os crédulos e levá-los a pensar que alienígenas existem. Mas a mídia prestou atenção por pouco tempo. Cerealogistas disseram para ir com calma - afinal de contas, privavam muitas pessoas do prazer de imaginar coisas fantásticas. Desde então, outros falsificadores dos círculos nas plantações continuaram com o serviço. Como sempre, a confissão de fraude nem se compara ao prolongado entusiasmo inicial. Muitos escutaram sobre os pictogramas nas plantações e sua alegada conexão com OVNIs, mas têm um branco quando os nomes de Bower e de Chorley - e a prória idéia de que a coisa toda fosse uma farsa - são levantados. Um desmascaramento bastante informativo, escrito pelo jornalista Jim Schnable, foi impresso (Round in Circles, Prometheus Books, 1994). Schnable, que dá um relato em primeira mão da história inteira, foi um dos primeiros se juntar aos cerealogistas e no fim acabou fazendo ele mesmo alguns pictogramas bem sucedidos (ele prefere um rolo do jardim a uma prancha de madeira, e descobriu que simplesmente pisar nas plantas dá um resultado aceitável). Mas o trabalho de Schnabel, que um crítico chamou de "o livro o mais engraçado que li nos últimos muitos anos" teve somente um modesto sucesso. Alienígenas vendem. Fraudes são chatas e de mau gosto. Os princípios do ceticismo não requerem nenhum diploma avançado, como demonstram a maioria de compradores bem sucedidos de carros usados. A idéia de uma aplicação democrática do ceticismo é que todos devem ter as ferramentas essenciais para avaliar reivindicações ao conhecimento de maneira eficaz e construtiva. A ciência só pede que se empregue os mesmos níveis de ceticismo que usamos ao comprar um carro usado ou julgar a qualidade de analgésicos ou cerveja a partir dos comerciais da tevê. Mas as ferramentas do ceticismo geralmente não estão disponíveis aos cidadãos de nossa sociedade. Elas quase nunca são mencionadas nas escolas, mesmo nas apresentações de cientistas - seus praticantes mais ardentes - embora o ceticismo brote espontaneamente das múltiplas decepções da vida diária. Nossa política, economia, propaganda e religiões (nova e velha era) estão ensopadas de credulidade. Quem tem algo a vender, quem deseja influenciar a opinião pública, quem está no poder, sugeriria um cético, tem um interesse velado em desencorajar o ceticismo.
Publicado na Revista Parade (The Baltimore Sun); Domingo, 3 de Dezembro de 1995. Págs. 10-12, 17. Referências:
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