Isaac Asimov
 
 
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Atualizado: 04/05/2002
   
                     
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CAPÍTULO 16 "MEU LANÇA-DÚVIDAS EMBUTIDO"
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de Isaac Asimov


Capítulo 16 -- "Meu Lança-Dúvidas Embutido" (página 184)

Certa vez eu fiz uma apresentação a uma pequena mas seleta audiência de não-cientistas sobre "O que é ciência?" falando seriamente e, espero, inteligentemente.

Depois da palestra veio o período de perguntas e, ainda bem, não me desapontei. Uma bela jovem na frente acenou uma bela mãozinha e fez não uma pergunta séria sobre a natureza da ciência, mas "Dr. Asimov, o senhor acredita em discos voadores?"

Com um sorriso imóvel no rosto, dei a resposta que tenho sempre dado depois de toda palestra que faço. "Não, não acredito, e qualquer um que acredite é um doido!"1

E a surpresa no rosto dela!

Como eu às vezes escrevo ficção científica, me parece que todo mundo dá como certo que eu acredito em discos voadores, em Atlantis, em clarividência e levitação, nas profecias da Grande Pirâmide, em astrologia, nas teorias de Fort e na sugestão de que Bacon escreveu as obras de Shakespeare.

Ninguém jamais pensaria que alguém que escreve histórias para crianças em idade pré-escolar realmente acha que coelhos falam, ou que um escritor de histórias de detetives durões realmente acha que um homem pode beber dois litros de uísque em cinco minutos, e depois fazer amor com duas garotas nos cinco minutos seguintes, ou que um escritor de revistas femininas realmente ache que a virtude sempre triunfa e que a secretária sempre se casa com o chefe bonito - mas um escritor de ficção científica aparentemente deve acreditar em discos voadores.

Bem, eu não acredito.

De fato, uma vez escrevi uma história sobre discos voadores na qual expliquei sua existência bastante logicamente. Também escrevi uma história na qual a levitação tinha algum papel.

Se eu posso me juntar a tais idéias por tempo o suficiente para escrever histórias sóbrias e razoáveis sobre elas, então por que as rejeito tão definitivamente na vida real?

Posso explicar através de uma história. Um bom amigo meu certa vez passou um bom tempo tentando me convencer da verdade e validade do que eu considerava pseudociência, e má pseudociência. Eu sentei, escutei tudo petrificado, e nenhuma das evidências e exemplos e provas citados teve o menor efeito em mim.

Por fim ele me disse, muito incomodado: "Droga, Isaac! O seu problema é que você tem um lança-dúvidas embutido."

Ao que a única resposta que consegui dar foi um "graças a Deus", do fundo do coração.

Se um cientista tem algum equipamento temperamental que é essencial ao seu trabalho, é o do lança-dúvidas embutido. Antes de fazer qualquer coisa, ele precisa duvidar. Ele precisa duvidar do que os outros lhe dizem, do que ele lê em livros de referência e, acima de tudo, do que seus próprios experimentos lhe dizem e do que sua própria lógica lhe diz.

Essa dúvida evidentemente deve existir em vários graus. É impossível, antiprático e inútil ter uma dúvida máxima constante. Não se pode (e não se quereria) checar pessoalmente cada número ou observação de um manual ou monografia antes de utilizá-los e depois checar e rechecar até morrer. Mas, se não surge nenhum problema e nada mais parece errado, deve-se estar preparado para dizer "Bem, agora me pergunto se os dados que tirei do 'Manual muito científico confiável garantido mesmo' não poderiam ser um erro de impressão."

Duvidar inteligentemente requer, portanto, algum reconhecimento da confiabilidade de uma fonte. Também requer uma estimativa vaga da natureza da afirmação. Se você me dissesse que tem um vidro com meio quilo de óxido de titânio puro, eu diria "ótimo", e pediria um pouco emprestado se eu precisasse. Eu nem testaria. Simplesmente aceitaria a pureza do material pela sua palavra (ou pelo menos até segunda ordem).

Se você me dissesse que tem um vidro de óxido de túlio puro, eu diria, com muito espanto: "Tem? Onde?" E se eu tivesse algum uso para ela, eu iria querer fazer alguns testes e mesmo colocar uma amostra em uma coluna de troca iônica antes de usá-la.

