S.T.R. Publicado: 17/07/2000
Atualizado: 10/08/2000
INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO: SEÇÃO X - DOS MILAGRES

de David Hume


Parte I

Existe, nos escritos do Dr. Tillotson, um argumento contra a presença real, que é tão conciso, elegante e forte como talvez se pode supor qualquer argumento contra uma doutrina que tão pouco digna é de uma séria refutação. Sabe-se de todos os lados, diz o erudito prelado, que a autoridade, da escritura ou da tradição, se funda simplesmente no testemunho dos apóstolos, que foram testemunhas oculares dos milagres do nosso Salvador, pelos quais Ele demonstrou a sua divina missão. Portanto, a nossa evidência a favor da verdade da religião cristã é menor que a evidência em prol da verdade dos nossos sentidos, porque, mesmo nos primeiros autores da nossa religião, ela não era maior; e é óbvio que deve diminuir ao passar deles para os seus discípulos; ninguém pode basear uma tal confiança no seu testemunho como no objeto imediato dos seus sentidos. Mas, uma evidência mais fraca nunca pode destruir uma mais forte; por conseguinte, se a doutrina da presença real estivesse tão claramente revelada na Escritura, seria diretamente contrária às regras do justo raciocínio dar-lhe o nosso assentimento. Contradiz os sentidos, embora tanto a Escritura como a tradição, sobre as quais supostamente se edifica, não tragam consigo tanta evidência como os sentidos, ao considerarem-se meramente como provas externas, e não serem mostradas claramente ao coração de cada um, pela ação imediata do Espírito Santo.

Nada é tão apropriado como um argumento decisivo deste gênero que deve, pelo menos, silenciar o mais arrogante fanatismo e superstição e libertar-nos das suas solicitações impertinentes. Lisonjeio-me a mim próprio por ter descoberto um argumento de natureza semelhante, que, se for exato, constituirá, junto dos sábios e eruditos, um revés duradoiro para todos os gêneros de ilusão supersticiosa e, consequentemente, será útil enquanto o mundo durar. Pois, tão longas serão, creio eu, as narrativas de milagres e prodígios encontradas na história, sagrada e profana.

Embora a experiência seja o nosso único guia no raciocínio relativo a questões de fato, deve reconhecer-se que um tal guia não é de todo infalível, mas, em alguns casos, é capaz de nos induzir em erro. Alguém que, no nosso clima, esperasse melhor tempo numa semana de Junho do que numa de Dezembro, raciocinaria bem e de acordo com a experiência; mas é claro que, neste caso, talvez venha a enganar-se. No entanto, podemos observar que, em tal caso, ele não teria motivo de se queixar da experiência, porque ela habitualmente nos informa com antecedência da incerteza, em virtude da contrariedade dos eventos que podemos aprender de uma diligente observação. Nem todos os efeitos se seguem com igual certeza das suas supostas causas. Descobre-se que, em todos os países e em todas as épocas, alguns eventos constantemente estiveram conjuntos; de outros vem a saber-se que têm sido mais variáveis e, por vezes, desiludem as nossas expectativas, de modo que, nos raciocínios relativos a questões de fato, há todos os graus imagináveis de segurança, desde a mais elevada certeza até à ínfima espécie de evidência moral.

Por conseguinte, um homem sábio ajusta a sua crença à evidência. Em conclusões como as que se baseiam numa experiência infalível, aguarda o evento com o último grau de firmeza e olha a sua experiência passada como uma plena prova da futura existência desse evento. Noutros casos, avança com mais cautela: pesa os experimentos contrários, considera que aspecto é apoiado pelo maior número de experimentos: para esse lado se inclina com dúvida e hesitação e quando, finalmente, determina o seu juízo, a evidência não ultrapassa o que, convenientemente, denominamos probabilidade. Portanto, toda a probabilidade supõe uma oposição de experimentos e observações, onde se vê que um lado pesa mais do que o outro e gera um grau de evidência proporcional à superioridade. Uma centena de casos ou experimentos de um lado, e cinqüenta do outro, proporcionam uma duvidosa expectativa de qualquer evento, embora cem experimentos uniformes, em que só um é contraditório, produzam justamente um muito forte grau de certeza. Devemos contrabalançar os experimentos opostos em todos os casos onde eles são opostos, e deduzir o número menor a partir do maior, a fim de conhecermos a força exata da evidência superior.

Para aplicarmos estes princípios a um caso particular, devemos observar que não existe nenhuma espécie de raciocínio mais comum, mais útil e até necessária à vida humana, do que a que provém do testemunho dos homens e dos relatos das testemunhas oculares e dos espectadores. Talvez se possa negar que esta espécie de raciocínio se funda na relação de causa e feito. Não irei discutir acerca de uma palavra. Será suficiente observar que a nossa certeza em qualquer argumento deste gênero não provém de outro principio a não ser a nossa observação da veracidade do testemunho humano e da habitual conformidade dos fatos com os relatos das testemunhas. Sendo uma máxima geral que não há objetos alguns que tenham juntamente qualquer conexão detectável, e que todas as inferências, que de um para outro se podem tirar, se fundam unicamente na experiência da sua conjunção constante e regular, é evidente que não devemos abrir uma exceção a esta máxima em favor do testemunho humano, cuja conexão com um evento parece, em si mesma, tão pouco necessária como outra qualquer.

Se a memória não fosse tenaz até um certo grau, se os homens não possuíssem em geral uma inclinação para a verdade e para um princípio de probidade, se não fossem sensíveis à vergonha, quando apanhados numa falsidade - se, digo eu, a experiência não revelasse estas coisas como qualidades inerentes à natureza humana, nunca depositaríamos a menor confiança no testemunho humano. Um homem em delírio, ou conhecido pela falsidade e vileza, não tem nenhuma autoridade junto de nós.

E visto que a evidência, resultante das testemunhas e do testemunho humano, se funda na experiência passada, assim varia ela com a experiência e se considera ou como uma prova ou como uma probabilidade, segundo se viu ser constante ou variável a conjunção entre algum gênero particular de relato e algum gênero de objeto. Há várias circunstâncias que se devem tomar em consideração em todos os juízos desta espécie e o padrão último, pelo qual determinamos todas as disputas que a seu respeito possam surgir, provém sempre da experiência e da observação. Onde tal experiência não é inteiramente uniforme de algum lado, é aguardada com uma inevitável contrariedade nos nossos juízos e com a mesma oposição e mútua destruição de argumento como em todo o outro gênero de evidência. Hesitamos freqüentemente em relação aos relatos dos outros. Contrabalançamos as circunstâncias opostas, que suscitam alguma dúvida ou incerteza, e, ao descobrirmos uma superioridade de algum lado, inclinamo-nos para ela, mas ainda com uma diminuição da certeza, em proporção com a força da sua antagonista.

