Juan Carlos Cisneros
 
 
Estatísticas Oficiais da STR Publicado: 20/10/2002
Atualizado: 20/10/2002
   
                     
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O INEXPLICÁVEL E O PENSAMENTO MÁGICO
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de Juan Carlos Cisneros


"Os homens crêem que a epilepsia é divina simplesmente porque não a entendem. Mas se chamassem de divino a tudo o que não entendem, então, não haverá final para as coisas divinas".

Hipócrates

Milênios atrás nossos antepassados admiravam-se com um misterioso disco de fogo que erguia-se diariamente através do horizonte. Este passava a maior parte do dia irradiando calor sobre todas as coisas e, finalmente, ocultava-se tão enigmaticamente como surgia. Não menos misterioso, outro disco luminoso seguia ao primeiro e passeava a noite toda lá no alto, rodeado de milhares de pontos cintilantes que desenhavam caprichosas formas, algumas mais inteligíveis que outras.

Qual era a explicação de tudo isso? Como se mantinham no alto esses objetos? Quão longe estavam? Por que se mexiam? Por que nunca se apagavam? Eram simples objetos ou não? Além disso: por que chovia? Por que o raio caía? Por que o fogo ardia? Por que a Terra tremia? Por que o vulcão entrava em erupção? De onde vinha o vento? Por que o furacão acontecia? E também: Por que as sementes brotavam? Por que as crianças nasciam? Por que se as frutas fermentavam? Por que as doenças apareciam? A lista é interminável. E a todos esses fenômenos foi atribuída a categoria de não serem naturais, de serem "algo diferente", algo que não é natural, algo sobrenatural. Algo mágico. Algo digno de admiração ou de temor. De reverencia ou de culto. A curiosidade, a perplexidade e, principalmente, a fantasia humanas perante o incompreensível no mundo que nos rodeia foram o motor para a criação de seres fantásticos e poderosos que seriam os responsáveis por todos os fenômenos que não entendemos. Assim nasceram todos os deuses.

Muito tempo depois, na nossa sociedade moderna, o ser humano não mudou muito. Não se cobre mais com peles de animais selvagens. Agora usa gravata. E é orgulhoso: autodenomina-se "civilizado" para diferenciar-se drasticamente dos seus ancestrais "primitivos". Interpretaria como um insulto severo ser comparado a um troglodita. Contudo, a sua visão do mundo que o rodeia sobrevive intacta, já que continua atribuindo tudo aquilo que é inexplicável -e muitas vezes até o explicável- ao trabalho de algum deus. Persiste em colocar apressadamente adjetivos tais como "miraculoso", "paranormal" ou "divino" em tudo aquilo que não entende -ou que ainda não entende- ao invés de simplesmente admitir que não é capaz de entender. Apesar de todos os avanços no conhecimento do nosso mundo o ser humano moderno insiste em atribuir o que ainda não compreende a algum deus, a deuses, a alguma energia especial. Vemos isto todos os dias.

Por exemplo, numa afastada igreja cristã, uma multidão de fieis observa uma estranha mancha formada em uma parede. Nela vêem fervorosamente o "rosto de Jesus". No outro lado do mundo, ao observar o céu noturno, um espectador percebe uma efêmera luz fora do comum. Não demora a atribuí-la à "extraterrestres". Enquanto isso, num hospital próximo, um paciente com uma severa doença e com poucas probabilidades de se recuperar experimenta uma súbita melhora no seu quadro clínico. Seu médico sem poder explicar o ocorrido, encarrega-se de atribui-lo a um "milagre". Fenômenos como estes são invocados diariamente como "provas" da existência de um ou mais deuses.

Não, o ser humano ainda não se libertou da mentalidade dos seus ancestrais. O pensamento mágico persiste em pleno século XXI. De fato, freqüentemente a atitude de explicar cientificamente os fenômenos do mundo que nos rodeia não é bem vista, enquanto esta se opõe às "explicações" espirituais, divinas, místicas, mágicas.

Seria a erupção de um vulcão a prova da existência de algum deus do fogo, que, por sinal, estaria de muito mau-humor? Hoje em dia, a maioria de nós não levaria a sério esta pergunta, pois sabemos o que é um vulcão. Sabemos que trata-se de um fenômeno natural. Milhares de anos atrás, contudo, esta era uma pergunta séria. Para nossos ancestrais, não estava tão claro o que era um vulcão e a sua atividade era um fenômeno mágico, claramente obra de algum deus. O vulcão foi um deus. O que aconteceu com este deus tão temível? Para onde ele foi? Morreu?

É estranho que muitos de nós observemos com humor ou até com arrogância as crenças primitivas, os deuses das tribos selvagens ou do mundo antigo e, no entanto, respeitemos e veneremos solenemente o deus ou os deuses de nossas religiões "modernas" e "civilizadas". Depois de tudo, que diferença há entre Jeová e Zeus? Por acaso o primeiro merece mais respeito do que o segundo? Afinal, não são eles duas facetas do mesmo pensamento mágico?

É dito que a ciência não pode responder a tudo. Para cada pergunta que a ciência responde, formulam-se duas novas. E assim é que quanto mais conhecemos, mais nos damos conta daquilo que ignoramos. Talvez não seja possível compreender tudo no universo. No entanto, todos os dias a ciência explica algo. Todos os dias, algo ilógico se faz lógico. Todos os dias um milagre deixa de ser um milagre. Todos os dias, algo sobrenatural transforma-se em natural. Todos os dias, o trabalho de um deus converte-se em obra da natureza. A superstição e a religião -o mito institucionalizado- retrocedem ante cada avanço da ciência.

É negativo ficarmos paulatinamente sem milagres? É menos belo um mundo compreendido, explicado? É claro que não. Só pode ser valorizado e apreciado aquilo que é conhecido. Conhecer é, antes de tudo, viver sem medo e sem superstição. Descobrir e entender o mundo que nos rodeia é uma experiência gratificante. Uma foto obtida pelo telescópio Hubble é mais bela do que mil mentiras.

Informativo:

  • A publicação foi autorizada pelo autor do ensaio original.
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