E se você me dissesse que tem um vidro com meio quilo de óxido de amerício puro, eu diria "você está louco", e iria embora. Sinto muito, mas meu tempo 'razoavelmente valioso, e eu não considero que essa afirmação tenha chance de validade suficiente sequer para me fazer ir à sala ao lado olhar a garrafa.

O que estou tentando dizer é que duvidar é muito mais importante para o avanço da ciência do que acreditar e que, além disso, duvidar é uma coisa muito séria que requer vasto treinamento para ser manipulada adequadamente. Pessoas sem treinamento em uma dada área não saberiam do que duvidar e do que não duvidar; ou, ao contrário, o que acreditar e o que não acreditar. Sinto muito por não ser democrático, mas a opinião de um homem não é tão boa quanto a de qualquer outro.


É verdade que eu me sinto pouco à vontade ao parecer reverenciar a autoridade desse jeito. Afinal de contas, todos vocês conhecem exemplos em que as autoridades estavam erradas. Vejam Colombo, dirão vocês. Vejam Galileu.

Eu sei deles, e de outros também. Sendo um diletante em história da ciência, posso lhes fornecer exemplos horríveis dos quais vocês nunca ouviram falar. Posso citar o caso de Rudolf Virchow, cientista alemão que no meio do século dezenove foi responsável por importantes avanços em antropologia e praticamente foi o pai da patologia. Ele foi o primeiro homem a fazer pesquisas científicas sobre câncer. No entanto, ele fechou questão contra a teoria da origem microbiana das doenças proposta por Pasteur. Muitos outros fizeram o mesmo, mas um a um os oponentes abandonaram a dúvida à medida que as evidências cresciam. Mas não Virchow. Ao invés de admitir que estava errado, e Pasteur certo, Virchow desistiu completamente da ciência e entrou na política. Quão mais errada que isso poderia estar a Autoridade Teimosa?

Mas esse é um caso muito excepcional. Consideremos um exemplo bem mais normal e natural de autoridade errada.

O exemplo tem a ver com um jovem estudante de química sueco, Svante August Arrhenius, que estava trabalhando em seu doutorado na Universidade de Uppsala na década de 1880. Ele estava interessado em pontos de congelamento de soluções porque algumas coisas estranhas apareceram.

Quando se dissolve sacarose (açúcar de mesa comum) em água, o ponto de congelamento da solução é um pouco mais baixo que o da água pura. Dissolvendo mais sacarose, o ponto de congelamento cai ainda mais. Pode-se calcular quantas moléculas de sacarose por centímetro cúbico de água devem ser dissolvidas para gerar uma determinada queda do ponto de congelamento. Descobriu-se que esse mesmo número de moléculas de glucose (açúcar de uva) e de muitas outras substâncias gera aproximadamente a mesma queda. Não importa que a molécula de glucose tenha o dobro de tamanho da molécula de glucose. O que conta é o número de moléculas, e não o seu tamanho.

Mas quando se dissolve cloreto de sódio (sal de cozinha) em água, o ponto de congelamento por molécula é o dobro do normal. E isso vale para outras substâncias também. Por exemplo, cloreto de bário, quando dissolvido, gera uma queda no ponto de congelamento três vezes maior do que a normal.

Arrhenius se perguntou se isso significava que quando o cloreto de sódio se dissolvia, cada uma de suas moléculas se quebrava em duas, gerando o dobro de partículas e portanto dobrando a queda do ponto de congelamento. E o cloreto de bário poderia se quebrar em três partículas por molécula. Uma vez que o cloreto de sódio é composto de um átomo de sódio e um de cloro, e que o cloreto de bário é formado de um átomo de bário e dois de cloro, o passo lógico seguinte era supor que essas moléculas em particular se dividiam em átomos individuais.

Também havia um outro fato interessante. As substâncias como sacarose e glucose que davam uma queda normal do ponto de congelamento, não conduziam corrente elétrica em solução. As moléculas como os cloretos de sódio e de bário, que levavam a quedas anormalmente altas do ponto de congelamento, conduziam.