Esta contrariedade da evidência, no caso presente, pode brotar de várias causas diferentes: da oposição do testemunho contrário; da índole ou do número das testemunhas; da maneira de prestarem o seu depoimento ou da união de todas estas circunstâncias. Albergamos uma suspeita referente a alguma questão de fato, quando as testemunhas se contradizem entre si, quando são poucas ou de caráter duvidoso; quando têm interesse no que afirmam; quando prestam o seu testemunho com hesitação ou, pelo contrário, com asseverações demasiado violentas. Há muitas outras particularidades do mesmo gênero, que podem diminuir ou destruir a força de algum argumento, procedente do testemunho humano.

Suponhamos, por exemplo, que o fato, que o testemunho tenta estabelecer, partilha do extraordinário e do maravilhoso; neste caso, a evidência resultante do testemunho admite uma diminuição, maior ou menor, na proporção em que o fato é mais ou menos inabitual. A razão por que damos algum crédito às testemunhas e aos historiadores não provém de qualquer conexão, que percebemos a priori, entre o testemunho e a realidade, mas porque estamos acostumados a encontrar uma conformidade entre eles. Mas, quando o fato testemunhado é tal que raramente incorreu na nossa observação, existe aqui uma luta de duas experiências opostas, das quais uma destrói a outra, pelo que cabe à sua força, e a superior pode apenas agir sobre a mente mediante a força que resta. O mesmíssimo princípio da experiência, que nos dá um certo grau de certeza no depoimento das testemunhas, dá-nos igualmente, neste caso, outro grau de certeza contra o fato que elas tentam estabelecer; de semelhante contradição surge necessariamente um contrapeso e a mútua destruição da crença e da autoridade.

Não acreditarei em tal história, ainda que me seja dita por Catão era um provérbio em Roma, precisamente durante a vida deste patriota filósofo.1 A incredibilidade de um fato, segundo o consenso geral, podia invalidar uma tão grande autoridade.

O príncipe indiano, que se recusava a acreditar nas primeiras narrativas acerca dos efeitos da geada, raciocinava bem e, naturalmente, foi necessário um testemunho muito forte para originar o seu assentimento a fatos que provinham de um estado da natureza, com que ele não estava familiarizado e que tão escassa analogia tinham com os eventos de que ele possuía uma constante e uniforme experiência. Embora não fossem contrários à sua experiência, não se podiam conformar com ela.2

Mas, a fim de aumentarmos a probabilidade contra o depoimento das testemunhas, suponhamos que o fato por elas afirmado, em vez de ser apenas maravilhoso, é realmente miraculoso e suponhamos igualmente que o testemunho, considerado à parte e em si mesmo, eqüivale a uma prova completa; neste caso, há prova contra prova, das quais deve prevalecer a mais forte, mas ainda com uma diminuição da sua força, em proporção com a da sua antagonista.

Um milagre é uma violação das leis da natureza; e, visto que uma experiência firme e inalterável estabeleceu essas leis, a prova contra um milagre, a partir da autêntica natureza do fato, é tão completa como qualquer argumento a partir da experiência se pode talvez imaginar. Porque é que é mais do que provável que todos os homens devem morrer e que o chumbo, de per si, não pode ficar suspenso no ar; que o fogo consome a madeira e é extinto pela água, a não ser porque se descobre que tais eventos são conformes às leis da natureza e se requer uma violação dessas leis ou, por outras palavras, um milagre, para as impedir? Nada se considera um milagre se sempre acontece segundo o curso ordinário da natureza. Não é milagre que um homem, aparentemente de boa saúde, morra de modo súbito, porque um tal gênero de morte, embora mais inabitual do que outro, tem, no entanto, de acordo com a observação, acontecido muitas vezes. Mas é milagre que um homem morto volte à vida, porque isso nunca se observou em nenhuma época ou país. Por conseguinte, deve haver uma experiência uniforme contra cada evento miraculoso; de outro modo, o evento não mereceria tal designação. E dado que uma experiência uniforme eqüivale a uma prova, existe aqui uma prova direta plena, a partir da natureza do fato, contra a existência de qualquer milagre; nem uma tal prova pode destruir-se ou o milagre tornar-se crível, exceto mediante uma prova contrária, que é superior.3

A conseqüência manifesta é (e constitui uma máxima geral, digna da nossa atenção) 'Que nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a não ser que o testemunho seja de um gênero tal que a sua falsidade seja mais miraculosa do que o fato cujo estabelecimento ele visa; e mesmo neste caso há uma mútua destruição de argumentos, e o superior apenas nos fornece uma certeza adequada ao grau de força que resta, após se deduzir a inferior'. Quando alguém me diz que viu um homem morto restituído à vida, imediatamente para mim penso se será mais provável que essa pessoa ou engane ou esteja enganada, ou que o fato por ela narrado tenha realmente acontecido. Penso um milagre contra o outro e, conforme a superioridade que eu descobrir, proclamo a minha decisão, e rejeito sempre o maior milagre. Se a falsidade do seu testemunho for mais miraculosa do que o evento que ele narra, então, e não até esse momento, pode ele tentar imperar na minha crença ou opinião.

Parte II

No raciocínio precedente, supusemos que o testemunho em que se funda um milagre pode talvez eqüivaler a uma prova completa e que a falsidade de tal testemunho constituiria um real prodígio; mas é fácil mostrar que fomos demasiado liberais na nossa concessão e que nunca houve um evento miraculoso baseado em evidência tão completa.

Em primeiro lugar, não se encontrará, em toda a história, milagre algum testemunhado por um número suficiente de homens, com um bom senso incontestado, educação e erudição tais, que nos protejam de todo o engano em si próprios; de uma integridade tão indubitável que os situe para além de toda a suspeita de intentarem enganar os outros; de tal crédito e reputação aos olhos da humanidade que tenham muito a perder, no caso de virem a ser apanhados em qualquer falsidade; e, ao mesmo tempo, atestando fatos realizados de modo público e numa parte tão celebrada do mundo que tornem inevitável a detecção - eis outras tantas circunstâncias requeridas para nos dar uma plena garantia no testemunho dos homens.

