Richard Dawkins
 
 
Estatísticas Oficiais da STR Publicado: 27/11/2002
Atualizado: 27/11/2002
   
                     
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O QUE HÁ DE ERRADO COM O PARANORMAL?
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de Richard Dawkins


A ciência nos diz o que temos motivos para acreditar. Não o que temos o dever de acreditar. Não o que especialistas, em sua sabedoria pontifical, nos instruem a acreditar. Não o que alguma autoridade admirada como Albert Einstein ou Stephen Hawking acredita. Não, a ciência nos diz o que tem um bom motivo para se acreditar.

A História mostra muitos exemplos onde a melhor ciência da época estava errada, superada nos séculos posteriores. Há muito que a ciência não sabe. Estamos bastante satisfeitos e admiti-lo. Mas é um desafio. Não desistimos simplesmente com "Ah bem, tem que ser um milagre que não foi feito para que o entendamos". Ao invés, seria "Ok, não compreendemos ainda. Mas estamos trabalhando nisso".

E quanto ao paranormal? O que isso significa? Tem sido definido como "coisas que a ciência não pode explicar". O que quer dizer "não pode explicar e nunca poderá", o que é muito mais forte do que "não solucionou ainda". Uma vez já foi um mistério como os morcegos conseguiam se orientar no escuro. Hoje sabemos. Eles usam ecos de gritos altos demais para ouvirmos. Ninguém quer dizer que os morcegos foram paranormais um dia e que não são mais. E não há nada necessariamente paranormal na cura pela fé. Ou visitantes do espaço sideral. Eu apostaria que há criaturas em outros mundos. Um dia elas podem vir aqui, mesmo que isso seja enormemente menos provável. E se eles realmente vierem, é ainda menos provável que eles se pareçam conosco ou queiram abduzir nossas mulheres.

Dizer que algo é paranormal significa que será para sempre impossível para a ciência explicá-lo. É um milagre. Como uma máquina de moto perpétuo, ou um homem puxando um trem com seus dentes. Há algum exemplo autêntico de tais milagres? Não. O filósofo David Hume apontou que deveríamos aceitar um milagre apenas se as alternativas - fraude, mentira, ilusão ou o que quer que seja - fossem ainda mais miraculosamente improváveis. Geralmente tais alternativas são todas muito prováveis.

Uma pesquisa recente mostrou que aproximadamente 50% das pessoas acreditam em leitura do pensamento. Na verdade, se a telepatia alguma vez fosse demonstrada convincentemente, eu a trataria como um problema fascinante que a ciência ainda não entende, como o rádio o foi, um dia. Mas vamos falar sobre ela de qualquer forma porque, como a astrologia, se houvesse qualquer prova (não há nenhuma) seria difícil para a ciência atual explicá-la.

Posso entender por que tantas pessoas crêem na telepatia. Nós a temos visto ser 'demonstrada' na televisão. Ou temos lido sobre experiências 'misteriosas', digamos, uma mãe subitamente tem um pressentimento avassalador que seu filho na Austrália está em perigo - e mais tarde descobre que de fato ele estava. Deixe-me explicar por que não devemos nos impressionas por tais 'provas'.

Primeiro as 'demonstrações' da TV. Esses são apenas truques de ilusionismo. E nem mesmo muito espertos. Em um programa apresentado por David Frost, um pai e seu filho, de Israel apresentaram o ato que segue. O pai pareceu 'transmitir' números a seu filho vendado. Quando chegou a hora da 'transferência de pensamento', o pai gritou algo como "Você pode fazer, filho?". E o filho coaxou a resposta "Quatro" ou o que quer que fosse. Ele estava sempre certo. Como ele estava vendado tinha que ser telepatia, certo?

Errado. Há vários códigos simples pelos quais o pai poderia ter transmitido o número 5. A contagem das palavras em seu grito aparentemente inocente é uma possibilidade. Se a informação a ser transmitida fosse 5 ao invés de 4, ele poderia ter gritado "Bem, você pode fazer, filho?". Se fosse 3, ele poderia ter gritado "Pode fazer, filho?". Se fosse 2 "Continue filho". Ao invés de ficar espantado, David Frost deveria ter tentado o experimento simples de amordaçar o pai além de vendar o filho.

Não importa exatamente que truque a dupla usou. Temos visto atos melhores de mágicos de festas de crianças. Então nos dizem que é apenas um ilusionista, então não achamos que é um paranormal. É só porque David Frost está lá, engasgando e arregalando os olhos que levamos isso a sério.

Não sei como os ilusionistas fazem a maioria de seus truques. Geralmente fico espantado com eles. Não entendo como eles tiram coelhos de cartolas ou serram caixas ao meio sem ferir a moça que está dentro. Mas não acredito que seja paranormal, e nem você. Todos sabemos que há uma explicação perfeitamente boa que o ilusionista poderia nos dizer se quisesse (de modo bastante compreensível ele não o faz). Assim por que deveríamos achar que é um milagre quando exatamente o mesmo tipo de truque tem o rótulo 'Paranormal' colado nele por uma companhia de televisão.

Se a telepatia (ou a levitação, ou erguer mesas com o poder da mente, etc.) fossem algum dia provadas cientificamente, seus descobridores mereceriam o Prêmio Nobel e provavelmente o receberiam. Assim, por que perder tempo fazendo truques na televisão? O motivo é obvio. Essas pessoas estão somente fazendo truques e elas sabem muito bem que elas não poderiam fazê-los sob condições cientificamente controladas.