Arrhenius se perguntou se os átomos, nos quais a molécula se quebrava quando em solução, não poderiam carregar cargas positivas e negativas. Se o átomo de sódio carregava, por exemplo, uma carga positiva, ele seria atraído pelo eletrodo negativo. Se o átomo de cloro carregava uma carga negativa, seria atraído pelo eletrodo positivo. Cada um vaguearia em uma direção própria e o resultado líquido seria uma corrente elétrica. Para esses átomos carregados e errantes, Arrhenius adotou o nome dado por Faraday de "íons", de uma palavra grega significando "errante".

Além disso, um átomo carregado, ou íon, não teria as mesmas propriedades de um átomo não carregado. Um átomo de cloro carregado não seria um gás que borbulharia na solução. Um átomo carregado de sódio não reagiria com água para formar hidrogênio. Era por essa razão que o sal comum (cloreto de sódio) não mostrava as propriedades nem do sódio metálico nem do gás cloro, embora fosse composto por esses elementos.

Em 1884, Arrhenius, então aos 25 anos, preparou suas teorias na forma de uma tese e a apresentou como parte de sua dissertação de doutorado. A banca examinadora mostrou uma dura rejeição. Ninguém havia ouvido falar de átomos eletricamente carregados, era contra todas as crenças científicas da época, e eles ligaram seus lança-dúvidas embutidos.

No entanto, Arrhenius argumentou tão claramente e, através da única hipótese da dissolução de moléculas em átomos carregados, conseguiu explicar tanta coisa tão bem, que os lança-dúvidas dos professores não alcançaram o nível exigido para reprovar o jovem. Ao invés disso, o aprovaram - com a nota de aprovação mais baixa possível.

Mas dez anos depois o elétron negativamente carregado foi descoberto e se descobriu que o átomo não era aquela coisa indivisível que se imaginava mas uma complexa montagem de partículas anda menores. De repente, a noção de íons como átomos carregados fazia sentido. Se um átomo perdesse um ou dois elétrons, ficava com carga positiva; se os ganhava, ficava com carga negativa.

Na década seguinte surgiram os prêmios Nobel e em 1903 o prêmio de química foi concedido a Arrhenius por aquela mesma tese que, 19 anos antes, mal lhe concedeu um doutorado.

Os examinadores estavam errados? Olhando para trás, podemos ver que sim. Mas em 1884 eles não estavam errados. Eles fizeram exatamente a coisa certa e serviram bem à ciência. Cada professor deve escutar e avaliar dúzias de idéias novas todo ano. Ele deve receber cada uma delas com o grau de dúvida que sua experiência e treinamento lhe dizem que a idéia merece.

A noção de Arrhenius encontrou a medida certa de dúvida. Era radical o suficiente para que fosse mantida a uma distância segura. No entanto, parecia ter o exato mérito suficiente para valer algum reconhecimento. Afinal de contas, os examinadores lhe concederam seu título de doutor. E outros cientistas da época prestaram atenção e pensaram a respeito. Um dos grandes, Ostwald, pensou nela o suficiente pra oferecer um emprego a Arrhenius.

Depois, quando as evidências adequadas surgiram, a dúvida recuou para níveis mínimos e Arrhenius recebeu grande reconhecimento.

O que poderia ser melhor? Os professores deveriam ter derretido no ato por Arrhenius e sua teoria? Em caso positivo, por que não teriam também se derretido pelas mais de quarenta e nove outras teorias apresentadas naquele ano, nenhuma das quais pareceria muito mais improvável do que a de Arrhenius e algumas das quais pareciam ainda mais improváveis?

Levaria mais tempo para a teoria iônica se estabelecer se a credulidade excessiva dos cientistas os tivesse levado a cinqüenta becos sem saída. Quantos cientistas sobrariam para investigar as noções de Arrhenius?

A mão-de-obra científica é limitada demais para investigar tudo que ocorre a todos, e sempre será limitada demais. O avanço da ciência depende de os cientistas em geral se manterem firmemente na direção de máximo retorno possível. E o único mecanismo que os fará manter-se nessa direção é a dúvida, a dúvida proveniente de um bom, saudável e ativo lança-dúvidas embutido.


Mas, você poderia dizer, o problema é outro. Não se poderia escolher e isolar os brilhantes dos imbecis, aceitando de imediato apaixonadamente os primeiros, e rejeitando completamente o resto? Isso não teria economizado dez anos aos íons sem que se perdesse tempo com outras noções?