Em segundo lugar, podemos observar na natureza humana um princípio que, se for estritamente examinado, se revelará como extremamente redutor da certeza que, a partir do testemunho humano, poderíamos ter em algum gênero de prodígio. A máxima, pela qual ordinariamente nos orientamos nos raciocínios, é que os objetos, de que não temos experiência, se assemelham àqueles de que temos; que aquilo que descobrimos ser mais usual é sempre o mais provável; e que onde existe uma oposição de argumentos devemos dar a preferência aos que se fundam no maior número de observações passadas. Se bem que, ao procedermos segundo esta regra, rejeitemos com prontidão qualquer fato que é inabitual e incrível em grau normal, contudo, ao avançarmos mais, a mente nem sempre observa a mesma regra; porém, quando se afirma algo de totalmente absurdo e miraculoso, ela mais depressa aceita um tal fato, após a consideração da precisa circunstância que deve destruir toda a sua autoridade. A paixão da surpresa e do espanto, proveniente dos milagres, por ser uma emoção agradável, fornece uma tendência sensível para a crença nos eventos, de que ela brota. E isso vai tão longe que até mesmo os que não conseguem desfrutar imediatamente de tal prazer, nem podem crer nos eventos miraculosos acerca dos quais são informados, gostam, no entanto, de partilhar na satisfação de segunda mão ou por ricochete, e encontram orgulho e prazer em suscitar a admiração dos outros.

Com que voracidade não se recebem os relatos miraculosos dos viajantes, as suas descrições de monstros marinhos e terrestres, as suas narrativas de aventuras maravilhosas, de homens estranhos e de maneiras bizarras? Mas, se o espírito da religião se juntar ao amor dos portentos, acaba o sentido comum e, nestas circunstâncias, o testemunho humano perde todas as pretensões à autoridade. Um beato pode ser um entusiasta e imaginar ver o que não possui realidade; pode saber que a sua narrativa é falsa e, no entanto, perseverar nela com a melhor das intenções do mundo, em vista da promoção de uma causa tão santa; ou mesmo onde esta ilusão não tem lugar, a vaidade, incitada por uma tão forte tentação, atua nele mais poderosamente do que no resto da humanidade em quaisquer outras circunstâncias; e o interesse próprio, com igual força. Os seus ouvintes talvez não tenham, e geralmente não têm, discernimento suficiente para discutir a sua evidência: seja qual for o discernimento que possuam, renunciam a ele por princípio, nestas matérias sublimes e misteriosas ou, se alguma vez o quisessem empregar, a paixão e uma imaginação fogosa perturbam a regularidade das suas operações. A sua credulidade aumenta a impudência e a sua impudência afeta fortemente a credulidade.

A eloquência, quando se encontra na sua máxima culminância, deixa pouco espaço para a razão ou a reflexão; ao dirigir-se inteiramente à fantasia ou às afeições, cativa os ouvintes solícitos e subjuga o seu entendimento. Felizmente, raras vezes atinge tal culminância. Mas o que um Túlio ou um Demóstenes dificilmente podia conseguir de um auditório romano ou ateniense, cada capuchinho, cada mestre itinerante ou estacionário o realiza em toda a humanidade e em grau mais elevado, bulindo com tais paixões grandes e vulgares.

Os muitos exemplos de milagres, profecias e acontecimentos sobrenaturais forjados que, em todas as épocas, ou foram detectados mediante evidência contrária ou se detectam a si devido à própria absurdidade, demonstram suficientemente a forte propensão da humanidade para o extraordinário e o maravilhoso, e deviam justamente levantar uma suspeita contra todas as narrativas deste gênero. É este o nosso modo natural de pensar, mesmo em relação aos eventos mais comuns e mais críveis. Por exemplo, não há nenhum relato que mais facilmente surja e mais rapidamente se espalhe, sobretudo em localidades rurais e em cidades provincianas, do que os relativos a casamentos, a tal ponto que duas pessoas jovens de igual condição nunca se vêem uma à outra mais de duas vezes, mas toda a vizinhança imediatamente as junta. O prazer de referir uma notícia tão interessante, de a difundir e de dela ser o primeiro transmissor, dissemina a inteligência. E tão bem isto se sabe que nenhum homem sensato presta atenção a tais narrativas até as ver confirmadas por uma evidência maior. Não inclinam as mesmas paixões, e outras ainda mais fortes, generalidade da humanidade a acreditar e a difundir, com maior veemência e firmeza, todos os milagres religiosos?

Em terceiro lugar, constitui uma forte suspeita contra todas as narrativas sobrenaturais e miraculosas o fato de com abundância se observarem sobretudo entre nações ignorantes e bárbaras; ou, se um povo civilizado em qualquer ocasião aceitou algumas, ver-se-a que ele as recebeu de antepassados ignorantes e bárbaros, que as transmitiram com a sanção e a autoridade invioláveis que sempre acompanham as opiniões recebidas. Ao lermos atentamente as primeiras histórias de todas as nações, conseguimos transportar-nos em imaginação para um mundo novo, em que toda a estrutura da natureza está desconjuntada e cada elemento realiza as suas operações de uma maneira diferente do que presentemente faz. As batalhas, as revoluções, a pestilência, a fome e a morte nunca são o efeito das causas naturais, que nós experimentamos. Os prodígios, os presságios, os oráculos, os juízos, obscurecem inteiramente os poucos eventos naturais, que com eles se mesclam. Mas, à medida que os primeiros se tornam mais tênues em cada página, em proporção ao nosso avanço em direção às épocas ilustradas, depressa aprendemos que nada há de misterioso ou sobrenatural no caso, mas que tudo provém da habitual propensão da humanidade para o maravilhoso e que, embora esta inclinação possa, esporadicamente, ser verificada pelos sentidos e pela erudição, jamais pode ser perfeitamente extirpada da natureza humana.

É estranho, poderá dizer um leitor sagaz, após a leitura cuidadosa desses portentosos historiadores, que tais eventos prodigiosos nunca aconteçam nos nossos dias. Nada, porém, tem de estranho, espero eu, que os homens mintam em todas as épocas. Certamente, já vimos suficientes exemplos de tal defeito. Ouvimos falar da origem de muitas narrativas maravilhosas que, ao serem tratadas com desdém por todos os sábios e sensatos, acabaram por ser abandonadas mesmo pelo vulgo. Estejamos certos de que essas célebres mentiras, que se espalharam e floresceram até tamanha altura, promanaram de inícios semelhantes; mas, tendo sido semeadas num solo mais adequado, desenvolveram-se por fim em prodígios quase iguais aos que elas referem.

