A Unidade de Feedback (Resposta) ao Ambiente
As crenças nos ajudam a funcionar. Elas guiam nossas ações e aumentam ou reduzem nossas ansiedades. Se agimos a partir de uma crença e ela "funciona" para nós, mesmo sendo falsa, por que a mudaríamos? O feedback, ou retorno, do mundo externo reforça ou enfraquece nossas crenças, mas já que as crenças em si influenciam como o feedback é percebido, as crenças podem se tornar bastante resistentes a informações e experiências contrárias. Se você realmente acredita que ETs raptam pessoas, então qualquer evidência contrária pode ser mascarada por uma explicação supostamente racional — em termos de teorias conspiratórias, ignorância alheia ou o que for.
Como mencionei, crenças falaciosas freqüentemente podem ter mais valor funcional que aquelas baseadas na verdade. Por exemplo, Shelley Taylor, em seu livro Positive Illusions, relata pesquisas que mostram que pessoas suavemente deprimidas freqüentemente são mais realistas a respeito do mundo do que pessoas felizes. Pessoas emocionalmente saudáveis vivem, até certo ponto, construindo crenças falsas — ilusões — que reduzem a ansiedade e auxiliam o bem-estar, enquanto indivíduos deprimidos em certo grau vêem o mundo com mais realismo. Pessoas felizes talvez subestimem as chances de contraírem câncer ou serem mortas, e talvez evitem pensar na realidade última da morte, enquanto pessoas deprimidas podem ser muito mais realistas em relação a essas questões.
Uma maneira importante de checar nossas crenças e percepções é compará-las com as crenças e percepções de outros. Se eu sou o único que interpretou o brilho estranho como uma aparição, é mais provável que eu reconsidere essa interpretação do que se várias outras pessoas tiverem a mesma impressão. Nós freqüentemente procuramos pessoas que concordam conosco, ou escolhemos livros seletivamente para apoiar nossas crenças. Se a maioria duvida de nós, então mesmo sendo somente parte de uma minoria nós podemos trabalhar coletivamente para dissipar a dúvida e achar a certeza. Podemos invocar conspirações e casos abafados para explicar a ausência de evidências confirmatórias. Podemos conseguir inculcar nossas crenças em outros, especialmente crianças. Crenças comuns podem promover solidariedade social e até uma sensação de importância para o indivíduo e o grupo.
Conclusão
As crenças são geradas pela máquina de crenças sem qualquer preocupação automática pela verdade. A preocupação com a verdade é de uma orientação cognitiva adquirida de ordem superior que reflete uma filosofia subjacente que pressupõe uma realidade objetiva que nem sempre é percebida por nossos sentidos.
A máquina de crenças segue fazendo barulho, reforçando velhas crenças, cuspindo novas, raramente descartando alguma. Às vezes vemos os erros ou bobagens nas crenças de outros. Mas é muito difícil ver o mesmo em nossas próprias crenças. Acreditamos em todo tipo de coisas, abstratas e concretas: na existência do sistema solar, de átomos, pizzas, e restaurantes cinco estrelas em Paris. Essas crenças não são diferentes em princípio das crenças em fadas na beira do jardim, em fantasmas em igrejas desertas, em lobisomens, conspirações satânicas, curas milagrosas e assim por diante. Todas elas são similares na forma, todas resultados do mesmo processo, apesar de diferirem muito em conteúdo. Elas podem, contudo, envolver mais ou menos as unidades de pensamento crítico e de resposta emocional.
Pensamento crítico, lógica, razão, ciência — essas são expressões que se aplicam de uma maneira ou de outra à tentativa deliberada de expulsar a verdade da confusão da intuição, percepção distorcida e da memória falível. O verdadeiro pensamento crítico poucas pessoas chegam a aceitar — aquele que não aceita rotineiramente as percepções e memórias. Criações da nossa imaginação e reflexos de nossas necessidades emocionais freqüentemente interferem com ou suplantam a percepção de verdade e realidade. Ensinando e encorajando o pensamento crítico nossa sociedade se afastará da irracionalidade, mas nunca teremos sucesso completo em abandonar tendências irracionais devido à natureza básica da máquina de crenças.
A experiência freqüentemente é uma ferramenta pobre na busca da realidade. O ceticismo nos ajuda a questionar nossas experiências e evitar ser levado a crer no que não é verdadeiro. Devemos tentar nos lembrar das palavras no falecido P. J. Bailey (em Festus: A Country Town): "Onde há dúvida, está a verdade — pois é sua sombra." ("Where doubt, there truth is — 'tis her shadow.")
Comentários
Gustavo Piazza dos Santos - gustavopiazza@mtv.com.br -
Santa Catarina, enviou em 16/05/2001
Achei a tese genial e muito esclarecedora. E gostaria de acrescentar um outro ponto interessante que é a ingenuidade.
As pessoas têm uma nescecidade muito grande, não de acreditar nas estórias, mas nas pessoas que as contam. A primeira reação é a de aceitar. "Por que ele mentiria?" Poucos são os que desconfiam.
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Informativo:
O ensaio base original está disponível em http://www.csicop.org/si/9505/belief.html
Traduzido por: Daniel Sottomaior
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