Publicado: 04/05/2002
de Barry Beyerstein
Em debates com aqueles que advogam a existência de fenômenos paranormais, eu freqüentemente encontro extensões dessa argumentação que são baseadas na amplamente divulgada, mas pouco evidenciada afirmação de que as pessoas normalmente utilizam apenas 10% de seus cérebros. Disso segue que, se não sabemos qual a função do restante de nossos cérebros, então é possível que ali esteja o repositório de poderosas faculdades mentais que apenas alguns escolhidos tenham desenvolvido. Essa pequena e especial minoria pode supostamente ter utilizado essas faculdades para obter capacidades tais como levitação, torção de objetos metálicos, clarividência, precognição, telepatia, cura psíquica e outras dificilmente admissíveis aos meros mortais confinados aos 10% de seus cérebros. É claro que os 10% são em si questionáveis mas, mesmo se esse número for preciso e de fato utilizar-mos apenas 10% de nossos cérebros, isso em momento algum justifica a possível existência de poderes paranormais, que devem ser provados a fim de sustentar ou não seus alegados efeitos. O mito dos 10% é tão predominante que eu fiquei curioso sobre sua origem e persistência apesar de sua inerente improbabilidade. Como alguém que despende muito tempo de sua atividade profissional tentando conhecer o funcionamento do cérebro, devo admitir a extensão de nosso desconhecimento sobre como esse 1 quilo e meio de massa cinzenta pode produzir pensamentos, sentimentos e comportamentos. Além disso, admito que praticamente desisti de tentar entender como meus oponentes chegaram ao percentual preciso que utilizamos. Até onde conheço e tenho exautivamente pesquisado, essa alegação não aparece em parte algum da literatura acadêmica sobre neurologia ou fisiologia psicológica. Pelo contrário, esse percentual está em desacordo com muito do que conhecemos sobre o cérebro. A tese do "cérebro dormente" parece ser outra falácia que ganhou confiabilidade pela repetição. Apesar de firmemente enclausurada na sabedoria convencional, nunca ninguém que a utilizou pôde dizer quem primeiro fez tal alegação ou que evidência existe em seu favor. A lógica sozinha poderia invalidar a tese dos 10%. Quando perguntado se os 10% são verdade, freqüentemente resposndo: "Como você acha que estaria se 90% do seu cérebro ficasse repentinamente incapacitado?" Estimativas de lesões típicas implicitamente indicam a implausibilidade da afirmação. Todos conhecemos vítimas que perderam consideravelmente menos do que 90% de seu tecido cerebral e ficaram severamente debilitadas. Além disso, virtualmente todas as pessoas com nível razoável de educação aceitam a tese de que o cérebro humano é produto de milhões de anos de evolução. Dado o conservadorismo da seleção natural, parece muito improvável que escassos recursos seriam dispendidos a fim de produzir e manter um órgão tão subutilizado. O cérebro consome muito para fucionar, aproximadamente um quarto dos recursos metabólicos do corpo. Por quanto tempo você permaneceria gastanto para aquecer os demais dez quartos de sua casa se você nunca passa da cozinha? O cérebro desenvolveu alguns processos redundantes em seus circuitos como forma de proteção e segurança, mas muito pouco ou mesmo quase nada permanece sem utilização alguma. Os recursos da moderna ciência neurológica decididamente repudiam a noção de haver parcelas do cérebro inativas. Procedimentos tais como EEGs, CAT, PET e MRI, magneto encefalografias, medições de fluxos sangüíneos regionalizados e outros procedimentos mostram que, mesmo durante o sono, não há áreas silenciosas no cérebro. Eventuais indícios de inatividade seriam sinais de sérias patologias. Por meio dessas técnicas e pelo estudo de casos de traumas cerebrais, sabemos que o cérebro é uma massa diferenciada - funções distintas estão distribuídas ao longo do tecido cerebral. De acordo com o cenário dos 10%, 90% de cada área funcional deveria permanecer inutilizada a fim de não perderem-se por completo certas funções num cérebro 90% dormente. Não podemos descartar essa hipótese, mas ela parece pouco plausível de acordo com resusltados obtidos em pesquisas com animais, quando eletrodos são inseridos diretamente no cérebro para mapear seus microcircuitos. Henry Ford certa vez afirmou: "Qualquer coisa que você possua, você deve ou usá-la ou então descartá-la." Músculos atrofiam em razão de não utilização e, aparentemente, também os circuitos cerebrais. Os resultados de minhas pesquisas e também de outros pesquisadores indicam que sistemas neurais que ficam isolados falham em desenvolver-se ou mesmo deterioram-se permanentemente. Se 90% de nosso cérebros fossem de fato ociosos, seria esperada massiva deterioração, e não os sinais apresentados em pessoas normais em vários scanners. Mas é claro, os 10% poderiam estar referidos a capacidades de armazenamento, velocidade de processamento ou outro índice de atividade cerebral e não apenas a volume. Mas eu desconheço qualquer método que possa determinar os limites teóricos desses processamentos a fim de estimar a eficiência média de alguém. Pesquisas indicam que não é a capacidade de armazenamento que obstrui performance, é a dificuldade em resgatar o que havia sido armazenado de forma segura. Assim, devo concluir que o alegado décimo é mais uma metáfora para satisfazer alguns desejos humanos transcendentes do que um fato neurológico. Então, por que tantas pessoas tomam como verdade essa afirmação onipresente da mitologia neurológica? A notável habilidade de cérebros em desenvolvimento de reorganizar-se e recuperar-se de lesões pode ser uma das razões. Observa-se em