Claro, se fosse possível. Mas não é. O poder divino de distinguir o bom do ruim, o útil do inútil, o verdadeiro do falso, instantaneamente e in toto pertence aos deuses e não aos homens.

Deixe-me citar Galileu como exemplo; Galileu, que foi um dos maiores gênios científicos de todos os tempos, que na verdade inventou a ciência moderna, e que certamente sofreu perseguição e inimizade das autoridades.

Claro, especialmente Galileu seria inteligente o suficiente para reconhecer uma boa idéia quando a visse, e revolucionário o suficiente para não se intimidar pelo fato de ela ser radical.

Bem, vejamos. Em 1632 Galileu publicou o trabalho que coroou sua carreira, Diálogo sobre os Dois Sistemas Principais do Mundo, que era o livro que o deixou em sérios apuros perante a Inquisição. Ele falava, como mostra o título, de dois sistemas principais: o de Ptolomeu, que tinha a Terra no centro do universo com planetas, Sol e Lua em torno dela em complicados sistemas de círculos dentro de círculos; e o de Copérnico, que tinha o Sol no centro e os planetas, Terra e Lua em torno dele em complicados sistemas de círculos dentro de círculos.

Galileu nem sequer mencionou um terceiro sistema, o de Kepler, com o Sol no centro mas sem a mistura de círculos. Ao invés disso, Kepler pôs os planetas em torno do Sol ao longo de elipses, com o Sol em um dos focos da elipse. O sistema correto era o de Kepler e, de fato, o sistema de Kepler não mudou em todo o tempo que se passou desde então. Por que, então, Galileu o ignorou completamente?

Será que Kepler ainda não o tinha desenvolvido? Na verdade, tinha. A visão de Kepler sobre o assunto foi publicada em 1609, vinte e sete anos antes do livro de Galileu.

Será que Galileu não tinha ouvido falar sobre ele? Besteira. Galileu e Kepler mantinham correspondência constante e eram amigos. Quando Galileu construía alguns telescópios extras, mandava um para Kepler. Quando Kepler tinha idéias, ele escrevia para Galileu.

O problema era que Kepler ainda estava preso às noções místicas da idade média. Ele fazia os horóscopos de homens famosos, por uma taxa, e trabalhava dura e seriamente em astrologia. Ele também gastou algum tempo descobrindo as notas exatas formadas pelos vários planetas para formar a "música das esferas" e notou que as notas da Terra eram mi, fá, mi, de miséria, fome e miséria. Ele também desenvolveu uma teoria explicando as distâncias relativas dos planetas ao Sol encaixando os cinco sólidos regulares um dentro do outro e fazendo deduções a partir daí.

Galileu, que devia saber disso tudo, e que não tinha nada de místico, só podia concluir que Kepler, embora bom sujeito, homem brilhante e bom correspondente, era louco de pedra. Tenho certeza que Galileu sabia tudo sobre as órbitas elípticas e, considerando a fonte, nem se deu ao trabalho.

Bem, Kepler era mesmo um louco, mas também calhou de estar luminosamente certo em uma certa coisa, e Galileu, entre todas as pessoas, não conseguiu distinguir o diamante dos pedregulhos.

Devemos rir de Galileu por isso?

Ou deveríamos ser gratos por Galileu não se interessar nas elipses e na astrologia e nos sólidos regulares encaixados e na música das esferas? A credulidade não o levaria a desperdiçar seus talentos, para grande perda de todas as gerações subseqüentes?

Não, não, até que alguma força sobrenatural venha em nossa ajuda e diga aos homens o que é certo e o que é errado, os homens devem continuar tateando da melhor maneira possível, e só o lança-dúvidas embutido de cientistas treinados pode oferecer um refúgio de segurança.

O próprio mecanismo do procedimento científico, construído lentamente ao longo dos anos, é feito para encorajar a dúvida e colocar obstáculos às novas idéias. Nenhuma pessoa recebe crédito por uma nova idéia a menos que a publique para que o mundo toda possa conhecê-la e criticá-la. Também é aconselhável anunciar idéias em trabalhos lidos para colegas em encontros públicos para que se possa destruir o orador cara a cara.