Dito isso, alguns 'paranormalistas' são habilidosos o bastanta para enganar a maioria dos cientistas e as pessoas melhor qualificadas para desmascará-las são outros ilusionistas. É por isso que os mais famosos paranormais e médiuns regularmente arranjam desculpas e recusam-se a ir ao palco se souberem que a primeira fila da audiência está cheia de ilusionistas profissionais.

Vários bons ilusionistas, incluindo, O Incrível Randi, nos EUA e Ian Rowland aqui (Inglaterra), exibem shows nos quais eles publicamente duplicam os 'milagres' de paranormalistas famosos - então explicam para a audiência que são apenas truques. Os Racionalistas da Índia são jovens ilusionistas dedicados que viajam pelos vilarejos desmascarando os assim chamados 'homens santos', duplicando seus 'milagres'. Infelizmente, algumas pessoas ainda acreditam em milagres, mesmo após os truques terem sido explicados. Outros caem em desespero: "Bem, talvez Randi faça por meio de truques", eles dizem, "mas isso não significa que outros não estejam fazendo milagres verdadeiros". Para isso, Ian Rowland replicou memoravelmente: "Bem, se eles estão fazendo milagres, eles estão fazendo do modo mais difícil!".

Por que, quando ele poderia ganhar a vida como um ilusionista honesto, preferiria passar-se por um 'paranormal' fazedor de milagres. Sinto muito dizer que a resposta é muito simples. Há mais dinheiro na paranormalidade e é mais glamuroso. Que ilusionista profissional poderia esperar aparecer na televisão com David Frost como um amigável mestre de cerimônias? Ou ganhar gordos 'honorários de consultor' de companhias petrolíferas por 'adivinhação psíquica' sobre onde perfurar? Ou ter a Princesa Diana descendo de um helicóptero no seu gramado?

E quanto às experiências misteriosas que ouvimos falar? Digamos, sonhar com um tio há muito esquecido, então acordar e descobrir que ele morreu durante a noite. Não há truques aqui. As pessoas que tiveram essas experiências são sinceras, e quem pode culpá-las? Isso pode ser muito estranho. Acontece apenas que a maioria de nós é ruim na teoria das probabilidades. Um cientista americano que teve um sonho profético assustador parou no dia seguinte e foi fazer alguns cálculos. Ele estimou a probabilidade de, apenas por acaso, uma experiência tão misteriosa quanto a dele pudesse ocorrer com uma pessoa em qualquer noite. Seria uma probabilidade muito baixa, você diria. Mas, dada a população dos Estados Unidos, ele descobriu que aproximadamente 300 pessoas estariam experimentando coincidências no mínimo tão estranhas quanto à dele, a cada dia. Apenas aqueles que tiveram tais experiências incomodam-se de lembrar-se delas ou escrever para os jornais. É por isso que ouvimos falar delas. Ninguém escreve para o jornal e diz: "Sonhei que meu tio tinha morrido. E quando acordei na manhã seguinte, você acreditaria que não havia nada de errado com ele?".

E quanto àqueles que se apresentam em público e parecem 'sentir' que alguém na platéia teve um ente querido cujo nome começava com M, que tinha um pequinês, e morreu de alguma coisa relacionada com o peito - 'clarividentes' e 'médiuns' com 'conhecimentos íntimos' que eles 'não poderiam ter obtido por quaisquer meios normais?'. Não tenho espaço para entrar em detalhes, mas os truques são bem conhecidos por ilusionistas pelo nome de 'leitura fria'. É uma combinação sutil de saber o que é comum (muitas pessoas morrem do coração ou de câncer no pulmão), e procurar pistas (as pessoas entregam o jogo quando você começa a ficar quente), ajudado pela disposição da audiência de lembrar acertos e esquecer erros. Praticantes da leitura fria geralmente usam espias que ouvem trechos de conversa quando a platéia entre no teatro.

Quando bem feita, a leitura fria pode ser impressionante, mas é perfeitamente bem compreendida e não há nada de milagroso sobre ela. Há livros excelentes que explicam a leitura fria e muitos outros truques 'paranormais', incluindo Bizarre Beliefs de Mike Hutchunson e Simon Hoggart (Prometheus Books) e Why People Believe Weird Things de Michael Shermet (W.H. Freeman). Para ver o desmascaramento da astrologia, adivinhação pela água, cura pela fé, levitação e muito mais, leia Flim-Flam de James Randi (Prometheus Books). Para reflexões belamente escritas sobre a riqueza da ciência e a pobreza do paranormal, todos deveriam ler O Mundo Asssombrado Pelos Demônios de Carl Sagan (Hodder Headline). Oh, em caso você tenha se impressionado com o entortamento de colheres, os ilusionistas americanos Penn e Teller explicam na Internet exatamente como é feito: http://www.randi.org.jr/ptspoon.html. (o link parece não estar mais lá - John C)

O paranormal é uma farsa. Aqueles que tentam vendê-lo para nós são farsantes e charlatães, e alguns deles ficaram podres de ricos nos enganando. Você não iria cair no conto de um vendedor que oferecesse um carro sem motor. Então por que ser enganado por paranormais de faz-de-conta? O que eles estão vendendo não funciona. Mande-os empacotar tudo e tire-os do negócio.

***

Uma versão pirateada quase irreconhecível deste apareceu no The Sunday Mirror (Londres) em 8 de Fevereiro de 1998, sob o título "Alienígenas não estão entre nós".

Informativo:

  • O ensaio base original está disponível em http://www.world-of-dawkins.com/Dawkins/Work/Articles/1998-02-08paranormal.htm
  • Traduzido por: Arnaldo Inouye Elias
  • Traduções para o espanhol e sugestões para correções na tradução e na gramática são bem-vindas.
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