Foi uma sábia linha de conduta a do falso profeta Alexandre, que, embora agora esquecido, foi outrora tão famoso, ao preparar o primeiro palco das suas imposturas na Paflagónia, onde, como nos diz Luciano, os habitantes eram extremamente ignorantes e estúpidos e dispostos a engolir mesmo o mais grosseiro engano. As pessoas vivendo em locais remotos, que são assaz débeis para pensar que valha a pena investigar o assunto, não têm oportunidade de obter uma melhor informação. As histórias surgem-lhes engrandecidas por centenas de circunstâncias. Os patetas são ativos na propagação da impostura, ao passo que os sábios e os eruditos se contentam em geral com escarnecer da sua absurdidade, sem se informarem dos fatos particulares pelos quais ela poderia ser facilmente refutada. E, assim, o impostor acima mencionado conseguiu, desde os ignorantes paflagónios, proceder ao alistamento de sequazes, mesmo entre os filósofos da Grécia e homens da mais eminente posição e distinção em Roma: mais do que isso, conseguiu chamar a atenção do circunspecto imperador Marco Aurélio, ao ponto de o levar a confiar o sucesso de uma expedição militar às suas profecias enganadoras.

São tão grandes as vantagens em originar uma impostura num povo ignorante que, mesmo que o engano seja excessivamente tosco para se impor à generalidade deles (o que, embora raramente, por vezes acontece), tem uma probabilidade muito maior de ser bem sucedida em países remotos do que se o primeiro palco se tivesse preparado numa cidade famosa pelas artes e pelo saber. Os mais ignorantes e broncos desses bárbaros levam a narrativa para o estrangeiro. Nenhum dos seus compatriotas tem uma correspondência ampla ou o crédito e a autoridade suficientes para contradizer e escorraçar o engano. A inclinação dos homens para o maravilhoso tem plena oportunidade de se ostentar. E assim uma história, que está universalmente desacreditada no lugar onde primeiramente surgiu, passara por verdadeira a mil milhas de distância. Mas se Alexandre tivesse fixado a sua residência em Atenas, os filósofos deste famoso centro de saber teriam imediatamente difundido, por todo o império romano, a sua compreensão do fato, o qual, ao ser apoiado por uma tão grande autoridade e exibido por toda a força da razão e da eloquência, teria totalmente aberto os olhos da humanidade. É verdade; Luciano, ao passar acidentalmente pela Paflagónia, teve uma oportunidade de realizar esse bom serviço. Embora seja muito de desejar, nem sempre acontece que a cada Alexandre se depare um Luciano, pronto a revelar e a detectar as suas imposturas.

Posso acrescentar como uma quarta razão, a qual diminui a autoridade dos prodígios, que não existe testemunho para qualquer um, mesmo aqueles que não foram expressamente detectados, que não seja impugnado por um número infinito de testemunhas, de modo que não só o milagre destrói o crédito do testemunho, mas o testemunho se destrói a si mesmo. Para melhor entendermos isto, consideremos que, em matéria de religião, tudo o que for diferente é contrário; e é impossível que as religiões da antiga Roma, da Turquia, de Sião e da China se estabeleçam todas sobre algum fundamento sólido. Por conseguinte, cada milagre pretensamente elaborado em qualquer destas religiões (e todas elas abundam em milagres), assim como o seu escopo direto é estabelecer o sistema particular a que está atribuído, assim tem a mesma força, embora de modo mais indireto, para destruir todos os outros sistemas. Ao eliminar um sistema rival, destrói igualmente o crédito dos milagres em que se fundava esse sistema, de maneira que todos os prodígios das diferentes religiões se devem considerar como fatos contrários e as evidências de tais prodígios, fracas ou fortes, como contrárias entre si. Segundo este método de raciocínio, ao acreditarmos em algum milagre de Maomé ou dos seus sucessores, temos por garantia o testemunho de alguns árabes bárbaros; e, por outro lado, temos de considerar a autoridade de Tito Lívio, de Plutarco, de Tácito e, em suma, de todos os autores e testemunhas, gregos, chineses e católicos romanos, que narraram algum milagre na sua religião particular, temos, digo eu, de olhar o seu testemunho à mesma luz como se eles tivessem mencionado aquele milagre maometano e, em termos expressos, o tivessem contradito, com a mesma certeza que têm em relação ao milagre que narram. Este argumento pode parecer demasiado subtil e refinado, mas, na realidade, não é diferente do raciocínio de um juiz que supõe que o crédito de duas testemunhas, ao afirmarem um crime contra alguém, é destruído pelo depoimento de outras duas, as quais afirmam que ele se encontrava à distância de duzentas léguas no mesmo instante que se diz que o crime fora cometido.

Um dos prodígios melhor atestados em toda a história profana é o que Tácito relata a propósito de Vespasiano, o qual curou um cego em Alexandria por meio da sua saliva, e um coxo mediante um simples toque do seu pé, em obediência a uma visão do deus Serapis, que os intimara a recorrer ao imperador, para essas curas milagrosas. A narrativa pode ler-se neste requintado historiador4, onde cada circunstância parece acrescentar peso ao testemunho, e poderia exibir-se, em geral, com toda a força da argumentação e da eloquência, se alguém estivesse agora interessado em forçar a evidência dessa superstição desacreditada e idólatra, a circunspecção, a sensatez, a idade e a probidade de tão grande imperador que, ao longo de todo o curso da sua vida, conversava familiarmente com os amigos e os cortesãos e jamais afetou os ares extraordinários de divindade assumidos por Alexandre e Demétrio. O historiador, um escritor coevo, conhecido pela sinceridade e veracidade e, ao mesmo tempo, talvez o maior e mais penetrante gênio de toda a antigüidade e, por conseguinte, tão isento de qualquer tendência para a credulidade que ele próprio se encontra sob a imputação contrária de ateísmo e irreverência: as pessoas, de cuja autoridade ele refere o milagre, de reputação estabelecida pelo discernimento e veracidade, como bem podemos presumir; testemunhas oculares do fato e confirmando o seu testemunho, depois que a família dos Flávios foi espoliada do Império e já não podia atribuir recompensa alguma como prêmio de uma mentira. Utrumque, qui interfuere, nunc quoque memorant, posquam nullum mendacio pretium. Se a isto acrescentarmos a natureza pública dos fatos, tal como foram narrados, ver-se-á que nenhuma evidência se pode supor mais forte para tão grosseira e tão palpável falsidade.