Mesmo depois de anunciada ou publicada, nenhuma observação pode ser aceita antes de ser confirmada por um observador independente, e nenhuma teoria é considerada, na melhor das hipóteses, mais do que uma especulação interessante até que seja apoiada por evidências experimentais que tenham sido independentemente confirmadas e que resistam às rígidas dúvidas de outros no campo.

Tudo isso nada mais é do que montar um sistema de "seleção natural" feito para peneirar os adaptados dos não-adaptados no reino das idéias, de maneira análoga ao conceito de evolução darwiniana. O processo pode ser doloroso e tedioso, como a própria evolução; mas no longo prazo ele dá resultados, como a evolução. E mais, não consigo enxergar nenhum possível substituto.


Agora quero introduzir um segundo argumento. A intensidade de ativação do lança-dúvidas embutido também é governada por quão bem uma nova observação se encaixa na estrutura organizada da ciência. Se se encaixa bem, a dúvida pode ser pequena; se se encaixa mal, a dúvida pode ser intensa; se ameaça derrubar completamente a estrutura, a dúvida é, e deveria ser, quase insuperável.

A razão para isso é que agora, trezentos anos depois que Galileu fundou a ciência experimental, a estrutura que foi criada pouco a pouco por uma dúzia de gerações de cientistas é tão firme que derrubá-la completamente tem probabilidade que tende a zero.

Você também não precisa apontar a relatividade como um exemplo de uma revolução que derrubou a ciência. Einstein não derrubou a estrutura, ele somente a estendeu, elaborou e melhorou. Einstein provou não que Newton estava errado, mas que estava incompleto. O mundo einsteniano contém o de Newton como um caso especial que funciona para espaços não muito grandes e velocidades não muito altas.

Na verdade, devo dizer que desde a época de Kepler na astronomia, desde a época de Galileu na física, desde a época de Lavoisier na química, e desde a época de Darwin na biologia, nenhuma descoberta ou teoria, por mais revolucionária que tenha parecido, derrubou completamente a estrutura da ciência ou qualquer uma de suas grandes divisões. A estrutura foi somente melhorada e refinada.

O efeito é similar à pavimentação de uma estrada, seu alargamento, a adição de trevos e a instalação de radares para combater o excesso de velocidade. Notem, por favor, que nada disso é equivalente a abandonar a estrada e construir outra em uma direção completamente nova.


Mas consideremos alguns exemplos concretos da vida contemporânea. Uma equipe de geólogos da Universidade de Columbia tem explorado o leito oceânico há anos. Agora descobriram que a mid-Atlantic ridge (uma cadeia de montanhas, percorrendo o Atlântico ao longo do comprimento) tem uma fissura no centro, um profundo quiasma ou fissura. E mais, a fissura circula a África, tem uma perna no oceano Índico e na África oriental, e prossegue pelo Pacífico, tangenciando a costa da Califórnia. É como uma grande rachadura circulando a Terra.

A observação em si pode ser aceita. As pessoas envolvidas eram especialistas treinados e experientes e a conformação é ampla.

Mas por que a fissura? Recentemente um dos geólogos, Bruce Heezen, sugeriu que a fissura pode ser causada pela expansão da Terra.

Essa é certamente uma possibilidade. Se o interior da Terra estivesse se expandindo lentamente, a fina crosta cederia e quebraria como uma casca de ovo.

Mas por que o interior da Terra expandiria? Para fazer isso, ele deveria assumir uma configuração mais solta, tornar-se menos densa; os átomos teriam que se espalhar um pouco. Heezen sugere que o lento enfraquecimento da força gravitacional terrestre ao longo do tempo seria uma maneira de levar àquele efeito. As pressões centrais diminuiriam e os átomos comprimidos do interior se espalhariam.

Mas por que a gravidade terrestre deveria diminuir, a menos que a força da gravidade estivesse diminuindo lentamente com o tempo em todo lugar? Isso merece muita dúvida, pois não há nada na estrutura da ciência que sugira que a força da gravitação deva diminuir com o tempo. No entanto, também é verdade que não há nada na estrutura da ciência que sugira que a força da gravidade possa não diminuir com o tempo.2

Ou tome outro caso. Vi recentemente uma notícia sobre um estudante de oitava série na Carolina do Sul que plantou quatro grupos de feijões em potes de vidro. Um deles estava sempre em ambiente silencioso. Os potes dos outros grupos foram retirados uma hora por dia para serem expostos a algum som; em um caso a jazz, em outro a música séria, e em um terceiro aos barulhos rasgados de motores de carros esporte. O único conjunto de plantas que cresceu bem foi o exposto aos barulhos de motor.

