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de Juan Carlos Cisneros
Hipócrates Milênios atrás nossos antepassados admiravam-se com um misterioso disco de fogo que erguia-se diariamente através do horizonte. Este passava a maior parte do dia irradiando calor sobre todas as coisas e, finalmente, ocultava-se tão enigmaticamente como surgia. Não menos misterioso, outro disco luminoso seguia ao primeiro e passeava a noite toda lá no alto, rodeado de milhares de pontos cintilantes que desenhavam caprichosas formas, algumas mais inteligíveis que outras.
Muito tempo depois, na nossa sociedade moderna, o ser humano não mudou muito. Não se cobre mais com peles de animais selvagens. Agora usa gravata. E é orgulhoso: autodenomina-se "civilizado" para diferenciar-se drasticamente dos seus ancestrais "primitivos". Interpretaria como um insulto severo ser comparado a um troglodita. Contudo, a sua visão do mundo que o rodeia sobrevive intacta, já que continua atribuindo tudo aquilo que é inexplicável -e muitas vezes até o explicável- ao trabalho de algum deus. Persiste em colocar apressadamente adjetivos tais como "miraculoso", "paranormal" ou "divino" em tudo aquilo que não entende -ou que ainda não entende- ao invés de simplesmente admitir que não é capaz de entender. Apesar de todos os avanços no conhecimento do nosso mundo o ser humano moderno insiste em atribuir o que ainda não compreende a algum deus, a deuses, a alguma energia especial. Vemos isto todos os dias. Por exemplo, numa afastada igreja cristã, uma multidão de fieis observa uma estranha mancha formada em uma parede. Nela vêem fervorosamente o "rosto de Jesus". No outro lado do mundo, ao observar o céu noturno, um espectador percebe uma efêmera luz fora do comum. Não demora a atribuí-la à "extraterrestres". Enquanto isso, num hospital próximo, um paciente com uma severa doença e com poucas probabilidades de se recuperar experimenta uma súbita melhora no seu quadro clínico. Seu médico sem poder explicar o ocorrido, encarrega-se de atribui-lo a um "milagre". Fenômenos como estes são invocados diariamente como "provas" da existência de um ou mais deuses. Não, o ser humano ainda não se libertou da mentalidade dos seus ancestrais. O pensamento mágico persiste em pleno século XXI. De fato, freqüentemente a atitude de explicar cientificamente os fenômenos do mundo que nos rodeia não é bem vista, enquanto esta se opõe às "explicações" espirituais, divinas, místicas, mágicas. Seria a erupção de um vulcão a prova da existência de algum deus do fogo, que, por sinal, estaria de muito mau-humor? Hoje em dia, a maioria de nós não levaria a sério esta pergunta, pois sabemos o que é um vulcão. Sabemos que trata-se de um fenômeno natural. Milhares de anos atrás, contudo, esta era uma pergunta séria. Para nossos ancestrais, não estava tão claro o que era um vulcão e a sua atividade era um fenômeno mágico, claramente obra de algum deus. O vulcão foi um deus. O que aconteceu com este deus tão temível? Para onde ele foi? Morreu? É estranho que muitos de nós observemos com humor ou até com arrogância as crenças primitivas, os deuses das tribos selvagens ou do mundo antigo e, no entanto, respeitemos e veneremos solenemente o deus ou os deuses de nossas religiões "modernas" e "civilizadas". Depois de tudo, que diferença há entre Jeová e Zeus? Por acaso o primeiro merece mais respeito do que o segundo? Afinal, não são eles duas facetas do mesmo pensamento mágico? É dito que a ciência não pode responder a tudo. Para cada pergunta que a ciência responde, formulam-se duas novas. E assim é que quanto mais conhecemos, mais nos damos conta daquilo que ignoramos. Talvez não seja possível compreender tudo no universo. No entanto, todos os dias a ciência explica algo. Todos os dias, algo ilógico se faz lógico. Todos os dias um milagre deixa de ser um milagre. Todos os dias, algo sobrenatural transforma-se em natural. Todos os dias, o trabalho de um deus converte-se em obra da natureza. A superstição e a religião -o mito institucionalizado- retrocedem ante cada avanço da ciência.
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