Existe igualmente um relato memorável feito pelo cardeal de Retz, que bem merece a nossa consideração. Quando este intrigante político fugiu para Espanha, a fim de evitar a perseguição dos seus inimigos, passou por Saragoça, a capital de Aragão, onde lhe mostraram um homem na catedral, que, durante sete anos, fizera de porteiro e era muito conhecido de toda a gente na cidade, que nessa igreja realizava as suas devoções. Durante muito tempo, fora visto como carecendo de uma perna, mas recuperou esse membro pela fricção de um óleo santo no coto (da perna) e o cardeal garante-nos que o viu com as duas pernas. Este milagre foi atestado por todos os cânones da Igreja e apelou-se a toda a sociedade na urbe para uma confirmação do fato; o cardeal viu que eles, pela sua fervorosa devoção, criam profundamente no milagre. Aqui, o narrador foi também contemporâneo do suposto prodígio, de um caráter incrédulo e libertino, bem como de grande gênio; o milagre era de uma natureza tão singular que dificilmente podia admitir uma contrafação, e as testemunhas muito numerosas e todas elas, de certa maneira, espectadoras do fato de que prestavam testemunho. E o que aumenta poderosamente a força da evidência e talvez duplique a nossa surpresa nesta ocasião é que o próprio cardeal, que faz o relato, parece não lhe atribuir qualquer crédito e, por conseguinte, não pode ser suspeito de cooperar na sagrada fraude. Pensou justamente que não era preciso, para rejeitar um fato de tal natureza, ser-se capaz de refutar com rigor o testemunho e reconstituir a sua falsidade, através de todas as circunstâncias de desonestidade e de credulidade que a fabricaram. Sabia que, assim como isso é, em geral, de todo impossível numa tão pequena distância no tempo e no espaço, assim era extremamente difícil, mesmo quando alguém estava imediatamente presente, em virtude do fanatismo, da ignorância, da astúcia e do embuste de uma grande parte da humanidade. Concluiu, pois, como sensato argumentador, que uma tal evidência trazia na sua própria face a falsidade e que um milagre, apoiado por qualquer testemunho humano, constitui mais um objeto de escárnio do que propriamente de argumento.

Nunca houve certamente um maior número de milagres atribuídos a uma pessoa do que aqueles que, ainda há pouco, se dizia terem sido forjados em França, no túmulo do Abbé Paris, o famoso jansenista, com cuja santidade as pessoas durante tanto tempo foram enganadas. A cura dos doentes, a restituição da audição aos surdos e da vista aos cegos, eis os efeitos habituais desse santo sepulcro, de que em toda a parte se falava. Mas, o que é mais extraordinário é que muitos milagres eram imediatamente comprovados no local, perante juizes de integridade indiscutida, atestados por testemunhas de crédito e distinção, numa época ilustrada e no mais eminente teatro que agora existe no mundo. Nem isto é tudo: uma narrativa deles foi publicada e difundida por toda a parte; nem os jesuítas, apesar de corpo ilustrado, apoiado pelo magistrado civil e adversários decididos das opiniões em cujo favor se forjaram, diz-se, os milagres, os conseguiram distintamente refutar ou detectar.5

Onde encontraremos um tal número de circunstâncias, que concordem na corroboração de um fato? E que temos a opor a uma tal multidão de testemunhas a não ser a absoluta impossibilidade ou a natureza miraculosa dos eventos que elas narram? Aos olhos de todas as pessoas sensatas, considerar-se-á isto, sem dúvida, apenas como uma refutação suficiente.

Será justa a conseqüência, lá porque algum testemunho humano tem a mais elevada força e autoridade em alguns casos, quando narra, por exemplo, a batalha de Filipos ou de Farsália, que, por conseguinte, todas as espécies de testemunho devem, em todos os casos, ter igual força e autoridade? Suponhamos que as facções de César e de Pompeu tinham cada uma delas reivindicado a vitória nessas batalhas e que os historiadores de cada partido tinham uniformemente atribuído a vantagem ao seu próprio lado; como poderia a humanidade, a esta distância, ter conseguido decidir entre elas? É igualmente forte a oposição entre os milagres narrados por Heródoto ou Plutarco e os relatados por Mariana, Beda ou algum historiador monge.

O sábio concede uma fé muito acadêmica a todo o relato que favorece a paixão de quem relata, quer ele engrandeça o seu país, a sua família, quer a si mesmo, ou de qualquer outro modo intervenha com as suas inclinações e tendências naturais. Mas, que maior tentação existe do que surgir como um missionário, um profeta, um embaixador dos céus? Quem não enfrentará muitos perigos e dificuldades, a fim de alcançar uma reputação tão sublime? Ou se, com a ajuda da vaidade e de uma imaginação efervescente, um homem teve primeiro de converter-se e ingressar seriamente na ilusão, quem é que alguma vez tem escrúpulo em se servir de fraudes piedosas em apoio de uma causa tão santa e meritória?

A mais pequena faúlha pode aqui atear-se na maior chama, porque os materiais estão sempre preparados para isso. O avidum genus auricularum,6 a população que olha pasmada, recebe avidamente, sem exame, tudo o que lisonjeia a superstição e fomenta o espanto.

Quantas histórias desta natureza foram, em todas as épocas, detectadas e desmascaradas na sua infância? Quantas mais ainda foram, por um tempo, glorificadas e mergulharam, depois, no abandono e no esquecimento? Por conseguinte, quando tais relatos se dissipam, a solução do fenômeno é óbvia e julgamos em conformidade com a experiência e a observação habitual, quando a explicamos mediante os princípios conhecidos e naturais da credulidade e da ilusão. E, em vez de recorrermos a uma solução tão natural, admitiremos nós uma violação milagrosa das mais certas leis da natureza?

Não tenho necessidade de mencionar a dificuldade em detectar uma falsidade em qualquer história privada ou mesmo pública no lugar onde se diz que ela ocorreu; e muito mais quando a cena é deslocada para uma distância tão pequena. Mesmo um tribunal de judicatura, com toda a autoridade, exatidão e discernimento que pode utilizar, se encontra muitas vezes atrapalhado para distinguir entre a verdade e a falsidade nas ações mais recentes. Mas, o problema nunca terá qualquer solução, se confiado ao método comum de altercações, debate e boatos fugidios, sobretudo quando as paixões dos homens se intrometeram em cada lado.