crianças uma recuperação para níveis surpreendentemente normais de atividade após perda de um hemisfério cerebral em razão de acidentes ou doenças. Isso é bem menos do que 90% do cérebro, é claro, mas células nervosas mortas não se recuperam. Todavia, essas crianças ainda mostram deficiências. Infelizmente, essa habilidade que o hemisfério remanescente possui de assumir as funções de seu hemisfério par deteriora-se com o tempo, o que pode ser comprovado com uma visita a qualquer centro neurológico. Todavia, a popularização dessas recuperações observadas pode possivelmente ter sugerido que essas crianças, de fato, nunca precisaram do hemisfério perdido. Essa incompreensão foi recentemente reforçada num documentário veiculado pela TV, levado ao ar pela PBS e pela Knowledge Network. Nesse programa, foi mostrado o médico inglês, Jonh Lorber, e um extraordinário grupo de jovens pacientes que apresentavam inteligência normal ou mesmo superior, estando perfeitamente integrados socialmente e em plena atividade educacional, apesar de algumas queixas neurológicas menores. Surpreedentemente, exames do tipo CAT revelavam que seus hemisférios cerebrais haviam sido comprimidos em uma camada de espessura inferior a uma polegada em razão de alargamento por excesso de líquidos nos ventrículos subjacentes. Esse fato ocorreu durante um longo período ao longo do qual esses líquidos acabaram por lesionar canais basais obstruídos. A falta de retardo mental nesses jovens apesar da enorme retração de tecido cerebral levou os produtores do programa a levantar a enganosa questão que acabou por tornar-se o título do episódio: "O cérebro é realmente necessário?" O que os notáveis casos do doutor Lorber mostram não é, como sugeriu o documentário, a irrelevância do cérebro em nossas vidas mentais, mas antes a incrível habilidade desse órgão em ajustar-se a grandes danos, desde que eles ocorram lentamente e em tenra idade. Não sabemos quanto desse encolhimento dos hemisférios cerebrais deveu-se a perda celular e quanto à redução do volume por simples compressão. O fato de que esses pacientes puderam apresentar atividades e condições normais com essas reduções em seus cérebros não implica que eles não teriam utilizado o restante de seus tecidos cerebrais caso não houvesse ocorrido o dano. Também suspeito que o grau de normalidade mostrado possa ter sido um tanto quanto exagerado por razões de dramaticidade. De qualquer maneira, os casos do doutor Lorber são um eloqüente testemunho da resistência de cérebros jovens e de sua habilidade de reorganização e condução. Cérebros maduros, sujeitos a crescimentos rápidos de pressão intracranial, devido a tumores, por exemplo, certamente apresentariam efeitos mais drásticos. A origem do mito dos 10% permanece obscura, mas aprendi que tem sido utilizado amplamente como fundamento em muitos cursos de auto-ajuda, como aqueles ministrados pela organização Dale Carnegie. Foi canonizada por ninguém menos do que Albert Einstein, que certa vez aventou essa explicação para a enxurrada de questões acerca de seu brilho mental. Acredito que essa visão do cérebro vegetativo pode ter surgido inicialmente a partir de interpretrações leigas sobre antigos achados neurológicos. Estudos mais antigos mostraram que o córtex de ratos podia ser removido com aparentemente poucas conseqüências em seu comportamento (testes posteriores mostraram deficiências não detectáveis à época). De forma similar, interpretações errôneas de certos termos utilizados por neurologistas podem ter contribuído para o erro. Com o avanço do processo evolutivo, o cérebro dos mamíferos cresceu muito, mas uma parte proporcionalmente menor ocupa-se com funções tácteis e motoras. Esse fato foi demonstrado na década de 30 pela estimulação da superfície cortical em uma variedade de espécies. Uma vez que o conhecimento corrente não achava explicações razoáveis para a existência de áreas cujas funções não estavam relacionadas à motricidade ou a sensações, surgiu a denominação "córtex dormente". Como vimos, essas àreas podem ser tudo menos "dormentes" - elas são responsáveis por nossas características intrinsecamente humanas, incluindo linguagem e pensamento abstrato. Áreas de atividade máxima alternam-se no cérebro à medida que mudamos de atividade, atenção ou motivação, mas não há, normalmente, regiões dormentes aguardando sua vez para entrarem em ação. Ao final, cai por terra, novamente, o conforto preconizado pela maioria dos credos místicos e vinculados à Nova Era. Seria ótimo que fossem verdadeiros - a morte não seria esse choque negativo e não haveria interrupções abruptas em nossas vidas, materiais ou mentais. Todos poeríamos nos tornar Einsteins, Rockfellers ou Uri Gellers, bastando para isso que aperfeiçoássemos o subutlizado órgão que separa nossas orelhas! Esse conceito do "cérebro reserva" continua a nutrir a clientela dos "psicólogos populares" e seus incontáveis esquemas de auto-ajuda e auto-promoção. Quem diria não à afirmação de que nossos talentos não estão desenvolvidos ao máximo? Como alento à esperança ou fonte de conforto, é muito provável que essa assertiva tenha causado mais bem do que mal, mas o fato de ser confortante não implica que seja verdadeira. Como forma de ajuda a ocultistas que porventura busquem alguma base neurológica para explicar o milagre, a probabilidade de que a tese dos 10% seja verdadeira é muito inferior a 10%.
Extraído da revista Rational Enquirer, vol. 3, nº 2, outubro de 1989. Barry Beyerstein trabalha no Laboratório de Comportamento Cerebral, Departamento de Psicologia, SFU.
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