A manchete era: FEIJÕES PODEM OUVIR -- E PREFEREM CORRIDAS DE CARROS A MÚSICA.

Automaticamente, meu lança-dúvidas embutido funciona a todo vapor. Seria possível que a história do jornal fosse somente uma fraude? Não é impossível. A história de fraudes em jornais é tal que é fácil convencer-se de que não se pode acreditar em nada que venha impresso num jornal.

Mas digamos que a história seja verdadeira. A pergunta seguinte é se o jovem sabia o que estava fazendo. Ele tinha experiência suficiente para fazer o barulho do motor a única variável? Havia alguma pequena diferença entre os solos ou suprimento de água que ele não levou em conta?

Por fim, mesmo que se aceite a validade do experimento, o que ele realmente prova? Para o autor da manchete e sem dúvida para todos que lêem o artigo, ele prova que as plantas podem ouvir, que têm preferências e que se recusam a crescer quando se sentem solitárias e negligenciadas.

Essa idéia é tão contrária à atual estrutura científica que o meu lança-dúvidas a desliga imediatamente e carimba: IGNORAR. Mas qual seria uma explicação alternativa que se encaixa razoavelmente bem na estrutura da ciência? O som não é só algo que se ouve, é uma forma de vibração. Poderia ser que as vibrações sonoras agitem algumas pequenas partículas de solo, fazendo com que as plantas absorvam água com mais facilidade, ou que elas deixem íons mais acessíveis ao melhorar a difusão? O ruído natural que envolve as plantas poderia agir assim para promover crescimento? E os ruídos de motor teriam funcionado melhor com uma hora por dia porque eram os mais altos e produziam a vibração mais intensa?

Qualquer cientista (ou estudante de oitava série) que se sinta chamado a experimentar mais deveria tentar vibrações que não produzem som audível; vibrações ultra-sônicas, vibrações mecânicas e assim por diante. Ou também poderia tentar expor a própria planta a vibrações de todos os tipos deixando o solo isolado, ou vice-versa.

O que finalmente me traz aos discos voadores, espiritualismo e afins. As perguntas que faço para mim mesmo são: Qual a natureza das autoridades propondo esses e outros pontos de vista do tipo? e Quão bem essas observações e teorias se encaixam na estrutura estabelecida da ciência?

Minhas respostas são, respectivamente, Muito fraca e Muito mal.

O que me deixa sem nenhum arrependimento no que diz respeito ao meu papel duplo na vida. Se eu arranjo uma boa idéia envolvendo discos voadores e estou com vontade de escrever ficção científica, então é com alegria e prazer que escreverei uma história de discos voadores.

E continuarei a desacreditar deles na vida real.

E se isso for esquizofrenia, façam bom proveito.


Notas

1 - Depois que este artigo foi publicado pela primeira vez, recebi fortes objeções ao uso dessa palavra dos fãs de discos voadores. Permitam-me enfatizar que não tenho a intenção de aplicá-la àqueles que suspeitam que ainda não estamos cientes da significância de todos os fenômenos atmosféricos e que "objetos voadores não-identificados" são, portanto, um razoável objeto de estudo científico. No entanto, o que minha inquiridora e eu queríamos dizer era "disco voador" no sentido de uma espaçonave com homenzinhos verdes de Vênus - ou coisa equivalente. Quem acredita nisso, eu repito, são, em minha opinião, doidos. I.A. Voltar

2 - Na verdade, têm havido especulações cosmológicas (embora não muito convincentes, em minha opinião) que envolvem uma queda constante e muito lenta na constante gravitacional; e existe também a teoria de Kapp, que já descrevi neste livro, que envolve uma força gravitacional terrestre decrescente, sem envolver a constante gravitacional. Voltar

***

Publicado pela Discus Books, Março, 1972, Copyright 1962

Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.aracnet.com/~lewallen/builtindoubter.bml
  • Traduzido por: Daniel Sottomaior
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
    Envie o seu comentário, a sua opinião ou correções na tradução/gramática deste texto!

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