Na infância de novas religiões, os sábios e letrados consideram habitualmente o assunto demasiado insignificante para merecer a sua atenção ou respeito. E quando, depois, de bom grado detectariam a fraude a fim de desenganarem a multidão iludida, a ocasião já passou e os relatos e as testemunhas, que podiam esclarecer o assunto, morreram irremediavelmente.

Não restam nenhuns meios de detecção, a não ser os que se devem tirar do verdadeiro testemunho de quem relata e estes, embora sempre suficientes junto dos sensatos e conhecedores, são habitualmente demasiado refinados para a compreensão do vulgo.

Em suma, parece, pois, que nenhum testemunho para qualquer gênero de milagre alguma vez eqüivaleu a uma probabilidade, e muito menos a uma prova; e que, mesmo supondo que ele eqüivaleu a uma prova, seria impugnado por outra prova, derivada da própria natureza do fato que ele procuraria estabelecer. Só a experiência é que dá autoridade ao testemunho humano; e é a mesma experiência que nos garante as leis da natureza. Por conseguinte, quando estes dois gêneros de experiência são contrários, nada temos a fazer senão subtrair um do outro e adotar uma opinião, quer de um lado quer do outro, com a certeza que brota do resto. Mas, segundo o princípio aqui explicado, esta subtração, no tocante a todas as religiões populares, eqüivale a uma aniquilação completa; e, por conseqüência, podemos estabelecer como máxima que nenhum testemunho humano pode ter uma força tal que demonstre um milagre e dele faça um sólido fundamento para qualquer sistema de religião.

Peço que se tenham em conta as limitações aqui feitas, quando digo que um milagre nunca pode ser demonstrado de maneira a constituir o fundamento de um sistema de religião. Confesso que, de outro modo, pode talvez haver milagres ou violações do curso habitual da natureza e de um tal gênero que admitam prova a partir do testemunho humano; embora, talvez, seja impossível encontrar um assim em todos os relatos da história. Portanto, suponhamos que todos os autores, em todas as línguas, concordam que, desde o primeiro de janeiro de 1600, houve uma escuridão total em toda a Terra, durante oito dias; suponhamos que a tradição deste evento extraordinário está ainda forte e viva entre os povos; que todos os viajantes, que regressam de países estrangeiros, nos trazem descrições da mesma tradição, sem a menor variação ou contradição; é evidente que os nossos filósofos presentes, em vez de duvidarem do fato, o devem receber como certo e devem investigar as causas de onde ele poderia brotar. A decadência, a corrupção e a dissolução da natureza é um evento tornado provável por tantas analogias que qualquer fenômeno, que parece ter uma tendência para esta catástrofe, entra no âmbito do testemunho humano, se tal testemunho for muito extenso e uniforme.

Mas, suponhamos que todos os historiadores que tratam de Inglaterra acordam que, no primeiro de janeiro de 1600, a rainha Isabel morreu; que, antes e depois da sua morte, ela foi vista pelos seus médicos e por toda a corte, como é usual em pessoas da sua categoria; que o seu sucessor foi reconhecido e proclamado pelo Parlamento; e que, depois de estar enterrada um mês, novamente apareceu, reocupou o trono e governou a Inglaterra, durante três anos. Devo confessar que ficaria surpreendido com a concorrência de tantas circunstâncias estranhas, mas não teria a mínima inclinação para crer num evento tão miraculoso. Não duvidaria da sua pretensa morte e das outras circunstâncias públicas que se lhe seguiram; afirmaria apenas que ela foi simulada e que não foi nem podia talvez ser real. Em vão me objetaríeis a dificuldade e a quase impossibilidade de enganar o mundo em matéria de tanta conseqüência; a sabedoria e o discernimento sólido da famosa rainha, com a pouca ou nenhuma vantagem que ela podia colher de um tão pobre artifício. Tudo isso poderia espantar-me, mas eu ainda replicaria que a desonestidade e a tolice dos homens são fenômenos tão comuns que eu preferia antes pensar que os eventos mais extraordinários derivam da sua concorrência a admitir de tal indício uma violação das leis da natureza.

Mas, suponhamos que este milagre era atribuído a algum novo sistema de religião: os homens, em todas as épocas, têm sido tão enganados por histórias ridículas deste gênero que esta própria circunstância constituiria uma prova plena de uma fraude, e suficiente, para todos os homens de senso, não só para os levar a rejeitar o fato, mas até para o rejeitarem sem mais exame. Embora o Ente a quem se atribui o milagre seja, neste caso, Onipotente, nem por esse motivo ele se torna um pouco mais provável, visto que nos é impossível conhecer os atributos ou ações de tal Ente, a não ser pela experiência que temos das suas produções, no curso usual da natureza. Isso reduz-nos ainda à observação passada e obriga-nos a comparar os casos da violação da verdade no testemunho dos homens com os da violação das leis da natureza pelos milagres, a fim de julgarmos qual delas é mais verosímil e provável. Uma vez que as violações da verdade são mais comuns no testemunho acerca dos milagres religiosos do que no respeitante a qualquer questão de fato (matter of fact), isso deve diminuir muito a autoridade do primeiro testemunho, e levar-nos a tomar uma resolução geral de nunca lhe prestar atenção, seja qual for o simulacro especioso com que ele se oculte.

Lord Bacon parece ter adotado os mesmos princípios de raciocínio. "Devemos - diz ele - fazer uma coleção ou história particular de todos os monstros e nascimentos ou produções prodigiosos e, numa palavra, de todas as coisas novas, raras e extraordinárias na natureza. Mas isso deve fazer-se com o mais severo escrutínio, para não nos afastarmos da verdade. Acima de tudo, deve considerar-se como suspeita toda a narrativa que, de algum modo, depende da religião, como os prodígios de Lívio; e ainda todas as coisas que se encontrarem nos escritores de magia natural ou alquimia, ou de autores semelhantes que, na sua totalidade, parece terem um apetite irreprimível de falsidade e fantasia."7

Comprazo-me muitíssimo no método de raciocínio aqui proposto, porque penso que ele pode servir para confundir os amigos perigosos ou inimigos disfarçados da Religião Cristã, que intentaram defendê-la pelos princípios da razão humana. A nossa santíssima religião está fundada na , não na razão; e é um método seguro de a expor o submetê-la a um tal julgamento, dado que de nenhum modo está preparada para o suportar. Para mais evidente tornarmos isso, examinemos os milagres narrados na Escritura; e, para não nos perdermos num campo demasiado vasto, restrinjamo-nos aos que encontramos no Pentateuco, que escrutinaremos, segundo os princípios dos pretensos cristãos, não como a palavra ou o testemunho do próprio Deus, mas como o produto de um escritor e historiador humano. Temos, pois, aqui de considerar primeiramente um livro, que nos é proposto por um povo bárbaro e ignorante, escrito numa época em que ele era ainda mais bárbaro e, com toda a probabilidade, muito depois dos fatos que narra, não corroborados por nenhum testemunho simultâneo e semelhantes às narrativas fabulosas, que cada nação fornece a propósito da sua origem. Ao lermos este livro, vemo-lo cheio de prodígios e de milagres. Oferece um relato de um estado do mundo e da natureza humana inteiramente diverso do presente; da nossa queda desse estado; da idade do homem, alargada a cerca de mil anos; da destruição do mundo por um dilúvio; da escolha arbitrária de um povo, como o favorito do Céu, sendo esse povo os compatriotas do autor; da sua libertação do cativeiro mediante os mais espantosos prodígios imagináveis. Desejo que cada um ponha a mão sobre o seu coração e, após uma séria consideração, declare se pensa que a falsidade de um tal livro, apoiado por semelhante testemunho, será mais extraordinária e miraculosa do que todos os milagres que ele narra; e, no entanto, eis o que é necessário para o fazer ser acolhido, em conformidade com as medidas da probabilidade acima estabelecidas.

O que dissemos dos milagres pode aplicar-se, sem qualquer variação, às profecias. E, de fato, todas as profecias são milagres reais e só enquanto tais podem admitir-se como provas de alguma revelação. Se o predizer eventos futuros não excedesse a capacidade da natureza humana, seria absurdo empregar qualquer profecia como um argumento para uma missão divina ou autoridade a partir dos céus. Pelo que, em suma, podemos concluir que a Religião cristã não só foi, a princípio, assistida por milagres, mas não pôde, até hoje, ser crida por qualquer pessoa sensata, sem um milagre. A mera razão é insuficiente para nos convencer da sua veracidade; e quem quer que seja movido pela Fé a dar-lhe o seu assentimento, é consciente de um milagre contínuo na sua própria pessoa, que subverte todos os princípios do seu entendimento e lhe dá uma determinação para crer no que é mais contrário ao costume e à experiência.

***

Escrito em 1748.

Notas

1 - Plutarco, Vida de Catão. Voltar

2 - É evidente que nenhum indiano podia ter a experiência de que a água não gela em climas frios. Isso é pôr a natureza numa situação para ele totalmente desconhecida e é-lhe impossível dizer a priori o que dai irá resultar. É realizar um novo experimento, cuja conseqüência é sempre incerta Por vezes, pode conjeturar-se a partir da analogia o que se irá seguir, mas não passa ainda de conjectura. E deve afirmar-se que, no caso presente da congelação, o evento se segue contrariamente às regras da analogia e é de modo a que um indiano racional não o procure. As ações do frio sobre a água não são graduais, segundo os graus do frio, mas, sempre que se atinge o ponto de congelação, a água passa, num momento, da extrema liquidez à perfeita dureza. Por conseguinte, um tal evento pode denominar-se extraordinário e exige um testemunho consideravelmente forte para o tornar crível aos habitantes de um clima quente; não é, porém, miraculoso nem contrário à experiência uniforme do curso da natureza em casos onde todas as circunstâncias são as mesmas. Os habitantes de Samatra viram sempre a água líquida no seu próprio clima e o congelamento dos seus rios deveria julgar-se um prodígio; mas nunca viram água em Moscovo, durante o Inverno, e, por conseqüência, não podem justamente ser categóricos sobre qual aí seria a conseqüência. Voltar

3 - Por vezes, um evento pode, de per si, não parecer contrário às leis da natureza e, no entanto, se fosse real, poderia, em virtude de algumas circunstâncias, denominar-se milagre, porque, de fato, é contrário a essas leis. Assim, se uma pessoa, reivindicando uma autoridade divina, mandasse a um doente para se pôr bom, a um homem saudável para cair morto, às nuvens para chover, aos ventos para soprar, em suma, mandasse a muitos eventos naturais para imediatamente obedecerem à sua ordem, tudo isso poderia justamente considerar-se milagres, porque são, neste caso, efetivamente contrários às leis da natureza. Se alguma suspeita persiste de que o evento e a ordem coincidem por acidente, não existe nenhum milagre nem transgressão das leis da natureza. Se tal suspeita se eliminar, existe evidentemente um milagre e uma transgressão dessas leis, porque nada pode ser mais contrário à natureza do que a voz ou a ordem de um homem ter uma tal influência. Um milagre pode definir-se com muita exatidão como transgressão de uma lei da natureza por uma volição da Divindade ou pela interposição de algum agente visível. Um milagre pode ou não vir a ser descoberto pelos homens. Isso não altera a sua natureza e essência. O levantar uma casa ou um navio no ar é um milagre visível. A elevação de uma pena, quando o vento carece minimamente da força requerida para tal fim, constitui também um verdadeiro milagre, se bem que, quanto a nós, não tão perceptível. Voltar

4 - Hist. lib., IV., cap. 81. Suetónio apresenta quase o mesmo relato na Vida de Vespasiano. Voltar

5 - Este livro foi escrito por Mr. Montgeron, advogado ou juiz do Parlamento de Paris, um homem proeminente e de caráter, que foi também um mártir da causa e, segundo se diz agora, está algures numa masmorra por causa do seu livro.

Há um outro livro em três volumes (chamado Recueil des Miracles de l'Abbé Paris) que fornece a descrição de muitos desses milagres e é acompanhado de prefácios, que estão muito bem escritos. No entanto, ao longo de todos eles, surge uma comparação ridícula entre os milagres do nosso Salvador e os do Abbé; aí se afirma que a evidência a favor dos últimos é igual à dos primeiros, como se o testemunho dos homens alguma vez pudesse pôr-se na balança com os do próprio Deus, que guiou a pena dos escritores inspirados. Se de fato, estes escritores houvessem de considerar-se apenas como um testemunho humano, o autor francês é muito moderado na sua comparação, visto que poderia, com alguma aparência de razão, alegar que os milagres jansenistas ultrapassam muito os outros em evidência e autoridade. As circunstâncias seguintes são tiradas de dissertações, inseridas no livro supramencionado.

Muitos dos milagres do Abbé Paris foram imediatamente comprovados por testemunhas perante os funcionários ou o tribunal do bispo em Paris, sob a vigilância do cardeal Noailles, cuja reputação, em virtude da integridade e da capacidade, nunca foi contestada mesmo pelos seus inimigos.

O seu sucessor no arcebispado era um inimigo dos jansenistas e foi por esta razão promovido à sé pelo tribunal. No entanto, 22 priores ou curés de Paris, instam, com infinito zelo, a que ele examine esses milagres, os quais, segundo afirmam, são conhecidos em todo o mundo e indiscutivelmente certos. Prudentemente, porém, o cardeal não permitiu.

O partido molinista tentou desacreditar esses milagres num dos casos, o da Mademoiselle le Franc. Mas, além de que a sua ação no tribunal foi, sob muitos aspectos, a mais irregular do mundo, em particular por citar apenas algumas testemunhas jansenistas, que tinham falsificado, além disso, afirmo, depressa se viram esmagados por uma multidão de novas testemunhas, cento e vinte em número, muitíssimas delas de confiança e de recursos em Paris, que confirmaram sob juramento o milagre. Isso foi acompanhado por um solene e sincero apelo ao Parlamento. Mas o Parlamento foi proibido pela autoridade de se imiscuir no assunto. Por fim, observou-se que, onde os homens ardem de zelo e entusiasmo, não existe grau algum de testemunho humano tão forte que não se consiga para a maior absurdidade; os que forem simplórios ao ponto de investigarem por este meio a questão, e procurarem falhas no testemunho, virão certamente a ser confundidos. Deve, na verdade, ser uma impostura miserável, que não prevalece nesta controvérsia.

Todos os que estiveram em França por esta altura ouviram falar da reputação do Mons. Heraut, o lieutenant de Police, cuja vigilância, perspicácia, atividade e ampla inteligência foram muito comentadas. Este magistrado, que pela natureza do seu cargo é quase absoluto, foi investido de plenos poderes com o fim de suprimir ou desacreditar esses milagres; e ele, muitas vezes, prendia sem demora e examinava as testemunhas e os assuntos delas. Mas nunca conseguiu arrancar algo de satisfatório contra elas.

No caso de Mademoiselle Thibaut, mandou chamar o famoso De Sylva para a examinar; e seu testemunho é muito curioso. O médico declara ser impossível que ela pudesse estar tão doente como era comprovado pelas testemunhas, porque é inverosímil que, em tão pouco tempo, tivesse conseguido restabelecer-se tão perfeitamente como ele a encontrara. Racionava, como um homem de senso, a partir de causas naturais, mas o partido contrário disse-lhe que era tudo um milagre e que o seu depoimento era disso a melhor prova.

Os molinistas encontravam-se num dilema lamentável. Não ousavam asserir a absoluta insuficiência do testemunho humano para demonstrar um milagre. E eram obrigados a dizer que tais milagres eram forjados pela feitiçaria e pelo diabo. Mas disseram-lhes que esse fora o recurso dos antigos judeus.

Nenhum jansenista foi alguma vez impedido de explicar a cessação dos milagres, quando o adro da igreja foi fechado por édito do rei. Era o ato de tocar no sepulcro que produzia esses efeitos extraordinários; e quando ninguém podia aproximar-se do túmulo, nenhuns efeitos eram de esperar. Sem dúvida, Deus podia num momento ter derrubado os muros, mas ele é senhor das suas próprias graças e obras e não nos compete a nós explicá-las. Não derrubou as muralhas de todas as cidades como as de Jericó, ao som dos chifres de carneiros, nem abriu a prisão de cada apóstolo, como a de S. Paulo.

Não menos do que o Duc de Chatillon, duque e par de França, da mais alta categoria e família, fornece o testemunho de uma cura milagrosa, realizada sobre um dos seus criados, que vivera vários anos em sua casa com uma enfermidade visível e palpável.

Vou acabar com a observação de que nenhum clero é mais celebrado pelo rigor de vida e de maneiras do que o clero secular de França, sobretudo os priores ou curés de Paris, que testemunham estas imposturas.

A erudição, o gênio e a probidade dos gentis-homens e a austeridade das freiras de Port-Royal têm sido glorificados em toda a Europa. No entanto, todos eles fazem um depoimento sobre um milagre, operado na sobrinha do famoso Pascal, cuja santidade de vida, bem como a extraordinária capacidade, é muito conhecida. O famoso Racine fornece uma explicação deste milagre na sua célebre história de Port-Royal e reforça-a com todas as provas, que uma multidão de freiras, padres, médicos e homens do mundo, todos eles de crédito insuspeito, puderam proporcionar a seu respeito. Vários homens de letras, em particular o bispo de Tournay, consideraram este milagre tão certo que o utilizavam na refutação dos ateus e livres-pensadores. A rainha-regente de França, que era extremamente predisposta contra Port-Royal, mandou o seu próprio médico examinar o milagre, e ele voltou absolutamente convertido. Em suma, a cura sobrenatural era tão incontestável que salvou, por algum tempo, esse famoso mosteiro da ruína com que era ameaçado pelos jesuítas. Se tivesse sido uma vigarice, teria certamente sido detectada por antagonistas tão sagazes e poderosos e deveria ter acelerado a ruína dos inventores. Os nossos teólogos, capazes de erigir um castelo formidável a partir de materiais tão desprezíveis, que edifício prodigioso não poderiam ter erguido a partir destas e de muitas outras circunstâncias, que eu não mencionei! Quantas vezes os grandes nomes de Pascal, Racine, Arnaud, Nicole, ressoaram nos nossos ouvidos? Mas, se eles são atilados, aceitavam o milagre como sendo de uma importância mil vezes maior do que todo o resto da coleção. Além disso, pode muito bem servir o seu propósito, pois esse milagre foi realmente operado pelo toque de uma autêntica ponta sagrada dos santos espinhos, que compunham a santa coroa, que, etc. Voltar

6 - Lucrécio. Voltar

7 - Nov. Org., lib. II, aph. 29. Voltar

Referências:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.utm.edu/research/hume/wri/1enq/1enq-10.htm
  • Traduzido por: Artur Morão - Edições 70, Lisboa, Portugal, 1989
  • Traduções para espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.